Dirigido por Tim Fehlbaum, o longa Setembro 5 parte de uma história real bastante conhecida: quando, durante os Jogos Olímpicos de 1972, em Munique, 11 atletas israelenses foram sequestrados por uma organização terrorista palestina. O contexto de recepcionar uma Olimpíada na Alemanha visava, entre outras coisas, uma reparação na imagem mundial do país assombrado pelo legado do nazismo. Só que, na prática, isso significou grandes falhas na segurança e no policiamento dos jogos.
Mas o episódio trágico também marcou a história do jornalismo, uma vez que o sequestro foi transmitido pela rede estadunidense ABC, que foi para Munique com sua equipe de esportes para cobrir os jogos. Ao serem instados a mudar o foco da cobertura, os jornalistas precisam tomar decisões rápidas e lidar com uma série de conflitos éticos com uma agilidade que só costuma ser vista no jornalismo hard news.
A equipe enxuta – capitaneada por Roone Arledge, presidente da ABC Sports (vivido pelo experiente Peter Sarsgaard), Marvin Bader, chefe de operações (Ben Chaplin) e pelo novato Geoff Mason (John Magaro, de Vidas Passadas) – precisa lidar não apenas com as limitações técnicas de uma transmissão ao vivo na época (estamos em 1972, e aqueles eram os primeiros Jogos Olímpicos transmitidos em tempo real), mas também com as tensões da política internacional.
Uma das personagens de maior destaque é Marianne Gebhardt (Leonie Benesch, de A Sala dos Professores), a intérprete alemã contratada pela ABC para traduzir informações para os americanos. Mas há conflitos velados entre colaboradores judeus e os discursos integradores que a Alemanha tenta colar aos jogos, também por meio de seus cidadãos.
Indicado ao Oscar 2025 na categoria de melhor roteiro original, Setembro 5 é daqueles que filmes que se consolida dentro de um cânone de obras que explicam ao público leigo como o jornalismo ocorre em suas entranhas.
‘Setembro 5’: o jornalismo em tempos de limitação técnica
Com ritmo ágil e tenso, Setembro 5 carrega um certo tom apaixonado em relação à frente de atuação mais “heroica” do jornalismo, que envolve a transmissão das notícias mais urgentes pela televisão. Há um foco muito interessante no caráter improvisado das transmissões – algo que o espectador não consegue ter noção quando assiste a uma edição do Jornal Nacional, por exemplo.
Setembro 5 entrega mais uma obra sobre jornalismo do que necessariamente sobre o problema internacional provocado por um ataque terrorista.
Isso se expressa em cenas que requisitam reflexões rápidas. Quando a cobertura vira do jornalismo esportivo para o hard news de um ataque terrorista, a equipe da ABC decide inserir profissionais na Vila Olímpica, que acaba de ser restrita apenas aos atletas. Só que não há cinegrafista disponível. Por isso, um auxiliar é solicitado a mudar de função e passa a operar uma câmera. Ao mesmo tempo, a chefia resolve falsificar uma credencial de atleta para que um funcionário consiga entrar e sair da vila com os rolos de filme.
Tudo isso envolve uma série de decisões a respeito do caráter ético naquilo que estão fazendo. Pode ou não chamar aquele ataque de terrorismo? E se houver alguma execução de reféns, é legítimo transmitir o acontecimento ao vivo? A informação pública é mais ou menos relevante do que a preocupação com as famílias das vítimas, que assistirão tudo aquilo em casa?
Setembro 5 aborda todas essas questões de uma maneira que tem um quê de nostálgico, como quem diz que a limitação técnica, o fazer algo “artesanal”, tinha também o seu valor. Mas, ainda assim, o filme não deixa de apontar os problemas invisíveis que eram enfrentados no passado (e são até hoje, em alguma medida).
O auxiliar que topa filmar, mesmo não sendo sua função, denota alguma conformação com uma certa exploração dos profissionais que era naturalizada. O mesmo ocorre na cena em que um sujeito de meia idade pede à jovem Marianne (que em muitos momentos do filme atua como jornalista, embora seja intérprete) para que traga um café para ele enquanto ele tenta escutar o rádio da polícia alemã. Um colega então o alerta: “você acaba de tirar daqui a única pessoa que entende alemão e sabe o que eles estão dizendo”.
As situações enfrentadas pela equipe da ABC não apontam a respostas certas ou erradas: é preciso seguir em frente tendo em vista alguns critérios complexos, e que não estão registrados de forma definitiva em lugar nenhum. Os jornalistas, portanto, são tão falhos quanto capazes de tomar decisões admiráveis.
Nesse sentido, Setembro 5 entrega mais uma obra sobre jornalismo do que necessariamente sobre o problema internacional provocado por um ataque terrorista. Isso pode ser encarado como qualidade ou defeito do filme – fica à decisão de quem o assiste.
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