Gosto de produções britânicas, mas admito, constrangido, que o nome de Billie Piper só me foi descoberto quando assisti I Hate Suzie, produção da Sky, disponível no Brasil na plataforma Globoplay com o (constrangedor) nome de O Dilema de Suzie.
Piper é um nome conhecido dos fãs. Secret Diary of a Call Girl, Doctor Who, Penny Dreadful; eu realmente era a excessão que comprovava a regra. Foi a primeira série que ela criou, roteirizou, produziu (em Secret Diary of a Call Girl, ela só passou a assinar a produção executiva nas duas últimas temporadas) e atuou.
Em I Hate Suzie (uma espirituosa piada com I Love Lucy), Piper é Suzie Pickles, uma antiga estrela infantil na faixa dos trinta e poucos anos, que se tornou cultuada após integrar o elenco de uma série cult de ficção científica. Vivendo uma fase de transição na carreira, ela passa por um furacão quando seu telefone é hackeado e fotos suas nua e praticando sexo oral em um homem caem na internet.
O caos passa a reinar em sua vida, já que Suzie é casada, tem um filho e está batalhando para emplacar um papel importante na Disney. São diferentes temas trazidos à tela e, à parte do que possa parecer, eles conseguem soar coesos no seriado.
O primeiro episódio é totalmente centrado na sensação claustrofóbica que a personagem passa a sentir. Os olhares julgadores de homens e mulheres, a iminência de perder a oportunidade em um grande estúdio norte-americano, a tempestade conjugal, a imensa exposição midiática em programas de fofoca, o possível impacto na vida do filho.
Suzie está em choque, e só o que, aparentemente, lhe resta é chorar pelos cantos, enquanto tenta se desconectar da realidade, algo complicado em tempos tão digitais.
Acontece que Suzie teria uma sessão de fotos para um perfil que estava sendo escrito a seu respeito, que contaria, também, com a presença de sua família. Ou seja, ela queria paz, mas tudo que ela não tem é isso.
I Hate Suzie não tem a menor intenção de fazer uma construção romantizada do momento, ao que pese todas as críticas que tece em seu roteiro. Um exemplo? O primeiro momento de quietude da personagem é quando, em virtude da torrente emocional, ela tem uma crise de diarreia e se fecha no banheiro.
Naomi (Leila Farzad), sua empresária e melhor amiga, parece não saber o que fazer. Ela tenta acalmar Cob (Daniel Ings, impecável), o marido de Pickles, só não sabe que, na realidade, o pênis que aparece nas fotos não é dele. Chegamos ao limite do que pode ser dito da trama sem liberar eventuais spoilers e estragar a experiência do leitor/espectador.

Suzie é uma personagem carismática, mas, simultaneamente, volátil e autoindulgente.
No entanto, não podemos nos furtas de falar sobre o quanto Billie Piper está brilhante em seu papel. I Hate Suzie é daquelas comédias dramáticas (ou dramédia, como se convenciona chamar) escabrosamente engraçada, que nos joga em uma situação desconfortável de rir de algo que, talvez, não devêssemos.
Suzie é uma personagem carismática, mas, simultaneamente, volátil e autoindulgente. Suas ações são fruto dos desarranjos da sociedade, mas também de sua própria personalidade, moldada por uma fama excessivamente precoce, o que a torna irresponsável, irritante e impulsiva.
I Hate Suzie vai te fazer questionar, até mesmo, a classificação de gênero da produção, porque vai por direções inesperadas, o que, a meu ver, mostra o talento das duas criadoras em compor essa ópera de desespero e angústia na vida da protagonista.
‘I Hate Suzie: a história de uma série rejeitada

Internacionalmente, o sucesso de I Hate Suzie começou quando a HBO decidiu adquirir os direitos exclusivos de transmissão para os Estados Unidos, acrescentando a produção no HBO Max.
Todavia, o caminho até chegar neste momento passou por uma série de rejeições. Até a Sky decidir produzi-la, I Hate Suzie foi recusada em diversas emissoras do país. De acordo com Lucy Prebble, uma das criadoras, o que mais se dizia é que os canais “já tinham sua dose de programas de mulheres à beira de um colapso”.
A insistência da dupla em mostrar que era preciso mais pontos de vista além de masculinos foi importante. A série não apenas foi produzida pela Sky como, após dois anos de pandemia, vai chegar à sua segunda temporada.
É uma vitória gigantesca para Prebble e Billie Piper, maior ainda quando lembramos que a Inglaterra é um país que preza mais as minissérie do que produções longas. A segunda temporada de I Hate Suzie chegará ao ar ainda este ano.
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