Há tempos não testemunhávamos uma semana tão agitada no que envolve o panteão dos deuses televisivos. Dois fatos específicos movimentaram o noticiário: o primeiro, o furo do jornalista Flavio Ricco de que o apresentador Faustão não continuará mais na Globo após o fim desse ano. O segundo é que o apresentador Marcos Mion rescindiu seu contrato com a Record após uma bem-sucedida temporada de A Fazenda em 2020.
As duas notícias estremeceram os ânimos do grupo (ouso dizer, cada vez maior) de pessoas que acompanham as reviravoltas desse mundo da televisão, que anda mais vivo do que nunca. A saída de Faustão da emissora global, após 30 anos de “reinado”, já levantou uma série de especulações sobre o que significa toda essa mudança na grade, uma vez que o apresentador talvez represente, há umas boas décadas, o nome mais reluzente do staff da emissora – o que não significa, claro, que seu programa tenha sido em algum momento uma unanimidade. Imediatamente, levantou-se uma rede de especulações sobre quem estaria capaz de substitui-lo: Luciano Huck (um “herdeiro” natural na emissora), Xuxa Meneghel, e mesmo o próprio Marcos Mion.

O fato é que a saída de Faustão causa um impacto por uma simples razão: durante 30 anos, ele se tornou um sinônimo de TV. Em episódio do podcast UOL Vê TV, a jornalista Aline Ramos definiu bem o desconforto: já há muita gente que não sabe mais o que é TV sem ter Faustão.
O carinho (e a raiva) que todo habitante deste país tem de Faustão é muito semelhante aos sentimentos que se nutre por um tio ou um avô.
Ou seja, o apresentador se consolidou no imaginário brasileiro de uma forma que parece indissociável. É uma verdadeira façanha: o carinho (e a raiva) que todo habitante deste país tem de Faustão é muito semelhante aos sentimentos que se nutre por um tio ou um avô. Mesmo que ele se associe a sentimentos ruins (como a deprê que acomete quem está parado na frente da TV num domingo à tarde, ou o ranço de ouvir a música do Fantástico e lembrar que mais uma semana se encerra e outra se inicia), o fato é que não conseguimos mais imaginar a nossa vida sem esse tio em nossa casa toda semana.
A saída de Faustão, pelo que se sabe, é um reflexo da nova gestão de Ricardo Waddington com o diretor de entretenimento da Globo. O apresentador teria recebido a proposta de mudar para o horário das quintas à noite, mas não aceitou a proposta.
Já a saída de Marcos Mion parece mais encrencada, uma vez que ele vez de um imenso sucesso anterior com A Fazenda, e sugere muito mais problemas da ordem dos bastidores – o que, naturalmente, levanta muita curiosidade e especulação. Conforme relatos obtidos pelo jornalista Mauricio Stycer, o apresentador teria sido desligado por atritos com a direção de A Fazenda. A reação da Record, pelo que sabemos, parece absolutamente precipitada – uma vez que perdem este que provavelmente seja o melhor nome do seu casting de apresentadores, além de ser o nome perfeito encontrado, a duras penas, para capitanear este reality show.
Compartilho aqui as minhas hipóteses de que ambas as mudanças, que parecem tomadas de forma abrupta, impactam a nós, os espectadores, fundamentalmente por três razões: por nos provocar a pensar na possibilidade de uma TV sem Faustão; por mostrar que ninguém parece intocável no mundo das emissoras; e, por consequência, por sinalizar a um fim de uma televisão brasileira tal qual nós conhecemos.
Os próximos passos dessa “dança das cadeiras” gera muita expectativa: existe a possibilidade de continuarmos seguindo esses espectadores em outras plataformas que não a TV? É possível imaginar um Faustão na Record e um Mion na Globo? Quem viver, verá.