É bem provável que, daqui a algumas décadas, o que passamos na época desastrosa de Jair Bolsonaro pareça ficção. Como costuma se repetir, a história do Brasil é, por vezes, tão inverossímil que parece ter saído da mente dos roteiristas mais inventivos. É um pouco essa a impressão que se tem ao se assistir aos sete capítulos da excelente série documental Caçador de Marajás, da Globoplay, que busca retratar o que foram os anos da era Collor, no início dos anos 1990.
Eleito presidente de forma direta pela população após os anos de ditadura militar, o carioca radicado em Alagoas Fernando Collor de Mello foi um azarão em vários sentidos. Embora seja oriundo de uma família poderosa de Alagoas (o pai, Arnon de Mello, foi deputado federal, senador e governador do estado), Collor era praticamente desconhecido pelos brasileiros. Mas, nas eleições de 1989, pelas várias razões que Caçador de Marajás tenta explicar, ele realizou uma campanha gloriosa que o fez deixar para trás nomes célebres da política brasileira, como Leonel Brizola, Mario Covas e o sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, que começava a trilhar um caminho ascendente na vida pública.
O fato é que a população resolveu apostar levando ao poder um sujeito algo desconhecido, nepobaby, mas que se apresentava como um outsider à política e que prometia acabar com a roubalheira dos marajás, termo que era usado de forma genérica para se referir aos funcionários públicos que ganhavam altos salários. Qualquer semelhança com Bolsonaro, aliás, talvez não seja uma mera coincidência.
Mas o seu curto governo foi catastrófico. Envolvido em vários escândalos de corrupção – cujas principais denúncias vieram do seu irmão mais novo, Pedro – Fernando Collor esteve por dois anos e meio na cadeira presidencial até sofrer impeachment do congresso, pressionado pela demanda popular expressa em todos os lugares do país. Por fim, o azarão, com ares napoleônicos, subiu e desceu do trono por meio de uma trama cercada de intrigas familiares dignas de uma peça de Shakespeare. Neste meio tempo, instalou uma política econômica desastrosa para o país e (pasme) deixou boas contribuições em algumas áreas.
Para os mais jovens, a série cumpre um importante papel de apresentar um dos tantos capítulos inacreditáveis da história do Brasil. Para quem esteve lá, é uma forma de relembrar um passado nem tão distante assim. Mas Caçador de Marajás faz bem mais que isso: ela analisa quais foram os impactos deste período e como o jornalismo e o marketing desempenharam funções primordiais para que tudo tenha sido como foi.
Página infeliz (e engraçada) de nossa história

Em entrevista à Folha de São Paulo, Charly Braun, diretor de Caçador de Marajás, contou que, na infância, conviveu com os sobrinhos de Collor, filhos de seu irmão mais velho Leopoldo, e acompanhou os impactos destrutivos que toda aquela trama rocambolesca trouxe à nobre família de Alagoas. Há, portanto, um testemunho próximo de fundo sobre como as mágoas entre irmãos conseguiram transformar a história de um país.
Os sete capítulos cumprem o objetivo de mostrar ao espectador o que ocorreu durante este período, de uma maneira que equilibra o rigor de uma abordagem mais objetiva, jornalística, com um tom de deboche. Isso se pontua, por exemplo, na inspirada trilha sonora, recheada de clássicos que bombaram no início dos anos 1990, com a ascensão do sertanejo e do pagode paulista. A abertura é embalada por “Pense em Mim”, de Leandro e Leonardo, o que já dá ares um tanto jocosos à obra (em seu perfil no Instagram, Braun postou que desejava usar “Chorando se Foi”, a onipresente lambada do grupo Kaoma, o que também casaria muito bem).
Os sete capítulos cumprem o objetivo de mostrar ao espectador o que ocorreu durante este período, de uma maneira que equilibra o rigor de uma abordagem mais objetiva, jornalística, com um tom de deboche.
A edição da série é primorosa, uma vez que costura de forma não linear, sem comprometer a lógica, os tantos episódios polêmicos que cercaram Collor. Abre-se falando pelo pior entre eles (a denúncia bombástica de Pedro Collor sobre as suas ligações obscuras com PC Farias), para logo então voltar aos tantos mais “leves”: a juventude de Collor como bon-vivant que não queria se dedicar aos negócios da família, e que era protegido pela mãe; a rivalidade com Pedro; a campanha eleitoral agressiva e arrojada que o levou a se eleger; o romance entre tapas e beijos com Rosane Collor; a terrível estratégia econômica da ministra Zélia Cardoso de Mello de congelamento das poupanças dos brasileiros, e por aí vai.
Mas a riqueza dessa série está nos muitos depoimentos que são obtidos, revelando um espetacular trabalho de produção. A equipe gravou com ministros do governo, com personagens ligados ao presidente que fizeram os escândalos estourarem (como Eriberto França, o motorista que foi testemunha-chave nas denúncias contra PC Farias) e muitos jornalistas e marqueteiros que foram personagens essenciais na construção e desconstrução dessa era.
Nomes poderosos da Globo, como Ali Kamel e Boni, falam para as lentes da série documental sobre como a emissora interferiu no debate eleitoral final entre Collor e Lula, o que teria favorecido o primeiro perante a população e influenciado diretamente os resultados do pleito.
No entanto, causa-se uma certa impressão que esse debate teria menos importância do que diz o senso comum. Outros fatores foram muito determinantes, como o fato de a campanha eleitoral de Collor ter investido em estratégias novas para o marketing eleitoral da época, como ataques mais diretos aos adversários. Tudo isso, somado-se a fatores tangenciais (com grande peso à juventude e à aparência física do candidato), fez com que o desconhecido de Alagoas subisse ao poder. O resto é história.
Talvez o mais surpreendente da série seja ver que mesmo um governo catastrófico conseguiu trazer grandes avanços ao Brasil, sobretudo nas áreas dos direitos indígenas, direitos das crianças e na ecologia. E ainda que Collor tenha restado como um capítulo vergonhoso na nossa história política, há alguns aspectos de sua personalidade que até podem provocar certa admiração, como a forma digna com que ele se retirou da presidência após ser deposto.
Se é possível apontar um possível problema na série, está a opção por não pontuar claramente quais das tantas entrevistas foram feitas pela equipe da série ou são imagens de arquivo. Jô Soares, que morreu em 2022, dá depoimento em alguns episódios, assim como Fernando Henrique Cardoso, que hoje tem 94 anos – causando a impressão que ambas as entrevistas podem ter ocorrido no passado. Porém são detalhes.
Com um raio amplo que olha não apenas para a persona do político, mas também para a época que ele inaugurou e encerrou, Caçador de Marajás é um grande acerto da Globoplay e cumpre um importante papel de documentar esse momento para quem não esteve lá. E o melhor de tudo: de forma leve e até divertida.
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