Desde a abertura, Marty Supreme deixa claro que Josh Safdie não quer conduzir o espectador. Quer desestabilizá-lo. O filme se passa nos anos 1950, mas rejeita qualquer ilusão de época. A encenação é nervosa, fragmentada, herdeira direta do cinema americano dos anos 1970. A trilha sonora puxa ainda mais o eixo para fora, convocando músicas dos anos 1980. O anacronismo é deliberado. O desajuste é o método.
Marty Mauser vive fora de lugar. No tempo. No espaço. Na própria percepção de si. Ele se move como quem acredita estar sempre à frente — quando, na verdade, apenas perdeu o chão. Essa sensação estrutura o filme inteiro. O desconforto não é efeito colateral. É proposta estética.
Safdie já havia trabalhado essa lógica em Uncut Gems, outro retrato de um homem incapaz de parar. Aqui, o impulso é outro. Menos urgência física. Mais delírio de grandeza. O vício não é o risco imediato, mas a crença absoluta no próprio destino.
É nesse ponto que Timothée Chalamet entrega o trabalho mais complexo de sua carreira. Seu Marty não é apenas ambicioso. Ele confunde convicção com verdade. Age como se acreditar fosse suficiente para moldar o mundo. A autoconfiança funciona como motor e armadilha.
Campeão de pingue-pongue sem estabilidade financeira, Marty sobrevive numa loja de sapatos em Nova York. Vive de improviso, excesso e promessa. Aproxima-se de Rachel, presa a um casamento sufocante, e depois de Kay Stone, estrela em declínio vivida por Gwyneth Paltrow. Em ambos os casos, o movimento não nasce do afeto. Nasce da necessidade de validação. O desejo é simbólico, não emocional.
A derrota num campeonato internacional — e o rótulo de “americano derrotado” — não o destrói. Reorganiza sua fantasia. Endividado e exposto, Marty retorna a Nova York convencido de que a grandeza ainda o espera. A gravidez de Rachel não produz ruptura. Produz ajuste de discurso. Não há reflexão. Há recalibração do ego.
Safdie cerca esse personagem de presenças instáveis e reconhecíveis. Aparições inesperadas surgem como ruído, não como abrigo. O mundo ao redor nunca se fixa. Nada oferece apoio. Tudo parece prestes a escapar.
Chalamet entende o núcleo moral do filme. Seu Marty não escuta. Não aprende. Não espera. Fala antes de pensar. Fecha portas enquanto acredita avançar. Há nele um eco distante do cinema americano dos anos 1970 — algo de Al Pacino — filtrado por uma lógica contemporânea de performance e autoimagem. Marty parece um predador fora de época. Um tubarão dos anos 1980 preso numa América anterior. Hoje, talvez não jogasse pingue-pongue. Venderia criptomoedas.
Chalamet entende o núcleo moral do filme. Seu Marty não escuta. Não aprende. Não espera. Fala antes de pensar.
O filme vai além do retrato individual. Ao lado de Ronald Bronstein, Safdie constrói uma fábula sobre a formação de um ethos. A bravata como virtude. O carisma como substituto da ética. A convicção pessoal tratada como verdade objetiva. Marty não é exceção. É sintoma.
Essa leitura só se sustenta porque encontra forma rigorosa. A fotografia de Darius Khondji é instável, suada, sempre à beira do colapso. A trilha de Daniel Lopatin, somada aos needle drops, amplia a vertigem. Nada é sólido. Nem a imagem. Nem o som. Nem o sujeito.
Reduzir Marty Supreme a uma variação de Uncut Gems é simplificar demais. Safdie não repete um gesto. Ele o aprofunda. O que emerge é o retrato de um homem aprisionado pela própria autoimagem — e de uma cultura que confunde grandeza com destino.
Marty Supreme é um filme sobre ambição como peso. Sobre identidade como espetáculo. E sobre um mito central da imaginação americana.
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