Dois Papas, espetáculo apresentado no Guairão durante o Festival de Curitiba, parte de um material já bastante conhecido do público. O texto de Anthony McCarten deu origem também ao bom filme Dois Papas (2019), dirigido por Fernando Meirelles, que ampliou a popularidade dessa leitura ficcional sobre o encontro entre Bento XVI e o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio.
A peça organiza esse encontro como um embate de visões de mundo. De um lado, o rigor doutrinário do alemão Joseph Ratzinger. De outro, a perspectiva pastoral e mais aberta de Bergoglio. A dramaturgia deixa essas diferenças muito evidentes, o que favorece a comunicação imediata com a plateia, mas também simplifica contradições históricas mais profundas.
Bergoglio aparece como o papa humano, próximo do povo, marcado por culpas e ambiguidades. Ratzinger surge como o intelectual conservador, mais confortável no pensamento do que no trato cotidiano com as pessoas. Funciona no plano dramático, mas por vezes reduz os personagens a traços bastante reconhecíveis.
A direção de Munir Kanaan aposta na sobriedade. A encenação é limpa, visualmente contida, e mantém o espetáculo fluindo com segurança. Não há tentativa de confrontar criticamente o texto. A escolha é pela clareza e pela eficiência.
A direção de Munir Kanaan aposta na sobriedade. A encenação é limpa, visualmente contida, e mantém o espetáculo fluindo com segurança.
O diferencial está no elenco. Carol Godoy e Eliana Guttman trazem presença e consistência às freiras que atravessam a narrativa, sugerindo, com delicadeza, o lugar historicamente secundário das mulheres na estrutura da Igreja.
Mas é no encontro entre Celso Frateschi e Zé Carlos Machado que o espetáculo realmente ganha força. São dois grandes atores que sabem trabalhar as entrelinhas. Machado humaniza um Bento XVI que poderia ser apenas austero. Frateschi constrói um Bergoglio vivo, caloroso, sustentado por pausas e pequenas inflexões. Quando os dois dividem a cena, o espetáculo cresce.
No fim, Dois Papas é um espetáculo correto e bem interpretado, que acerta o público em cheio, mas confortável em sua visão conciliadora. Prefere tratar conflitos históricos como divergências morais que poderiam ser resolvidas pelo diálogo. É uma leitura generosa – e também bastante segura.
Ainda assim, é teatro que se sustenta pelo trabalho dos atores. E, como quase sempre acontece, isso faz toda a diferença.
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