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‘Pluribus’ faz da felicidade obrigatória uma forma de violência

Nova série de Vince Gilligan, ‘Pluribus’ imagina um mundo em paz absoluta para expor o mal-estar radical da unanimidade e o esvaziamento do humano.

porAlejandro Mercado
3 de fevereiro de 2026
em Televisão
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Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

Rhea Seehorn encarna Carol Sturka diante de um mundo em uma violenta transformação. Imagem: High Bridge Productions / Divulgação.

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Em sua nova série para o Apple TV+, Pluribus, Vince Gilligan parece partir de uma provocação tão simples quanto corrosiva: e se o fim dos conflitos humanos não fosse uma boa notícia? A pergunta, que poderia facilmente descambar para a sátira ou para o conceito complexo (high concept) vazio, ganha aqui densidade dramática, ambiguidade filosófica e um desconforto persistente, desses que não se resolvem nem com respostas fáceis nem com redenções tardias.

O ponto de partida é um evento global que conecta quase toda a humanidade a uma consciência coletiva marcada pela harmonia, pela empatia e por uma felicidade constante. Não há guerras, desigualdades ou ressentimentos, apenas um consenso absoluto. Fora desse novo mundo fica Carol Sturka (Rhea Seehorn, de Better Call Saul), escritora de best-sellers românticos, misantropa assumida, que por razões nunca inteiramente explicadas é imune à transformação. Sozinha, enlutada e furiosa, ela passa a ocupar uma posição incômoda: a de exceção num mundo que aboliu o dissenso.

Gilligan não está interessado em explicar excessivamente sua premissa. Como em seus melhores trabalhos, a lógica do acontecimento importa menos do que suas consequências éticas, afetivas e políticas. Pluribus não é uma série sobre o “como”, mas sobre o “e daí?”. O mundo mudou, resta saber se isso representa uma evolução ou uma capitulação. A série se constrói, assim, sobre uma tensão fundamental: utopia para quem?

A resposta nunca é oferecida de maneira direta. O que vemos é o choque entre duas formas de existência. De um lado, a coletividade serena, gentil, quase sufocantemente solícita; de outro, Carol, figura atravessada pela dor, pela raiva e por uma noção de individualidade que soa anacrônica e, justamente por isso, profundamente humana. A série nos força a habitar esse desconforto sem nos dizer claramente quem está certo. A paz mundial, aqui, cobra um preço alto: a diluição da subjetividade, o apagamento do conflito, a eliminação da fricção que historicamente move a arte, a política e o pensamento.

Nesse sentido, Pluribus se aproxima mais de uma parábola moral do que de uma distopia clássica. Não há vilões evidentes, tampouco uma ameaça externa clara. A violência não se manifesta pelo excesso, mas pela suavidade. A frase recorrente “nós só queremos ajudar” ganha contornos sinistros à medida que se revela como uma forma de coerção emocional. A ajuda não pode ser recusada; a felicidade, tampouco. O consenso se transforma em norma, e a norma, em imposição.

Rhea Seehorn sustenta esse jogo delicado com uma atuação de rara intensidade. Sua Carol é abrasiva, contraditória, por vezes difícil de acompanhar, e é exatamente aí que reside sua força. Ela não foi desenhada para ser simpática, mas para ser coerente com sua recusa. Em um mundo que aboliu o atrito, Carol encarna o incômodo do grão de areia. A série entende que resistir não é necessariamente ser heroico. Às vezes, é apenas não conseguir (ou não querer) ceder.

A consciência coletiva pode ser lida como metáfora para a padronização algorítmica, para a promessa tecnológica de conforto absoluto ou para formas sutis de autoritarismo.

Há também algo de profundamente contemporâneo na maneira como Pluribus articula sua alegoria. A consciência coletiva pode ser lida como metáfora para a padronização algorítmica, para a promessa tecnológica de conforto absoluto ou para formas sutis de autoritarismo que se apresentam como cuidado. A série não fecha essa leitura, e acerta ao manter suas portas abertas. Sua força está justamente em não escolher uma única chave interpretativa, permitindo que o espectador projete ali seus próprios medos. Seja o da inteligência artificial, o da política do consenso, ou o da eliminação do conflito em nome da estabilidade.

Formalmente, Pluribus adota um ritmo deliberado, por vezes exasperante. Há momentos em que a narrativa parece girar em torno da própria premissa sem avançar. Ainda assim, esse tempo alongado não soa gratuito: ele reforça a sensação de estagnação que define o novo mundo. Se tudo já está resolvido, o que resta contar? Gilligan parece consciente desse risco e o incorpora à própria dramaturgia, apostando menos em reviravoltas e mais na acumulação de tensão moral.

No fim, Pluribus é uma série que incomoda justamente por se recusar a oferecer conforto. Ela não celebra a individualidade de forma ingênua, nem demoniza a ideia de coletividade. O que faz é expor o preço de qualquer absolutismo — inclusive o da felicidade. Nestes tempos em que vivenciamos a ansiedade de pertencimento e a aversão ao conflito, a série lembra que discordar, sofrer e até fracassar podem ser sinais não de atraso, mas de humanidade.

Talvez a pergunta central de Pluribus não seja se Carol está certa, mas se estamos dispostos a viver em um mundo onde estar certo deixou de importar. E, mais ainda: se um mundo sem atrito ainda merece ser chamado de mundo.

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Tags: Apple TV+PluribusRhea SeehornSérieVince Gilligan

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