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‘Do Que É Feita Uma Garota’: um inferno chamado adolescência

Ao som de muito rock' n' roll, 'Do Que É Feita Uma Garota', de Caitlin Moran, é um romance poderoso sobre ser uma jovem inteligente, pobre e gorda na Inglaterra dos anos 1990.

porEder Alex
15 de julho de 2015
em Literatura
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'Do Que É Feita Uma Garota': um inferno chamado adolescência

Imagem: Reprodução.

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Quando o tempo passa e nos tornamos comportados tiozinhos que bebem com moderação e passam os sábados à noite assistindo à Netflix com uma mantinha cobrindo as pernas durante o inverno, é bastante comum direcionarmos um olhar bastante nostálgico para aquilo que vivemos na adolescência. Em geral, tende-se a pintar esse período com cores que talvez não existissem na época, mas o desconforto que deixamos ali no quarto escuro da mente é o seguinte: nós fomos muito (muito mesmo) imbecis durante a nossa adolescência. Não, não adianta negar ou se fingir de desentendido, você foi sim um grandioso babaca. Todos nós fomos.

Do Que É Feita Uma Garota, escrito por Caitlin Moran e lançado no Brasil pela Companhia das Letras, fala sobre esse período da vida em que parece haver um alvará divino que nos concede o direito de cometer todo o tipo de burrada. O nome desse alvará é “tempo”. Quando se é jovem, dá tempo de errar e começar novamente, mas será que essa regra vale pra todo tipo de cagada cometida? É isso que Johanna Morrigan, a adorável (e muitas vezes imbecil) narradora de 14 anos, irá descobrir por conta própria.

A garota e sua família vivem em Wolverhampton, uma cidade industrial pobre e meio abandonada, na Inglaterra. Tendo que lidar com problemas como o seu excesso de peso, os conflitos com sua mãe, seus outros irmãos e o alcoolismo do pai, um “eterno futuro rockstar” falido que sustenta a família com auxílios do governo, Morrigan realmente leva uma vida de merda e não vê muitas possibilidades de mudança. Sua saída é escrever e, como ela própria define, “escrever – diferentemente de coreografia, arquitetura ou conquistar reinos – é algo que você pode fazer mesmo sendo solitária e pobre, e sem infraestrutura, i. e.: uma companhia de balé ou alguns canhões. Pessoas pobres podem escrever. É uma das poucas coisas que a pobreza e falta de conexão não podem impedir você de fazer”.

Repleto de referências, Do que é feita uma garota é uma daquelas obras em que você se diverte muito num parágrafo, para logo na página seguinte levar uma rasteira e se deparar com algo de cortar o coração.

A partir disso, acompanhamos as hilárias e, por vezes, melancólicas desventuras de uma menina tentando encontrar o seu lugar na Inglaterra durante os terríveis anos 90. Com sua insegurança e sua cartola igual a do Slash, dos Guns n’ Roses, ela começa desvendar o mundo do rock e da crítica musical ao mesmo tempo em que descobre a própria sexualidade.

Utilizando uma linguagem direta e despudorada como deve ser, Caitlin Moran é extremamente hábil em criar uma personagem inteligente e cativante, que consegue ser engraçada até em momentos horríveis. Uma jovem muitas vezes forte, mas em outras tantas dolorosamente frágil, com a qual nos importamos o tempo todo, não interessa a burrada que ela cometa. Parafraseando a Cecília de As Virgens Suicidas, obviamente, doutor, você nunca foi uma garota de 14 anos… e lendo a história de Johanna, o tal doutor continuará não sendo essa garotinha, mas chegará muito perto de compreender como é estar ali dentro daquele turbilhão.

Repleto de referências que vão de Sepultura até Velvet Underground, de Orgulho e Preconceito até Senhor dos Anéis, Do Que É Feita Uma Garota é uma daquelas obras em que você se diverte muito num parágrafo, para logo na página seguinte levar uma rasteira e se deparar com algo de cortar o coração. Johanna é uma garota capaz de citar Blade Runner antes do sexo a três, mas também é capaz de suportar todo tipo de degradação para agradar aos outros, ou simplesmente para se comportar de acordo com o que esperam dela. Ela aprende cedo que fingir ser uma pessoa confiante e cínica pode funcionar muito bem em certos meios sociais. É um método de defesa que envolve muita culpa e decepção, fazendo com que o fardo talvez se torne muito pesado para quem ainda está tão distante da vida adulta.

Do que é feita uma garota se torna um livro grandioso (certamente um dos melhores que li este ano) a partir do momento em que percebemos que as mudanças e o aprendizado da personagem não ocorrem porque alguém muito sábio foi lá e disse para ela qual era a real da porra toda: olha, o mundo é horrível, se prepara. Não. Johanna resolve enfrentar a vida de frente, pois é a sua única chance de escapar da realidade a que aparentemente estava condenada, e é batendo a cara diversas vezes contra um muro já meio rachado, é dilacerando o seu coração e conhecendo os limites de seu corpo que ela aprende a ser ela mesma. Ela é, enfim, uma garota.

DO QUE É FEITA UMA GAROTA | Caitlin Moran

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Caroline Chang;
Tamanho: 392 págs.;
Lançamento: Junho, 2015.

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Tags: Caitlin MoranCompanhia das LetrasCrítica LiteráriaDo Que É Feita Uma GarotaLiteraturaResenha

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