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Home Crônicas Yuri Al'Hanati

Meu futuro é ser um velho medroso

porYuri Al'Hanati
1 de agosto de 2016
em Yuri Al'Hanati
A A
"Meu futuro é ser um velho medroso", crônica de Yuri Al'Hanati.

Imagem: Reprodução.

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Uma das minhas brincadeiras favoritas quando eu era criança consistia em acender um isqueiro na frente de uma lata de aerosol, produzindo uma bela e vistosa flama. Era a maior pirotecnia ao alcance das minhas mãos fora do período das festas juninas (notoriamente a melhor época do ano para um menino com uma queda por espetinho de churrasco e pólvora cinza). Destemidamente, balançava a lata e a flama ao redor das coisas até que meus dedos fracos se cansassem de apertar o botãozinho do spray. Algumas pessoas falaram que aquilo era muito perigoso, que a lata poderia explodir na minha mão, mas isso nunca me freou. Nunca havia visto ou lido a respeito de lata de spray que explodiu na mão de alguém. Mas a verdade é que, com o passar dos anos, esse medo foi se assentando no meu peito.

Não sei se as crianças são mais corajosas ou simplesmente mais inconsequentes, mas o que quer que impulsione pessoas com poucos anos de vida é gradualmente perdido conforme os anos, os relatos e as informações se acumulam.

Não sei se as crianças são mais corajosas ou simplesmente mais inconsequentes, mas o que quer que impulsione pessoas com poucos anos de vida, educadas pelo choro e pelo mertiolate, a subir em árvore, descer ladeira num carrinho de rolimã ou praticar a pirotecnia amadora é gradualmente perdido conforme os anos, os relatos e as informações se acumulam. Não falo aqui das empreitadas intencionalmente radicais, como pular de paraquedas ou praticar bungee jump – ataque kamikaze ao território onde o superego construiu sua morada sim, mas objetivamente recompensador. Falo das pequenas merdinhas, os atos irresponsáveis que não se pagam em adrenalina suficiente, como uma manobra de skate ou fazer qualquer coisa perto de uma beirada alta sem proteção.

Temo que a coragem seja um estado de espírito degenerativo, e que dali a alguns meses, o simples ato de subir em uma bicicleta provocará tremores no meu corpo. O avô de um amigo meu dizia que na idade dele tudo era uma aventura. A radicalização do cotidiano acontece em concomitância à inadequação do corpo físico para a vida.

Há um episódio dos Simpsons em que o primogênito da família, Bart, precisa fazer trabalho voluntário em um asilo. Chocado com a pasmaceira do lugar, ele resolve alugar um barco e levar os velhinhos para uma tarde inesquecível. O que se segue é uma montagem ao som de “Can’t Buy me Love” dos Beatles, nos quais os idosos tentam reproduzir as façanhas dos jovens, como correr em um descampado ou tomar refrigerante, mas terminam sendo pastiches patéticos de uma juventude irremediavelmente perdida. Mas até então estavam fazendo o que Bart achava que era certo e divertido. Quando finalmente perguntaram a opinião dos velhinhos, eles simplesmente preferiram jogar bingo.

Talvez tudo então não passe de um processo natural, e os anseios por medo e velocidade que um dia pautaram a nossa existência deem lugar a outros, de temperaturas mornas e tons aquarelados. A calma e a sabedoria de quem não precisa de nenhum extremismo assertivo para viver. Ou talvez, no fim, acabamos todos uma cambada de bundão.

Tags: cautelaCrônicainconsequênciainfânciamedosimpsonsvelhice

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