• Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
Escotilha
Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
Escotilha
Home Teatro

A loucura: uma obra

porFrancisco Mallmann
1 de dezembro de 2015
em Teatro
A A
Envie pelo WhatsAppCompartilhe no LinkedInCompartilhe no FacebookCompartilhe no Twitter

A natureza humana se mostra no tempo e o ser humano é uma mostra da natureza. O inconsciente só é conhecido com ficções e mitos. O que se chama “tempo” é o tempo do nosso relacionamento afetivo com as coisas. Os afetos e as representações são datados. O ser humano se concretiza na relação com o outro. Espaço e tempo são formas necessárias aos nossos atos psíquicos. Todos os distúrbios são problemas do tempo. É o que dizem.

Artista de Fuga, dirigido por Marcos Damaceno, parece mobilizar algumas dessas ideias cuja origem é a psicanálise (as frases-conceitos acima são ínfimos recortes de Freud e Winnicott, especialmente) – a criação de um espaço em que a psique se une a um caráter específico da figura do artista. É como se houvesse uma conexão íntima entre o estado emocional e a “condição” de artista. O referencial, à distância, parece ser o amplo conjunto de relações existentes entre genialidade e loucura que permeiam a História da Arte e sua estetização. O constante exercício de criar auras ao redor de todas as coisas. “Um homem com uma dor é muito mais elegante”, disse Leminski. Um artista atormentado é mais legitimo, poderia também ter dito, nessa mesma lógica.

Não se trata apenas de um artista em crise criativa-existencial (é difícil dissociar, pensando que arte é vida e vida é arte), é também um choque entre a própria ideia de artista e a forma com que a vida é possível frente aos padrões idealizados. A peça apresenta a ideia de procrastinação como sendo um efeito do perfeccionismo – o medo de não criar algo magistral faz com que a pessoa adie determinada ação ou atividade.

A peça Artista de Fuga propõe uma constante desestabilização dessas noções pré-concebidas entre aquilo que é artista e aquilo que é louco.

A fuga, nesse sentido, é, obviamente, um afastar-se do mundo e do ambiente circundante, mas é também, na peça em questão, uma corrida cuja direção aponta para o interior do ser, sem que isso seja autoconhecimento ou autoesclarecimento. Esse movimento é refletido no espaço cênico, que é restrito e funciona quase como a materialização do interior do artista – a exteriorização de um lugar escuro, sufocante, caótico, em que rabiscos e registros pictóricos constituem a visualidade.

A dualidade entre interior e exterior parece ser um tema importante nas questões sugeridas pela montagem, que é uma adaptação do texto Como Me Tornei um Artista de Fuga, de Guto Gevaerd, que assina também a trilha composta da peça. A sonoridade, as vozes dos atores e a maneira com que a palavra é pensada/exercitada/executada enfatiza as distâncias entre um ser “ator-mentado” e o restante do mundo – fazendo lembrar velhas definições que tomam o “louco” como aquele que não tem o domínio da palavra, que, necessariamente, precisa ser elencada e proferida de maneira “normal”. Michel Foucault, em diversos materiais, aborda essa questão entre discurso e loucura.

Outra temática interessante para se pensar a peça, também presente na obra de Foucault, é a relação entre “loucura” e “obra”, assim apresentada por Peter Pal Pelbart, em uma obra intitulada Da Clausura do Fora ao Fora da Clausura:

“‘A loucura é ruptura absoluta de obra’, diz Michel Foucault. À primeira vista tudo parece claro. Por obra entendemos trabalho, construção, consistência, produto, comunicação, estrutura — tudo aquilo de que são incapazes nossos loucos, impotentes e desmilinguidos.

Obra é materialização de trabalho, forma, inserção do homem no espaço e inauguração de história. Os que não produzem, não formam, não comunicam, não têm lugar — a esses nós chamamos de loucos.

A conclusão se impõe: ausência da obra vale como critério-limite para discriminar o produtor do improdutivo, o estruturado do desmanchado, o existente do desistente, o são do insensato”

O que a peça Artista de Fuga, que tem no elenco Rosana Stavis, Paulo Alves e Eliane Campelli, articula, de algum modo, é a tênue linha existente entre o artista, aquele cuja obra é pretendida/evocada, e o louco. Propõe, por isso, uma constante desestabilização dessas noções pré-concebidas entre aquilo que é artista e aquilo que é louco sem, no entanto, se tornar moralista ou apontar para uma resposta única e correta. Trata-se de uma maneira de personificar e corporificar as discussões existentes no entrecruzamento das duas figuras, tornando mais complexas as questões ao invés de explana-las com finalidade esclarecedora — tal qual a vida, tal qual o humano.

Para somar às questões, sugiro este vídeo, de Aderbal Freire-Filho.

 

SERVIÇO

Artista de Fuga
Quando: 26/11 a 20/12. Quinta a sábado, às 21h; e domingo, às 19h.
Onde: Casa do Damaceno –  Rua Treze de Maio, 991;
Quanto: R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada).

fb-post-cta

Tags: Casa DamacenoCrítica TeatralGuto GevaerdMarcos DamacenoTeatro

VEJA TAMBÉM

'Peça sobre Peças' tem dramaturgia de Francisco Mallmann e direção de Fernando de Proença. Imagem: Vitor Dias / Divulgação.
Teatro

‘Peça sobre Peças’ propõe teatro como memória em estado de dúvida

28 de abril de 2026
Registro de 'Piracema', do Grupo Corpo. Imagem: Humberto Araújo / Divulgação.
Teatro

Crítica: ‘Piracema’ e o Corpo que insiste no movimento – Festival de Curitiba

14 de abril de 2026
Please login to join discussion

FIQUE POR DENTRO

Em 'O Adversário', Emmanuel Carrère reconta um dos crimes mais chocantes da história da França. Imagem: Andreu Dalmau / Reprodução.

‘O Adversário’: a história real de um homem que matou para sustentar uma mentira

29 de maio de 2026
Bárbara Lennie e Victoria Luengo dão vida a Elsa e Patricia no nome filme de Pedro Almodóvar. Imagem: El Deseo / Divulgação.

‘Natal Amargo’ transforma memória e luto em ficção melancólica

28 de maio de 2026
O escritor estadunidense de origem tailandesa Tony Tulathimutte. Imagem: Vincent Tullo / The Guardian / Reprodução.

‘Rejeição’, de Tony Tulathimutte, é o livro do ano

22 de maio de 2026
Zazie Beetz encara demônios em 'Eles Vão Te Matar'. Imagem: New Line Cinema / Divulgação.

‘Eles Vão Te Matar’ diverte como terrir, mas é mais do mesmo

19 de maio de 2026
Instagram Twitter Facebook YouTube TikTok
Escotilha

  • Sobre
  • Apoie
  • Política de Privacidade
  • Contato
  • Agenda
  • Artes Visuais
  • Colunas
  • Cinema
  • Entrevistas
  • Literatura
  • Crônicas
  • Música
  • Teatro
  • Política
  • Reportagem
  • Televisão

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.

Sem Resultados
Veja Todos Resultados
  • Reportagem
  • Política
  • Cinema
  • Televisão
  • Literatura
  • Música
  • Teatro
  • Artes Visuais
  • Sobre a Escotilha
  • Contato

© 2015-2023 Escotilha - Cultura, diálogo e informação.