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‘Ângela Diniz: Assassinada e Condenada’ reabre um caso e expõe o país

A produção da HBO Max 'Ângela Diniz: Assassinada e Condenada' revisita o assassinato da socialite mineira com rigor dramático e recorte histórico, destacando como o feminicídio de 1976 revela estruturas de violência e julgamentos morais que ainda moldam o Brasil contemporâneo. Marjorie Estiano brilha como a protagonista.

porPaulo Camargo
19 de novembro de 2025
em Televisão
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Marjorie Estiano interpreta a protagonista Ângela Diniz. Imagem: Conspiração Filmes / Divulgação.

Marjorie Estiano interpreta a protagonista Ângela Diniz. Imagem: Conspiração Filmes / Divulgação.

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A tragédia que envolve o nome de Ângela Diniz atravessa quase cinco décadas e, ainda assim, permanece como um dos episódios mais emblemáticos da violência contra a mulher no Brasil. Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, minissérie da HBO Max dirigida por Andrucha Waddington e estrelada por Marjorie Estiano, retoma o caso não como registro nostálgico, mas como diagnóstico. O que se vê na tela diz tanto sobre 1976 quanto sobre 2025.

A série organiza sua narrativa entre drama, tribunal e reconstrução histórica, evitando o formato convencional de “true crime”. Há uma escolha clara: não se trata de investigar o crime em si, mas de examinar sua repercussão social e jurídica — e o que ela revela sobre a cultura de violência de gênero no país. O que emerge é um retrato contundente de uma sociedade que julgou Ângela antes mesmo de sua morte.

Marjorie Estiano constrói uma protagonista muito distinta da imagem cristalizada pela imprensa à época. Sua Ângela é uma mulher que busca autonomia em um ambiente que não lhe concede espaço. Separada, independente e socialmente visível, ela desafia padrões de comportamento — e paga por isso. A atriz entrega uma performance precisa, marcada por nuances que evitam tanto o vitimismo quanto a idealização. Estiano humaniza a personagem sem suavizar sua complexidade.

Marjorie Estiano constrói uma protagonista muito distinta da imagem cristalizada pela imprensa à época. Sua Ângela é uma mulher que busca autonomia em um ambiente que não lhe concede espaço.

O Doca Street, interpretado aqui por Emílio Dantas, surge como parte de uma engrenagem maior. A série o insere em um contexto que mistura machismo estrutural, privilégio masculino e uma lógica de posse ainda amplamente naturalizada na época. Seus gestos e silêncios são apresentados como sintomas de uma sociedade que sempre encontrou maneiras de justificar a violência quando ela é direcionada às mulheres.

A reconstituição do julgamento — ponto central da série — funciona como eixo dramático e documento histórico. Waddington filma o tribunal como palco de um país dividido entre modernização superficial e tradições arcaicas. A defesa da “legítima honra”, argumento usado em favor de Doca e só abolido pelo STF em 2023, é exposta com clareza como mecanismo de impunidade. A minissérie mostra, sem recorrer a sublinhados excessivos, que a lógica que permitiu tal argumentação ainda resiste sob outras formas.

Visualmente, a produção adota um desenho cuidadoso. A ambientação de Búzios nos anos 1970, inicialmente luminosa, vai escurecendo à medida que a narrativa se aproxima do desfecho trágico. É um recurso simples, mas eficiente, que traduz cineticamente o apagamento progressivo da liberdade de Ângela. Figurino, trilha e fotografia seguem a mesma lógica: elegância contida a serviço da narrativa.

O roteiro, assinado por Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares, aposta na contextualização histórica como chave de leitura. O caso é reconstruído com base no podcast Praia dos Ossos, da Rádio Novelo, se vale de documentos, depoimentos e registros da imprensa, mas sempre a partir de um ponto de vista contemporâneo, atento ao debate sobre feminicídio, moralidade e responsabilização pública.

Há, por vezes, algum didatismo, especialmente nos momentos de maior carga política. E certas passagens no tribunal se estendem além do necessário. Mas esses pontos não comprometem o resultado final, que é sólido, consistente e de interesse evidente tanto para o público quanto para quem acompanha os debates sobre violência de gênero.

O mais significativo, no entanto, é o gesto de reposicionar Ângela Diniz como figura central da própria narrativa. A minissérie não a reduz a vítima nem a transforma em símbolo abstrato. Ela devolve à personagem o protagonismo que lhe foi retirado por décadas de interpretações enviesadas.

No fim, Ângela Diniz: Assassinada e Condenada reforça uma constatação incômoda: a história que ela conta não pertence ao passado. Ela apenas retorna, sob outras formas, cada vez que uma mulher é julgada antes de ser ouvida. E essa é, talvez, a contribuição mais relevante da série — lembrar que o país que matou Ângela continua, em muitos aspectos, o mesmo.

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Tags: Andrucha WaddingtonAngela DinizÂngela Diniz: Assassinada e CondenadaHBO MaxMarjorie EstianoMinissérieSérie

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