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A seriedade da comédia ‘Sem Fronteiras Para o Amor’

'Sem Fronteiras Para o Amor' pretende ser cômico, mas acaba motivando mais reflexões do que risos ao mostrar pressão que se faz para que uma mulher case e tenha filhos.

porTiago Bubniak
6 de julho de 2021
em Cinema
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Sem Fronteiras para o Amor, de Sara Zandieh

Nousha e Alex: casal vive mergulhado em conflitos culturais e familiares. Imagem: Divulgação.

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Nousha (Tara Grammy) é filha de iranianos que moram nos Estados Unidos e seguem ao máximo a tradição do país de seus antepassados. Uma dessas tradições é arranjar um bom marido para a filha. O problema é que Nousha não está nem um pouco interessada em casar. Mas há muita pressão para isso. Sua mãe, por exemplo, vive encontrando pretendentes. Essa é a premissa básica de Sem Fronteiras Para o Amor (2018), da cineasta Sara Zandieh.

O primeiro “ponto de virada” da narrativa acontece quando a protagonista conhece Alex Talbot (Christopher O’Shea), artista plástico, DJ, bissexual e excêntrico, vindo de uma família de estrutura não tradicional. Ele participa, por exemplo, de um grupo chamado “Homenstruais”. São homens que fazem protestos vestidos de calças brancas pintadas de vermelho na região púbica, como se estivessem menstruados. Homens feministas, enfim. Nousha e Alex acabam se apaixonando e indo morar juntos.

Está construída, então, a base para conflitos culturais entre um casal contemporâneo e uma família que preza (e muito!) por suas tradições seculares. As discussões lançadas a partir daí pelo roteiro lembram um pouco a “guerra virtual” típica da polarização política nas redes sociais, com emprego de palavras e expressões como “progressista”, “fascistas”, “comunistas”, “igualdade de gênero”, “empoderamento feminino” e “patriarcado”.

No clássico ‘Triste Fim de Policarpo Quaresma’, a personagem Ismênia chega a sofrer males físicos e psicológicos pelo fato de não conseguir casar. É uma expectativa absurda lançada sobre si mesma, reflexo da cobrança social daquele tempo em que a obra foi escrita, início dos anos 1900.

Há bastante espaço, também, para revisitar “feridas familiares” aparentemente superadas. Sem Fronteiras Para o Amor pretende ser uma comédia, apesar de não ser lá tão engraçado assim. Parece mais um drama sobre a pressão que ainda existe para que as mulheres tenham um marido e filhos.

No clássico da literatura brasileira Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, a personagem Ismênia chega a sofrer males físicos e psicológicos pelo fato de não conseguir casar. É uma expectativa absurda lançada sobre si mesma, reflexo da cobrança social daquele tempo em que a obra foi escrita, início dos anos 1900.

Aparentemente, trata-se de um assunto superado. Do passado. Mas, julgando-se pela preocupação deste filme de Sara Zandieh, não é tão do passado assim. Por mais que o roteiro use como contextualização uma família iraniana que preza pela tradição, sabemos que essa pressão sobre as mulheres ainda existe em geral. O roteiro, nesse sentido, parte de uma situação particular para tratar de um comportamento universal, mais sutil ou menos sutil, dependendo do país.

Como já comentado, Sem Fronteiras Para o Amor tenta ser e “vende-se” como um trabalho para provocar risos. O que acaba sendo e como entrega-se, contudo, revela mais ser uma obra que causa reflexão e, em certa medida, indignação até.

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Tags: Christopher O’SheaCinemaCríticaCrítica CinematográficaCrítica de CinemaResenhaSara ZandiehSem Fronteiras Para o AmorTara Grammy

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