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‘Crimes Ocultos’ traça paralelo implícito entre a Rússia de Stálin e a de Putin

'Crimes Ocultos', do chileno Daniel Espinosa, que se passa na União Soviética de Josef Stálin, poderia ter resultado em um interessante thriller psicológico se a trama focasse mais no inferno pessoal de seu protagonista, vivido por Tom Hardy, astro de 'Mad Max: Estrada da Fúria'.

porPaulo Camargo
22 de maio de 2015
em Cinema
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'Crimes Ocultos' traça paralelo implícito entre a Rússia de Stálin e a de Putin

Imagem: Reprodução.

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Há algo de muito errado com um filme quando ele não deixa rastros no espectador e a experiência de tê-lo visto se dilui muito rapidamente. Esse é o caso de Crimes Ocultos, cujas virtudes, e elas existem, não conseguem se articular. A forma mais interessante de assistir ao longa-metragem do diretor Daniel Espinosa (de Protegendo o Inimigo) é pensá-lo no contexto geopolítico em que foi realizado, em 2014. Embora a trama seja um desdobramento da Segunda Guerra Mundial, na então União Soviética, sob a mão de ferro de Josef Stálin, o enredo parece embutir um comentário implícito sobre a mais do que tensa relação entre a Rússia e a Ucrânia nos tempos atuais.

O protagonista Leo Demidov é um garoto sobrevivente do Holodomor, genocídio promovido pelo ditador na Ucrânia, na época uma das repúblicas soviéticas, entre 1932 e 1933. Calcula-se hoje que mais de 3 milhões tenham sido mortos. Vivendo em péssimas condições num orfanato, ele foge da instituição para, anos mais tarde, já adulto (e na pele do britânico Tom Hardy, astro de Mad Max: Estrada da Fúria), tornar-se herói do mesmo Exército Vermelho que torturou e assassinou sua gente.

Na Moscou de 1953, ele, agora figura de prestígio nos quadros da Polícia de Estado de Stálin, aos poucos mergulha em uma rede de intrigas que lhe revela a podridão no serviço de segurança nacional. E a fragilidade de sua existência.

A premissa descrita acima é interessantíssima, e poderia ter resultado em um bom filme, caso o foco da narrativa tivesse sido justamente essa infernal jornada de autodescoberta, e desencanto, que o protagonista empreende. Mas não: o roteiro de Richard Price (de A Cor do Dinheiro), baseado no  romance Criança 44, de Tom Rob Smith, segue outros caminhos.

Há algo de muito errado com um filme quando ele não deixa rastros no espectador e a experiência de tê-lo visto se dilui muito rapidamente. Esse é o caso de Crimes Ocultos, cujas virtudes, e elas existem, não conseguem se articular.

Opta por um misto de drama histórico e thriller psicológico que, ao mesmo tempo, busca dar conta da história do personagem central, a costurando a uma mirabolante investigação que envolve a caça a um serial killer que vem assassinando dezenas de meninos, enquanto o governo soviético insiste em negar sua existência. Homicídios, para Stálin, eram crimes possíveis apenas nas decadentes sociedades capitalistas ocidentais.

Aqui, diante da hipocrisia ideológica do regime, é impossível não traçar paralelos desse cenário com os desvarios cometidos por Vladimir Putin, atual presidente da Rússia, e sua política agressiva e imperialista em relação à Ucrânia, país ancestral de Demidov, que de ardoroso defensor do regime se torna, ao longo do filme, um rebelde e detrator do regime. Sua esposa, Raisa (a sueca Noomi Rapace, de Os homens Que não Amavam as Mulheres), sem que ele saiba, já atua nas forças de resistência ao stalinismo.

Crimes Ocultos, apesar do ótimo elenco, que inclui ainda Gary Oldman (de Drácula de Bram Stoker) e Joel Kinnaman (do remake de Robocop), se perde em subtramas desnecessárias, e talvez funcionasse melhor como uma minissérie. Como longa-metragem, desperdiça a oportunidade de investigar mais a fundo a alma de seu protagonista.

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Tags: CinemaCrimes OcultosCríticaCrítica de CinemaDaniel EspinosaGary OldmanJosef StálinNoomi RepaceTom HardyUnião Soviética

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