Não é à toa que Edgar Allan Poe, mestre do gótico e um dos pioneiros na exploração literária do macabro, dedicou grande parte de sua obra – e de suas análises acadêmicas – à natureza do conto. O horror, enquanto gênero diretamente ligado ao suspense e frequentemente dependente do impacto de um clímax (para Poe, dénouement), é uma forma de narrativa particularmente propícia para a criação de estruturas compactas e de impacto forte e imediato.
Poe escrevia com a intenção de que seus contos constituíssem unidades dramáticas concisas, sendo possível lê-los do início ao desfecho sem pausar. Somente assim, acreditava o autor, a força do dénouement atingiria o leitor com o máximo impacto possível.
A autora cria, nos 12 contos presentes na coletânea, retratos fragmentários de uma Argentina surreal.
Em As Coisas que Perdemos no Fogo, a jornalista e escritora argentina Mariana Enriquez demonstra maestria na desafiadora arte do conto. Com uma linguagem destilada (típica de jornalistas que completam a transição para a literatura com sucesso), domínio de diferentes técnicas de ponto de vista e descrições breves (porém originais e aguçadas), a autora cria, nos 12 contos presentes na coletânea, retratos fragmentários de uma Argentina surreal o sucifiente para suscitar angústia e estranhamento.
Na obra, prepare-se para encontrar de tudo: da menina silenciosa que arranca as unhas, sobrancelhas e cabelos na sala de aula – para repulsa e fascínio das colegas – ao espírito do “Baixinho Orelhudo”, um serial killer histórico, que passa a assombrar o guia de um tour especializado em crimes macabros.
Sutilmente sinistro
Na maior parte das histórias, os elementos fantásticos e macabros são sutis, e muitas vezes não se revelam por completo, nem mesmo ao término da narrativa. Portanto, apesar de existir em uma realidade paralela, no microcosmo particular de Mariana Enriquez, a Argentina de As Coisas que Perdemos no Fogo é terrivelmente familiar.
[box type=”note” align=”alignleft” class=”” width=”350px”]
Leia também
» Além do cinema de horror
» Nenhuma a menos
» Horror à brasileira
[/box]
O maior mérito da autora é justamente este: utilizar os elementos do grotesco para criar uma atmosfera angustiante na medida exata, sem exageros ou lacunas excessivas. Neste ponto, Mariana Enriquez confronta a teoria do conto de Poe com grande sucesso. Seus contos, embora possam ser lidos sem pausas, como unidades dramáticas concisas e independentes, não caminham em um crescendo típico, rumo a um desfecho explosivo. São, na verdade, narrativas fragmentárias, vislumbres de um mundo particular, em que o horror é utilizado para trazer à luz verdades que escolheríamos manter nas sobras.
Neste sentido, os melhores contos da excelente coletânea são “O menino sujo”, “Os anos intoxicados”, “Teia de aranha” e “As coisas que perdemos no fogo”. Contos mais similares ao horror clássico, como “Fim de curso” e “A casa de Adela”, também são perfeitamente construídos, mas de uma forma menos impactante que os demais.
Traços autorais
Para entusiastas da cultura ou geopolítica latino-americana, outro ponto interessante em ler Mariana Enriquez é a possibilidade de mergulhar no coração da Argentina. Como diversos outros escritores de horror (Stephen King é um bom exemplo), suas narrativas têm tons autobiográficos, e se passam em regiões que a própria autora demonstra conhecer intimamente.
A mitologia e as lendas urbanas da Argentina, com personagens como Guachito Gil e o Baixinho Orelhudo, e as raízes religiosas tipicamente latino-americanas das crenças comuns são tratadas como temáticas contemporâneas, enquanto locais como o Rio Matanza-Riachuelo e as villas (favelas argentinas) servem de palco para narrativas tensas, carregadas de análises sociopolíticas e críticas às sombras do país (da brutal ditadura militar aos inesquecíveis tempos de crise econômica). Ainda, ocasionais referências a grandes nomes do horror pontuam o livro: fãs de H.P. Lovecraft não devem perder a menção sutil em “Sob a água negra”, um dos contos mais perturbadores da obra.
Os traços pessoais da autora são especialmente evidentes ao tratar, em praticamente todos os contos, de questões feministas. De fato, das doze histórias, apenas uma tem um protagonista masculino, enquanto as outras, protagonizadas por mulheres, são narradas majoritariamente em primeira pessoa.
Em toda a coletânea, a violência sofrida diariamente pelas mulheres argentinas (e de todo o mundo) é apresentada como lamentável parte do cotidiano. Maridos abusivos, parceiros incompreensivos, atos de violência social, sexual e doméstica são figuras recorrentes. Frente a estes tormentos, Mariana Enriquez constrói cada uma de suas meninas e mulheres com personalidades tridimensionais. São personagens absolutamente reais, que passam por infortúnios familiares demais.
Levando esta temática às últimas consequências, o conto homônimo do livro (o último da coletânea) tece uma espécie de clímax para toda a obra: afoga, em um mar de chamas, as dores das filhas da Inquisição.
[box type=”info” align=”” class=”” width=””]AS COISAS QUE PERDEMOS NO FOGO | Mariana Enriquez
Editora: Intrínseca;
Tradução: José Geraldo Couto;
Quanto: R$ 24,90 (192 págs);
Lançamento: Maio, 2017.
[button color=”red” size=”small” link=”http://amzn.to/2xWpjZF” icon=”” target=”true” nofollow=”true”]Compre na Amazon[/button][/box]