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‘Confissões do Crematório’ revela os bastidores da “indústria da morte”

Sem eufemismos ou metáforas, Caitlin Doughty rompe tabus e fala sobre decomposição, finitude, rituais e autoconhecimento em ‘Confissões do Crematório’.

porHeloise Auer
9 de novembro de 2018
em Literatura
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‘Confissões do Crematório’ revela os bastidores da “indústria da morte”

Imagem: Reprodução.

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Confissões do Crematório é um livro autobiográfico, escrito pela agente funerária Caitlin Doughty e lançado no Brasil em 2016. Na obra, a autora reúne histórias reais do dia a dia de uma casa funerária e inúmeras curiosidades sobre seus seis primeiros anos trabalhando como cremadora de corpos, tudo, é claro, com uma boa dose de humor.

Apesar de ser um livro do selo Darklove, dedicado às publicações menos sanguinolentas da DarkSide Books, Confissões do Crematório não é para corações fracos. Doughty inicia a obra contando sobre sobre sua experiência no crematório da funerária Westwind Cremation & Burial, em São Francisco, onde aprendeu os primeiros passos da indústria funerária, como banhar cadáveres e prepará-los para o velório – o tipo de serviço que fingimos não existir.

Ao mesmo tempo que fala sobre coisas escatológicas, Doughty mescla suas memórias com algumas questões histórico-culturais da humanidade e reflexões existenciais, ou seja, através de suas experiências acabamos por mergulhar em uma verdadeira aula de história.

‘Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma bênção — é só um tipo mais profundo de pavor’.

Repleto de referências literárias, científicas e históricas, relata de forma extremamente didática como a morte é vista em diversas culturas ao longo dos milhares de anos. Doughty conta, por exemplo, a respeito das tartarugas carnívoras que são liberadas todos os anos no Rio Ganges pelo governo indiano para comer os corpos lá jogados e acabar com os “poluentes necróticos”; fala também sobre a prática comum dos chineses de contratar lamentadores profissionais para aumentar o nível de emoção em um funeral; ou ainda sobre os métodos de canibalismo dos índios Wari, aqui no Brasil.

Abaixo ao tabu

Escrito com maestria, Confissões do Crematório é aquele tipo de livro que vem para desmistificar um assunto, neste caso, o tabu da morte. Sem focar em religiões ou no “pós-vida”, o livro tem a intenção de humanizar os profissionais funerários e abordar questões relativas à cremação de natimortos e de corpos doados para a ciência, o processo de decomposição, o embalsamento, a maquiagem de cadáveres, entre outros.

Apesar destes detalhes grotescos e do tema mórbido, o término da leitura não vem acompanhado do sentimento de que está tudo perdido, pelo contrário, provoca um aumento de consciência das coisas ao redor, da vida e da importância dos pequenos eventos que acontecem no dia a dia de cada um de nós.

Caitlin Doughty hoje dedica sua carreira a advogar pela causa da “boa morte”, contra a forma higienista com que lidamos com os mortos, compreendendo que olhar e tocar um cadáver sem intervenções químicas pode ser benéfico para lidarmos com a morte e o luto. Esse movimento, encabeçado pela organização Order of the Good Death conta com a contribuição de profissionais da indústria funerária, acadêmicos, artistas e simpatizantes do mundo todo.

Doughty também possui um canal no YouTube chamado Ask a Mortician, onde fala sobre assuntos relacionados à morte e responde perguntas do público, tudo com um clima descontraído.

CONFISSÕES DO CREMATÓRIO | Caitlin Doughty

Editora: DarkSide Books;
Tradução: Regiane Winarski;
Tamanho: 256 págs;
Lançamento: Julho, 2016.

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Tags: AutobiografiabastidoresBook Reviewbookscaitlin doughtyConfissões do CrematórioCrítica LiteráriaLiteraturaLivromorteResenhaResenha de Livrosrituaistabu

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