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O que Georges Bataille quer que a gente veja na ‘História do Olho’?

Em 'História do Olho', Georges Bataille criou uma obra tão própria e intensa que provavelmente você pode rir e sentir nojo em questão de paginas.

porWalter Bach
17 de dezembro de 2015
em Literatura
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O que George Bataille quer que a gente veja na 'História do Olho'?

Imagem: Reprodução.

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Você anda pela biblioteca ou pela livraria até esse livro se impor. Se for empréstimo ou recomendação de amigo, esqueça. Nada como um enredo profundo que nos força a tomar uma posição diante dela, porque é impossível ficar indiferente. Às vezes a capa esconde, mas aqui ela é tão ambígua quanto boa parte do enredo: a capa é um cu.

Não é insulto, realmente tem um ânus nela. O nome História do Olho pode dar outra impressão se estiver desacompanhado, mas seria falsa. Até porque Georges Bataille (1897 – 1962) criou uma obra tão própria e intensa que provavelmente você pode rir e sentir nojo em questão de paginas.

Na história nós acompanhamos um narrador adolescente sem nome, cujas angústias e objetivos se resumem a satisfação pessoal pelo sexo. Até aí, quem não conhece o “jeito Bataille” de fazer literatura pode não ver nada especial, como se houvesse anormalidade em querer descobrir o quão longe o próprio corpo e o de alguém do sexo oposto chegam.

Quem não conhece o ‘jeito Bataille’ de fazer literatura pode não ver nada especial.

O narrador conta ter conhecido Simone, uma menina de sua idade igualmente angustiada pelas coisas do sexo. A relação deles se intensifica muito rápido, e com ela os sentimentos: “nunca estamos calmos, nem brincamos, a não ser durante os breves minutos de relaxamento, depois do orgasmo.” O protagonista compara a sensação dos primeiros encontros com Simone ao horror e desespero de um atropelamento que causou, quase como se isso também o atraísse à moça.

Logo a dupla convida outra pessoas às brincadeiras, justo “a mais pura e terna de nossas amigas.” Mas uma pessoa a mais não basta, então o narrador e Simone convocam mais gente e fazem uma orgia mais intensa e bestial do que as brincadeiras entre os “amigos”. Só que nem isso satisfaz o pervo narrador, e depois que todos estão cansados, encharcados de gozo, saliva, porra e urina, ele abre a porta da casa onde fizeram a zona e permite que gente sem envolvimento algum contemple o acontecido.

Daí para frente, o enredo adquire tons um pouco mais trágicos. A mais pura das pessoas é internada em um sanatório, o que afeta os protagonistas – a maneira deles; após uma confusão no sanatório, o narrador e Simone viajam com um comparsa desta, um milionário mais torpe que os dois juntos e com um senso mórbido de ação; com ele, a busca pelo prazer, a ambiguidade dos sentimentos e dos instintos sexuais e o grotesco atingem patamares grandiosos.

Curiosamente, Georges Bataille se valeu do pseudônimo Lord Auch quando História do Olho foi publicada em 1928, e manuscritos do autor ligam fatos de sua vida pessoal a detalhes deste livro, minimizados pela perversão que tanto choca quanto esconde qual é o tema (e alvo, por que não?) real deste Olho.

HISTÓRIA DO OLHO | Georges Bataille

Editora: Companhia das Letras;
Tradução: Eliane Robert Moraes;
Tamanho: 136 págs.;
Lançamento: Março, 2018.

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Tags: Book ReviewCrítica LiteráriaGeorges BatailleHistória do OlhoLiteraturaOlhoPerversãoResenhaRomancesexo

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