Há um momento em Jonathan em que se percebe que não estamos apenas diante de um espetáculo, mas de um corpo em estado de narrativa. Um corpo que lembra. Um corpo que pergunta. Um corpo que se recusa a aceitar o lugar de silêncio que a História tantas vezes reservou a ele.
Apresentado no Teatro Sesc da Esquina dentro da programação da Mostra Lucia Camargo, do Festival de Curitiba, o solo escrito e interpretado por Rafael Souza-Ribeiro, com direção sensível e precisa de Dulce Penna, é daqueles trabalhos que dispensam o excesso porque sabem exatamente onde está sua força: na presença.
E Souza-Ribeiro tem presença. Não apenas a presença técnica de quem domina tempo, pausa e respiração, mas algo mais difícil de definir: um magnetismo que nasce da verdade com que ocupa o espaço. Ele não apenas interpreta Jonathan. Ele parece escavar o personagem a partir de si mesmo, como se cada palavra tivesse atravessado antes sua própria experiência.
A faísca inicial da dramaturgia vem de um fato curioso: Jonathan, a tartaruga terrestre mais velha do mundo, hoje com 194 anos, símbolo da remota ilha de Santa Helena, território marcado pela história colonial britânica. Um animal transformado em emblema turístico, estampado em souvenires, reduzido a ícone.
Mas o espetáculo entende rapidamente que essa é apenas a superfície. O verdadeiro interesse está no que essa história permite perguntar: quem decide o destino dos territórios? Quem decide quais vidas importam? Quem escreve – e quem pode reescrever – a História?

Na cena, Jonathan é também um jovem negro de 17 anos que cuida da tartaruga e, ao fazê-lo, parece também cuidar das memórias fragmentadas do lugar onde vive, da família que o formou e das estruturas que tentam enquadrá-lo. O que se vê é um processo de tomada de consciência.
A direção de Dulce Penna entende isso e aposta na limpeza. Não há excessos. O espaço é quase um território mental onde a palavra ganha materialidade através do corpo do ator. É um teatro que confia no ator.
E Rafael constrói isso com inteligência dramatúrgica e uma presença cênica impressionante. Seu trabalho articula humor e dor sem didatismo, política e afeto sem rigidez. Há momentos em que a plateia ri. Em outros, silencia. Em vários, faz as duas coisas quase ao mesmo tempo.
Esse trânsito entre registros talvez seja uma das maiores qualidades do espetáculo: ele nunca se fecha numa única chave emocional. Prefere a ambivalência, esse território mais verdadeiro da experiência humana.
A direção de Dulce Penna entende isso e aposta na limpeza. Não há excessos. O espaço é quase um território mental onde a palavra ganha materialidade através do corpo do ator. É um teatro que confia no ator – e isso, hoje, já é uma escolha estética. O que emerge dessa construção é algo próximo de um rito íntimo de afirmação. Um jovem que decide não ser apenas personagem da História, mas seu narrador. Há algo de muito bonito e muito político nesse gesto.
Jonathan fala de colonialismo, mas também fala de permanência. Do que sobrevive apesar das tentativas de apagamento. Do que insiste em existir. Talvez por isso a imagem da tartaruga funcione tão bem: não como curiosidade biológica, mas como metáfora do tempo longo das estruturas e do tempo urgente das transformações.
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