• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Crônicas Yuri Al'Hanati

Impressões sobre um ciclo de máquina de lavar roupa

porYuri Al'Hanati
27 de abril de 2020
em Yuri Al'Hanati
A A
Impressões sobre um ciclo de máquina de lavar roupa

Imagem: Roy Lichtenstein/Reprodução.

Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

Minha mãe disse que seria bom ter uma máquina de lavar roupa de dez quilos para poder lavar edredons quando precisasse. É verdade, lavei edredons nela, mas muito pouco. Poderia trocar o excesso de espaço pela inconveniência e preço de uma lavanderia a cada não sei quantos meses, mas agora o que coloco na máquina são pouco mais de 12 pares de meias, duas cuecas e uma camisa – somando a quase totalidade de minhas roupas brancas.

Pensei em escrever uma crônica sobre um ciclo de máquina de lavar roupa: observar a gênese da lavagem, a água que sobe, para, turbilhona e desce duas vezes, o tambor que gira a uma velocidade fatal para centrifugar, o excesso de água que escorre das roupas coladas às paredes da máquina pela imensa velocidade com que são arremessadas para fora do centro de rotação, o súbito silêncio que invade a casa quando já não se ouvem água corrente, enxágue ou centrífuga. O silêncio que avisa contra o barulho que pede paciência. Disso tudo, extrair algo para além do ato em si. Extrapolá-lo, hiperbolizá-lo, como é meu costume quando quero tratar de paralelos a partir do exemplo.

Talvez a poesia do mundo já não seja mais a mesma e eu, por minha vez, também não seja mais o mesmo. Os braços de meus olhos já não abraçam tudo o que veem com o mesmo carinho de antes, e não afagam mais a fenomenologia da quarentena como eu quis um dia me propor. Os dias parecem a sopa de sabão e sujeira que sobe e desce dentro da máquina de lavar.

Mas a verdade é que enquanto vejo as meias boiando em uma água mais ou menos turva de sabão e sujeira, nada me vem. Não há poesia ou filosofia na manutenção das roupas limpas como eu acreditava – ou, se de fato há, não as alcanço. Talvez a poesia do mundo já não seja mais a mesma e eu, por minha vez, também não seja mais o mesmo. Os braços de meus olhos já não abraçam tudo o que veem com o mesmo carinho de antes, e não afagam mais a fenomenologia da quarentena como eu quis um dia me propor. Os dias parecem a sopa de sabão e sujeira que sobe e desce dentro da máquina de lavar. Difícil distinguir o que é produto de limpeza e o que é produto da sujeira dos dias. O que faz bem e o que faz mal. Os referenciais psicológicos se diluem em uma nova forma de organização da vida que entende o fora como perigo e o dentro como angústia. Vamos todos nos lamentando aos poucos como o sertanejo de Gil, e vir do serrado já não é mais essencial. Sou desgarrado da rês como meu próximo, um rebanho disperso e acuado, apreensivo e ansioso.

As meias se sujam no meu corpo, que se suja sozinho, dentro de casa. Meus óleos, meu sebo e minha descamação fazem a necessidade de limpeza, mas não a sociabilidade. Continuo tomando banho todos os dias pela mesma única razão. A máquina engole as últimas gotas de água do ciclo num gargarejar frenético que acompanha minha respiração acelerada. Um estalo e depois só o silêncio da casa vazia. Paro de respirar junto com a máquina. Solto um suspiro de sufoco antes de estender as roupas no varal.

Tags: ansiedadeCrônicamanutençãomáquina de lavar roupaquarentenarotina

VEJA TAMBÉM

James Gandolfini em Família Soprano
Yuri Al'Hanati

O mistério da morte

5 de abril de 2021
Wood Naipaul
Yuri Al'Hanati

Aprender a ser Biswas

29 de março de 2021

FIQUE POR DENTRO

Podcast de Chico Felitti foi adaptado para minissérie documental da Prime Video. Imagem: Coiote / Divulgação.

‘A Mulher da Casa Abandonada’ traz a vítima no centro da narrativa

29 de agosto de 2025
Kad Merad e Denis Podalydès protagonizam a sensível obra de Costa-Gavras. Imagem: KG Productions / Divulgação.

‘Uma Bela Vida’ é meditação derradeira de Costa-Gavras

5 de agosto de 2025
A trupe de 'O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas': rebeldes sem causa. Imagem: Columbia Pictures / Divulgação.

‘O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas’: o delicioso filme ruim de Joel Schumacher

5 de agosto de 2025
O diretor Robert B. Weide e o escritor Kurt Vonnegut. Ambos conviveram por quase trinta anos. Imagem: Whyaduck Productions / Divulgação.

‘Kurt Vonnegut: Unstuck in Time’ é o documentário definitivo sobre o escritor

4 de agosto de 2025
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.