Há algo de profundamente desarmado em Double Infinity, novo álbum do Big Thief. A banda, agora reduzida ao trio formado por Adrianne Lenker, Buck Meek e James Krivchenia após a saída do baixista Max Oleartchik, segue adiante como quem precisa reconstruir um espaço afetivo e sonoro. Essa reconfiguração não aparece como ruptura, mas como expansão: colaboradores entram e saem, texturas se multiplicam, e os arranjos, frequentemente abertos, parecem esperar que algo os atravesse. O resultado é uma obra ambiciosa, quase sempre bela, mas que ocasionalmente se perde na própria busca por transcendência — um paradoxo que constitui parte de seu charme e de suas fissuras.
A força de Double Infinity reside, antes de tudo, na tentativa de capturar o que não cabe nas palavras. A abertura, “Incomprehensible”, já oferece a chave do disco: Lenker canta sobre o medo do envelhecimento, o olhar herdado das mulheres da família, o corpo que muda, e o desejo de permanecer íntegra diante das expectativas sociais — “Society has given me the words to think that way”. A música é, simultaneamente, confissão e recusa: se as palavras são insuficientes, resta o gesto musical, a voz que vacila, a memória como campo de resistência. É um começo delicado, íntimo e promissor, que define a paleta emocional do álbum.
Essa tensão entre dizer e sentir se intensifica em “Words”, uma das faixas mais reveladoras da estética do disco. “Words are tired and tense / Words don’t make sense”, insiste Lenker, como se repetisse para si mesma um limite cognitivo fundamental. A canção, quase minimalista, reflete a própria crítica que muitos ouvintes — e parte da imprensa — enxergaram no álbum: a simplicidade deliberada das letras, que por vezes se aproxima do mantra, pode soar tanto como revelação quanto como ingenuidade. Aqui, no entanto, a estratégia funciona: a repetição não empobrece, mas aprofunda.
Há também momentos em que a repetição se torna ferramenta expressiva mais explícita, caso de “Happy With You” e “No Fear”. A primeira transforma a afirmação de contentamento e a recusa da vergonha social em refrão circular, quase meditativo. Já a segunda, embora coerente com o universo espiritual que o disco tenta construir, deixa escapar certa leveza excessiva — a linha entre epifania e esvaziamento é fina, e a faixa nem sempre a atravessa com precisão. Se o álbum com frequência almeja o sublime, é aqui que ele corre o risco de soar mais afirmativo do que necessariamente profundo.
O centro emocional de Double Infinity, porém, não está na espiritualidade declarada, mas na relação com a memória e o tempo. “Los Angeles” retorna a um amor reencontrado, feito de fragmentos — “kissing in a fistful of fragments”. “How Could I Have Known”, talvez a faixa mais madura e dolorida, revisita encontros passados com a consciência tardia de que aquilo que parecia cotidiano já carregava um destino. Lenker tem um talento incomum para transformar lembranças em imagens tangíveis, e esses dois momentos representam o melhor do álbum: o Big Thief como cronista da fragilidade humana, do instante que escapa.
O centro emocional de Double Infinity, porém, não está na espiritualidade declarada, mas na relação com a memória e o tempo.
Outro ponto alto é “Grandmother”, que conta com Laraaji, presença luminosa que amplia o alcance espiritual da banda sem torná-la etérea. A música opera na fronteira entre a saudade familiar e a dissolução do mundo material — “Knowing soon there’ll be no bar / No car, no stadium” —, mas se recusa ao tom elegíaco: “Gonna turn it all into rock and roll”. É um dos gestos mais belos do disco, porque transforma finitude em celebração, perda em criação. Aqui, a busca por transcendência finalmente encontra corpo e peso.
A faixa-título, “Double Infinity”, sintetiza a ambição do álbum: “At the bridge of two infinities / What’s been lost and what lies waiting”. É um verso que poderia soar grandiloquente, mas que funciona na voz de Lenker porque ela não a projeta para fora — canta como quem examina o próprio reflexo num rio. Ainda assim, a canção exibe o limite da proposta: ao insistir na transcendência, o Big Thief às vezes deixa o concreto escapar. Há beleza, mas também uma vaga impressão de inacabamento, como se algumas ideias estivessem mais sugeridas do que plenamente elaboradas.
Essa oscilação talvez reflita o momento da banda. A saída de Oleartchik abriu espaço para improvisação, colaborações e experimentos, mas também expôs fragilidades. Double Infinity é um álbum que abraça riscos — inclusive o de não saber exatamente o que encontrar. É isso que faz dele, simultaneamente, um trabalho fascinante e desigual: ele mira alto, e nem sempre alcança, mas ao menos continua mirando.
No fim, o que permanece é o gesto — a tentativa de nomear o que escapa, de sentir aquilo que não cabe na linguagem. O Big Thief prossegue seu caminho sem abandonar a delicadeza que o consagrou, mas disposto a empurrá-la para novos terrenos. Double Infinity não é a obra-prima absoluta que alguns esperavam nem a deriva espiritual que outros temiam. É, antes, um retrato honesto de uma banda em movimento: frágil, luminosa, imperfeita e viva.
E talvez seja exatamente isso que torna o álbum tão humano.
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