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‘Adultos’ observa a GenZ com humor irregular

Produção do FX, ‘Adultos’ acerta mais quando abandona a tese geracional e aposta na engrenagem clássica da sitcom.

porAlejandro Mercado
24 de dezembro de 2025
em Televisão
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Irregular, 'Adultos' se sai bem quando se leva menos a sério. Imagem: FX Network / Divulgação.

Irregular, 'Adultos' se sai bem quando se leva menos a sério. Imagem: FX Network / Divulgação.

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Retratar uma geração em produções televisivas é, relativamente, comum. O que também é comum é a armadilha recorrente nas séries que se propõem a tal empreitada: a tentação de explicar demais aquilo que deveria simplesmente ser encenado. Adultos, criação de Ben Kronengold e Rebecca Shaw, parecia consciente desse risco — e, paradoxalmente, caiu nele logo no primeiro episódio. Ainda assim, ao longo da temporada, a série, disponível no Brasil pelo Disney+, aprende uma lição essencial do próprio amadurecimento que tenta dramatizar: quanto menos ela se esforça para se afirmar como diagnóstico geracional, mais eficaz se torna como comédia.

A premissa é familiar, quase programaticamente genérica. Um grupo de jovens adultos recém-formados divide uma casa no Queens, vivendo entre frustrações profissionais, intimidade excessiva, sexo, drogas leves e uma sensação difusa de que o mundo prometeu mais do que está entregando. É impossível não lembrar de Friends — comparação que a própria série parece antecipar —, mas Adultos pertence a outro ecossistema emocional: menos aspiracional, mais precarizado, atravessado por ansiedade digital, vocabulário terapêutico e uma exposição constante que dilui qualquer noção de privacidade.

O episódio piloto, no entanto, compromete parte desse potencial. A ânsia de soar provocativo leva a série a apostar em choques sucessivos: sexo explícito, comentários socialmente inadequados, situações que beiram o grotesco. O humor cringe, que pode ser uma ferramenta potente quando bem dosada, aqui surge inflado, como se os criadores temessem não deixar claro o suficiente que estão falando de uma geração “sem filtros”. O resultado inicial é desigual: mais constrangimento do que riso, mais tese do que personagem.

Quando a série encontra situações cômicas que emergem organicamente das neuroses de seus personagens, ela finalmente ganha corpo.

Esse desequilíbrio começa a se corrigir à medida que Adultos se afasta da urgência de “dizer algo” sobre a GenZ e passa a explorar, com mais atenção, as engrenagens clássicas da sitcom. Quando a série encontra situações cômicas que emergem organicamente das neuroses de seus personagens — e não apenas de sua inadequação performática —, ela finalmente ganha corpo. Episódios centrados em mal-entendidos, dinâmicas de grupo e decisões socialmente desastrosas revelam um domínio mais seguro do tempo cômico e da construção de personagens.

Nesse ponto, a lembrança de Broad City torna-se inevitável. Assim como a série criada e protagonizada por Abbi Jacobson e Ilana Glazer, Adultos entende a cidade não como espaço de glamour, mas como cenário de sobrevivência emocional e econômica. Há um parentesco claro na maneira como o absurdo cotidiano é tratado com naturalidade, e como a amizade funciona menos como ideal romântico e mais como pacto de apoio diante do caos. A diferença é que, enquanto Broad City apostava em uma energia anárquica e expansiva, Adultos é atravessada por um cansaço mais difuso — um humor que nasce da exaustão, não da euforia.

O elenco é outro trunfo que se afirma com o tempo. Malik Elassal, como Samir, encarna com precisão o arquétipo do jovem paralisado entre expectativas herdadas e a incapacidade de agir. Lucy Freyer confere densidade à Billie, uma ex-aluna exemplar agora perdida em sua própria narrativa de sucesso. Amita Rao transforma Issa em um retrato incômodo, mas eficaz, do narcisismo travestido de consciência social — personagem que frequentemente ultrapassa o limite do aceitável, mas cuja função dramática é justamente tensionar esse espaço. Owen Thiele, como Anton, talvez seja o mais afinado com o espírito da série: seu humor nasce do excesso de sociabilidade, da incapacidade de sustentar vínculos que não sejam superficiais. Jack Innanen, como Paul Baker — sempre chamado pelo nome completo —, funciona como contraponto: doce, deslocado, quase uma presença alienígena em meio ao caos emocional do grupo.

Formalmente, Adultos acerta ao manter episódios curtos e ritmo ágil. A série não se propõe a grandes arcos narrativos nem a transformações profundas — o que, em vez de limitação, revela-se uma escolha honesta. Trata-se menos de acompanhar trajetórias de amadurecimento e mais de observar um estado permanente de suspensão: a vida adulta como promessa adiada. Quando a série tenta se ancorar em verossimilhança sociológica, tropeça; quando assume o exagero e o artifício da sitcom, funciona melhor.

É sintomático que os melhores momentos de Adultos surjam quando ela abandona o comentário social explícito e se entrega ao absurdo. Momentos como a amizade improvável com um possível criminoso local, o retorno constrangedor a ambientes do passado, as regras arbitrárias que o grupo impõe uns aos outros como tentativa desesperada de organização dão à produção o verdadeiro olhar reflexivo sobre quem retrata. Nessas situações, a série deixa de explicar seus personagens e passa a deixá-los agir — e é aí que o humor emerge com mais clareza.

Adultos dificilmente será um marco geracional ou uma obra definidora de época. Mas talvez essa expectativa diga mais sobre a crítica do que sobre a própria série. Quando aceita sua vocação mais modesta — a de observar, com ironia e alguma ternura, jovens adultos tentando sobreviver a si mesmos —, a produção do FX distribuída pela Hulu encontra uma voz própria. Imperfeita, irregular, por vezes excessiva, mas suficientemente honesta para reconhecer que crescer, hoje, é menos sobre chegar a algum lugar e mais sobre aprender a lidar com a sensação constante de não estar pronto.

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Tags: adultosBen KronengoldDisney PlusHuluRebecca ShawSérie

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