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Home Literatura

‘A Sinagoga dos Iconoclastas’: a realidade é ridícula

porEder Alex
4 de maio de 2016
em Literatura
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A Sinagoga dos Iconoclastas Juan Rodolfo Wilcock

Juan Rodolfo Wilcock. Foto: Divulgação.

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A Sinagoga dos Iconoclastas é último livro da bela coleção Otra Língua, da editora Rocco, que também publicou o ótimo Cantiga de Findar (leia a crítica aqui). O projeto capitaneado por Joca Reiners Terron visa apresentar uma literatura latino-americana que andava em falta nas prateleiras brasileiras.

O livro escrito por Juan Rodolfo Wilcock, com tradução de Davi Pessoa, é uma prova de que nem só de Borges e Bioy Casares vive a literatura argentina. A obra publicada originalmente em 1972 é uma espécie de enciclopédia completamente surtada, no sentido Monty Python do termo, que nos apresenta grandes nomes da História que na verdade nunca existiram.

Temos, por exemplo, o utopista Aaron Rosenblum, um homem decidido a fazer a humanidade mais feliz: “A ideia era demasiadamente simples; não foi o primeiro a pensá-la, porém foi o primeiro a levá-la até as últimas consequências. Apenas sobre o papel, porque a humanidade nem sempre tem vontade de fazer aquilo que deve fazer para ser feliz, ou para sê-lo prefere escolher seus próprios meios, que em todo caso, como os melhores planos globais, também provocam mortes, torturas, prisões, exílios, esquartejamentos, guerras”. O plano de Rosenblum consiste em reproduzir na atualidade o período mais feliz da humanidade segundo ele mesmo, a saber: 1580. Para isso, seria necessário abolir todo o tipo de desenvolvimento que tenha ocorrido de lá para cá, como os carros, a luz elétrica, os Direitos Humanos, o século XIX, os finais de semana, o voto e os Estados Unidos, por exemplo. Isso tudo implicaria em promover a escravidão, a perseguição aos judeus e a peste. Só assim, segundo o utopista, a humanidade alcançaria a felicidade. O problema é que no meio do caminho surge um senhor de bigode na Alemanha com ideias muito parecidas que acabam ofuscando a genialidade de Rosenblum.

Já Charles Piazzi-Smyth, um astrônomo escocês, fundou a piramidologia e seus estudos sobre as três pirâmides de Gizé influenciaram o norte-americano Charles Taze Russell. O morador da Pensilvânia, líder de uma seita de Testemunhas de Jeová, percebeu nas pesquisas piramidais de Charles, cálculos precisos que o levaram a uma obscura referência à volta do messias e chegou à conclusão de que no Juízo Final “Os mortos renasceriam, e naquele momento seria concedida a eles uma segunda possibilidade de escolha: aceitar ou não Jesus Cristo. Os que não o aceitavam eram eliminados; assim o mal teria desaparecido do mundo. As Testemunhas, ao contrário, o aceitavam e se tornavam eternas”. Como Jesus não apareceu na data prevista, os estudiosos concordaram que ele realmente veio para a Terra, mas preferiu não falar com ninguém.

A imaginação de J. Rodolfo Wilcock vai desde um inventor de bomba d’água movida a dezenas de cachorros, até um escritor que escreve romances de sucesso numa linha de montagem com vários funcionários. Dotado de um humor bastante peculiar, entupido de erudição e falta de senso de ridículo, o escritor tira sarro de tudo e de todos, com destaque para a ciência e a religião, tal como o fez Douglas Adams, poucos anos depois.

Uma das coisas mais divertidas do livro é o estilo da escrita, pois o autor emula a sisuda linguagem acadêmica, com citações e tudo, e em diversos momentos o leitor quase esquece que aquilo que está lendo é tão insano quanto genial. O que impressiona nesta obra é que aquelas pessoas são tão ridículas que parecem de verdade.

Dotado de um humor bastante peculiar, entupido de erudição e falta de senso de ridículo, o escritor tira sarro de tudo e de todos, com destaque para a ciência e a religião.

Ao explicar que o pensamento moderno nasceu de uma máquina que embaralhava palavras completamente aleatórias de acordo com a sua sintaxe, dando origem a frases de efeito como “O inferno são os outros”, Wilcock sacaneia a filosofia, ao mesmo tempo em que faz uma dura crítica a um modelo de discurso e à nossa falta de rumo. E o livro está repleto de momentos assim e outros até mais perturbadores, como quando vemos o escritor Charles Carrol defender que os negros foram criados por Deus junto com os animais, tendo como único objetivo de que Adão e seus descendentes não necessitassem de garçons, lavadores de pratos ou engraxates no Jardim do Éden, sendo que Eva foi tentada não por uma serpente, mas sim por uma criada negra. O autor segue com um discurso racista até concluir que Alexandre Dumas podia até saber escrever bem, mas isso não significava que ele tinha uma alma.

A imbecilidade do discurso racista fica ainda mais interessante quando vemos a história do evolucionista que estudava a bíblia (!?) e descobriu que, por um erro de tradução do hebraico, a evolução da humanidade foi compreendida de forma equivocada, completamente ao contrário.

Wilcock expõe nosso ridículo de modo a nos fazer rir, pensar e até mesmo nos envergonhar daquilo que nos tornamos. É um tipo de leitura que primeiro diverte, mas que logo em seguida perturba e fica ecoando na mente, principalmente nestes tempos em que a realidade compete com a ficção para saber qual delas consegue ser mais absurda.

A Sinagoga dos Iconoclastas é de longe um dos melhores lançamentos desse ano.

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Tags: A Sinagoga dos IconoclastasCríticaCrítica LiteráriaEditora RoccoJ. Rodolfo WilcockJuan Rodolfo WilcockLiteraturaLiteratura ArgentinaOtra LínguaResenhaReview

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