• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Yuri Al'Hanati

Santa Milena

porYuri Al'Hanati
27 de abril de 2015
em Yuri Al'Hanati
A A
"Santa Milena", crônica de Yuri Al'Hanati. Imagem: Reprodução.

"Santa Milena", crônica de Yuri Al'Hanati. Imagem: Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Conheci Milena em um dia quente em Tirana. A capital albanesa fervia com a visita do presidente austríaco Heinz Fischer e bandeiras e carros oficiais estavam por todos os lados, bem como a polícia e a imprensa. Ela havia dito que iria nos mostrar a cidade. Magra, com longos cabelos negros, um All-Star vermelho e uma camisa branca da Converse, ela era a encarnação da Albânia pós-Hoxha. Com seus 20e anos, se mudou da tediosa cidade de Lushnja para estudar Economia em Tirana. Vinha de uma família muçulmana, mas não ligava para religião. Ligava para o rock n’ roll e gostava de cantar as melodias de fundo arábico e armênio da banda americana System of a Down. Dominava bem o inglês, o francês, o italiano e o espanhol, e entendia português perfeitamente porque aprendera vendo nossas novelas. Falava o albanês de Tirana, que era bem diferente na pronúncia do albanês de Kosovo, que foi o que eu aprendi e que, fiquei sabendo depois, era o albanês mais antigo que existia. Não conseguia entender o que ela dizia, era um albanês com sotaque americano, com erres retroflexos que enrolavam a palavra a todo instante.

Eu e Pat, minha companheira de viagem, passávamos os dias explorando Tirana e seus arredores, com suas florestas e seus castelos nas montanhas, e à noite me encontrava com Milena. Em uma dessas noites, jantamos uma bela caçarola de tavë kosi, um prato camponês que hoje é o meu favorito da culinária albanesa: pedaços de cordeiro imersos em arroz ao molho de iogurte, gratinados no forno. Ela falava com desenvoltura sobre a cultura albanesa e comentava seus gostos literários. Odiava o conterrâneo Ismail Kadaré, autor de Abril Despedaçado, considerava-o muito em cima do muro durante a ditadura para quem, depois da queda de Enver Hoxha, atacou o regime com tanta veemência. Em compensação, gostava de Os Demônios, o longo romance político de Dostoiévski, nada adequado para uma pessoa de 20 anos como ela. Estava em dúvidas quanto a faculdade de economia, era a alternativa mais viável para escapar da faculdade de medicina, que abominava. Era o desejo do pai, mas ela se julgava muito fraca emocionalmente para ser médica. Quis saber sobre seu pai e ela respondeu com a maior naturalidade que ele era chefe do serviço secreto albanês. Perguntei não sem uma pequena tensão na voz se ele estava nos vigiando naquele momento. Ela piscou um olho e disse: “Não se preocupe, pais controladores têm filhas que sabem se esconder quando precisam”.

“Odiava o conterrâneo Ismail Kadaré, autor de Abril Despedaçado, considerava-o muito em cima do muro durante a ditadura para quem, depois da queda de Enver Hoxha, atacou o regime com tanta veemência.”

Depois do jantar, fomos até a pirâmide. O monumento em homenagem ao ditador albanês era pichado da base até o topo, e seus vidros quase todos quebrados. Havia virado uma casa de shows em alguma época, mas já havia encontrado o fim de seus dias de glória e permanecia no centro da cidade, uma aberração arquitetônica que servia, no máximo, de ponto de encontro. Escalamos a pirâmide pelo lado de fora, um pouco bêbados pelas taças de vinho, e contemplamos a cidade e a noite estrelada de seu topo. Lá em cima, usamos nossos celulares para iluminá-la e para tocar a vallja e tropojës, uma música típica do norte da Albânia que tem das coreografias mais bonitas. E então ela dançou, graciosamente saltitando e agitando os braços sobre o antigo mausoléu do ditador morto, enquanto lá embaixo repórteres cobriam alguma greve de professores. Não tiramos nenhuma foto que tenha ficado boa, mas gravei este momento e o resto da noite para sempre na minha memória.

Ainda passamos mais algumas noites juntos. Tomamos um porre, encontramos o melhor tres leches que uma doceria albanesa poderia fazer, entramos de penetra em uma festa de formatura e lutei sumô com seus amigos nas ruas silenciosas do bairro de Blloku durante a madrugada. Mas, depois disso, nos separamos e nunca mais a vi. Seguindo nossa viagem, eu e Pat eventualmente chegamos em Montenegro e na Croácia, onde os primeiros brasileiros começaram a aparecer. Não queríamos nos misturar e inventamos um país só nosso, para responder quando a fatídica pergunta de albergue viesse. Para todos os efeitos, não somos brasileiros. Somos de uma pequena ilha caribenha chamada Santa Milena.

Tags: albaniaCrônicaenver hohxaheinz fischerismail kadarelushnjatave kosi

VEJA TAMBÉM

James Gandolfini em Família Soprano
Yuri Al'Hanati

O mistério da morte

5 de abril de 2021
Wood Naipaul
Yuri Al'Hanati

Aprender a ser Biswas

29 de março de 2021
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Timothée Chalamet está indicado ao Oscar de melhor ator por sua interpretação de Marty Mauser. Imagem: A24 / Divulgação.

‘Marty Supreme’ expõe o mito da autoconfiança americana

5 de fevereiro de 2026
'Guerreiras do K-Pop' desponta como favorito na categoria de melhor canção original no Oscar 2026. Imagem: Sony Pictures Animation / Divulgação.

O fenômeno ‘Guerreiras do K-Pop’

4 de fevereiro de 2026
Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

3 de fevereiro de 2026
A escritora argentina Samanta Schweblin. Imagem: Alejandra Lopez / Divulgação.

Em ‘O Bom Mal’, Samanta Schweblin mostra que o horror mora ao lado

30 de janeiro de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.