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‘A Redoma de Vidro’ apresenta o leitor à derrocada da depressão

Único romance escrito pela poetisa Sylvia Plath, 'A Redoma de Vidro' é um contundente relato sobre o "mal do século": a depressão.

porMaura Martins
25 de agosto de 2015
em Literatura
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'A Redoma de Vidro' apresenta o leitor à derrocada da depressão

Imagem: Reprodução.

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Talvez poucas escritoras tenham tido uma produção tão curta e foram tão cultuadas como Sylvia Plath. Poetisa prodigiosa, Sylvia viveu apenas 30 anos. Depois de algumas tentativas frustradas, acabou se suicidando em Londres, onde morava com os dois filhos, após o término do conturbado casamento com o poeta britânico Ted Hughes, com o qual se apaixonou perdidamente (conforme testemunhou nas cartas enviadas à mãe) e que a traiu anos depois.

Ironicamente, a curta obra de Sylvia Plath é hoje muito mais cultuada que a do ex-marido, eternamente cravado no papel do “homem que traiu a poetisa” (todo este processo, bem como as possibilidades de contar de forma fidedigna a história de alguém que não pode mais falar, são analisados no brilhante livro A Mulher Calada, da jornalista Janet Malcolm, publicado no Brasil pela Companhia das Letras).

Em seu curto tempo de produção, Sylvia deixou apenas um romance: o obscuro e semiautobiográfico A Redoma de Vidro, publicado pela Biblioteca Azul, um dos braços da Globo Livros. A ressalva ao autobiográfico é porque, como documentam os próprios biógrafos de Sylvia, a escritora baseia-se nos próprios episódios de sua vida, mas toma liberdades criativas que inserem a obra parcialmente na ficção. A própria protagonista tem outro nome: é a jovem estudante Esther Greenwood, que consegue um estágio em uma revista feminina em Nova York e, a partir daí, vê um mundo possível se desabrochar na sua frente. Mas algo não está certo e a intensa vida mental de Esther a impede de aproveitar frivolamente as oportunidades que a cercam, como fazem as outras colegas de estágio.

A narrativa de A Redoma de Vidro tem algo de modorrenta, arrastada – não é exatamente uma leitura prazerosa –, o que possibilita ao leitor colocar-se próximo ao espírito da personagem, que aos poucos se desinteressa do seu entorno.

O grande trunfo do romance é o de conseguir transportar o leitor para a própria vivência da depressão: sem grandes alardes, sem tragédias retumbantes em sua vida, Esther aos poucos é tragada para dentro do ensimesmamento típico dos que são acometidos por esta doença. A própria narrativa de A Redoma de Vidro tem algo de modorrenta, arrastada – não é exatamente uma leitura prazerosa –, o que possibilita ao leitor colocar-se próximo ao espírito da personagem, que aos poucos se desinteressa do seu entorno.

A história se inicia com a execução do casal judeu Julius e Ethel Rosenberg, condenados por espionagem pela acusação de ter transmitido informações sobre a bomba atômica para a União Soviética (saiba mais aqui). O fato parece ser uma espécie de gatilho à instabilidade de Esther, que abre o livro (inteiramente narrado em primeira pessoa) desabafando: “tenho um problema com execuções. A ideia de ser eletrocutada me deixa doente, e os jornais falavam no assunto sem parar (…). Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas não conseguia parar de pensar em como seria acabar queimada viva até os nervos. Eu achava que devia ser a pior coisa do mundo”.

A partir daí, Esther ruma vagarosamente ao declínio e aos pensamentos obsessivos. Libertária e moderna, a jovem é totalmente desencaixada do mundo que se desenrola ainda para as mulheres na virada da década de 1950. Ela se incomoda pela misoginia vigente, inveja a liberdade dos homens que não precisam se preocupar com a gravidez e revolta-se quanto aos ideais de pureza projetados apenas para as mulheres. Decide, então, livrar-se da própria virgindade, entendida como um fardo que precisa carregar. Sua única condição é encontrar um homem inteligente: “só assim eu teria respeito por ele”.

Mas gradativamente os poucos projetos de Esther se tornam mais fracos que a escuridão que a acomete, a qual chama de redoma de vidro. A derrocada se prenuncia. Suas descrições sobre seu estado de espírito são tocantes. “Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim”, diz em determinado trecho. Encontramos aí a grande contribuição de Sylvia Plath na literatura: sua admirável capacidade de tecer em palavras os próprios sentimentos – daí, pode-se argumentar, justifica-se a legião de fãs gerada por tão breve obra.

A Redoma de Vidro é ainda um importante documento sobre a depressão e sua reverberação na vida de quem é assaltado por ela. Em certo momento do livro, há um diálogo muito pungente entre Esther e seu ex-namorado, que a visita após uma internação em uma clínica psiquiátrica. Quase como por vingança, ao tentar expurgar uma certa culpa pela situação da namorada, o rapaz pergunta: “e agora, quem irá casar com você?”. Pulsa no trecho uma denúncia sobre os estigmas que cercam as doenças mentais e que, de certa forma, culpabilizam os doentes.

Sylvia Plath suicidou-se um mês após a primeira publicação de A Redoma de Vidro, o que potencializou todo o culto em torno desta escritora. Resta como legado do seu único romance a fácil identificação com todos aqueles que, em algum momento, sentiram-se desencaixados do ritmo do mundo que os espreita lá fora.

A REDOMA DE VIDRO | Sylvia Plath

Editora: Biblioteca Livros;
Tradução: Chico Mattoso;
Tamanho: 280 págs.;
Lançamento: Outubro, 2014.

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