“Estou a fim de ser abertamente desprezível”. A certa altura de Deus da Carnificina, do diretor franco-polonês Roman Polanski, o personagem interpretado por John C. Reilly, Michael, faz essa confissão de forma escancarada, reveladora, libertadora. Pinçar essa fala de todo o “mar de palavras” criado pelos quatro personagens em pouco mais de uma hora e quinze minutos de exibição tem lá suas justificativas
Afinal, Deus da Carnificina é um poderoso holofote sobre a ineficácia de máscaras estrategicamente posicionadas para encobrir o politicamente incorreto. “Mais cedo ou mais tarde elas caem”, aponta o filme.
Baseado na peça de Yasmina Reza, o filme tem início com uma briga entre adolescentes. Logo depois, vemos a residência do casal Michael e Penelope Longstreet (Jodie Foster). Eles são pais de Ethan que foi agredido por Zachary, filho de Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz).
Nancy e Alan estão na casa de Michael e Penelope para tratar do caso com base nas melhores regras de civilidade e maturidade. Alguém duvida que algo dará errado? Obviamente, não é nenhum spoiler confirmar isso. O xis da questão aqui é conferir como isso acontece.
Deus da Carnificina é um poderoso holofote sobre a ineficácia de máscaras estrategicamente posicionadas para encobrir o politicamente incorreto. ‘Mais cedo ou mais tarde elas caem’, aponta o filme.
A obra é um grande grito contra a hipocrisia. Muito do politicamente correto de nosso tempo está presente nos diálogos. Mas está na tela justamente para ser alfinetado. Seja pelo contra-argumento dos personagens, seja por ações que negam aquilo que foi há pouco pregado como exemplo de boa conduta.
Como cinema, Deus da Carnificina não é tão atraente. Ficou muito atrelado à linguagem teatral de onde o roteiro nasceu. Durante todo o tempo o que vemos são os quatro atores interagindo no mesmo espaço cênico: a casa dos pais do menino agredido.
Trata-se, pode-se dizer, de um “teatro filmado”. Por outro lado, é preciso reconhecer o talento necessário para prender a atenção (e até aumentá-la) em mais de uma hora tendo como cenário um só ambiente. O mérito é da riqueza das falas e, claro, do caprichado trabalho de todos os atores, que assumem as peculiaridades de seus personagens com total dedicação.
Em meio a pinceladas sobre a falta de etiqueta do mau uso do celular; os pequenos comportamentos (ou nem tão pequenos assim) que incendeiam a guerra dos sexos; a preocupação da indústria de medicamentos com o lucro a qualquer preço em detrimento da saúde dos consumidores; e a discussão sobre o respeito que se deve às mazelas africanas, Deus da Carnificina destila acidez e situações cômicas.
Pode até doer reconhecer, mas o que Polanski apresenta é um retrato sarcástico e sincero de todos nós, de nossa essência como seres pretensamente evoluídos, mas ainda fortemente orientados por instintos cerebrais primitivos. E quanto mais formos capazes de investir tempo e argumentos para negar isso, mais caminharemos na direção da confirmação.
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