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‘A bomba’ revisita Hiroshima para expor a engrenagem moral da guerra moderna

Em ‘A bomba’, historiador estadunidense Howard Zinn articula memória pessoal e documentação histórica para questionar a legitimidade do massacre de civis em nome do Estado.

porAlejandro Mercado
4 de março de 2026
em Literatura
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Howard Zinn em Nova York, 2008. Imagem: Marc Dalio / Reprodução.

Howard Zinn em Nova York, 2008. Imagem: Marc Dalio / Reprodução.

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Originalmente publicado em 2010, A bomba é um livro curto, porém denso. Lançado no Brasil ano passado pelo selo Manjuba da editora Mundaréu, com tradução de Bruno Cobalchini Mattos, a obra de Howard Zinn, editada pouco após seu falecimento, é composta essencialmente por dois ensaios: “Hiroshima: Quebrando o silêncio” e “O bombardeio de Royan”. A edição ainda conta com um prefácio de Greg Ruggiero e uma introdução escrita pelo próprio Zinn pouco antes de sua morte.

Unindo memória pessoal, história documentada, análise política e argumentação moral, Zinn propõe uma reflexão sobre guerra moderna, terrorismo de Estado, racismo, moralidade em tempos de conflitos e a facilidade com que sociedades democráticas legitimam atrocidades. O ponto de partida do autor é sua experiência pessoal como artilheiro de um bombardeiro B-17 durante a Segunda Guerra Mundial. Ele participou de missões na Europa e esteve envolvido no bombardeio com napalm em Royan, na França, poucas semanas antes do fim da guerra europeia.

Um dos aspectos que confere a A bomba um caráter especial é que Zinn parte da própria ignorância, isto é, como ele próprio, um soldado, não via as vítimas sob um viés humano, ficando feliz pelas bombas arremessadas em solo japonês. O então soldado acreditava que aquelas bombas significariam o fim da guerra e que ele não precisaria mais combater no Pacífico. Howard descreve o recorte aéreo da guerra como impessoal, desumanizado e mediado por abstrações, distanciamento físico que, segundo ele, permite o distanciamento moral.

O núcleo do livro está no primeiro ensaio. Em “Hiroshima: Quebrando o silêncio”, Howard Zinn recupera relatos de sobreviventes japoneses, trechos do livro Hiroshima, de John Hersey, dados médicos japoneses e descrições das queimaduras, mutilações e mortes por radiação para levar o leitor a ter a dimensão humana do acontecimento. Zinn insiste que números (140 mil mortos em Hiroshima, dezenas de milhares em Nagasaki) não são o suficiente. Para o autor, o horror só é compreendido quando individualizado, razão pela qual desloca o foco do debate estratégico para o sofrimento concreto.

A bomba não era necessária

Ilha de Tinian, agosto de 1945. A bomba atômica Little Boy, em um suporte de reboque, sendo içada para o compartimento de bombas do bombardeiro Boeing B-29 Superfortress Enola Gay. Imagem: U.S. National Archives / Reprodução.

Um dos aspectos mais fortes em A bomba é como Howard Zinn elabora a tese central de sua obra. Para o autor (e inúmeros historiadores), a bomba jogada pelos Estados Unidos não era na realidade necessária, então ele confronta o argumento clássico de que as bombas teriam salvado vidas estadunidenses ao evitar que o país precisasse fazer uma invasão por terra.

Para tal, o autor mobiliza historiadores e documentos para sustentar que o Japão já estava militarmente derrotado e procurava negociar uma rendição. No entanto, do lado dos Estados Unidos, a exigência de “rendição incondicional” foi mantida mesmo quando se sabia que a preservação do imperador, desejo dos japoneses dentro das negociações de rendição, poderia acelerar o fim da guerra.

O historiador estadunidense argumenta que a bomba não foi utilizada por uma necessidade militar, mas como um atributo de demonstração de poder, menos para o Japâo do que para a União Soviética. Ou seja, Hiroshima teria sido também o primeiro gesto da Guerra Fria. A afirmação não é do autor, mas emprestada do cientista P. M. S. Blackett, o primeiro a definir o episódio desta maneira, em Fear, War and the Bomb (1948).

Responsabilidade individual

Capa da edição brasileira de ‘A bomba’. Imagem: Mundaréu / Arte: Escotilha.

No segundo ensaio do livro, Zinn mergulha no bombardeio à cidade de Royan, balneário no sudoeste da França, durante a Segunda Guerra Mundial. O historiador demonstra, através de pesquisas realizadas por ele próprio, que o ataque não possuía relevância estratégica clara para a guerra. Sem resvalar em moralismo, o autor questiona como a sociedade achou aceitável aquela atitude (Zinn estava em um dos aviões que despejaram as bombas na cidade, a primeira vez na história que napalm foi utilizado).

A partir deste ensaio, onde analisa, também, os bombardeios em massa de cidades alemães e os ataques a Tóquio, em que aproximadamente 100 mil pessoas morreram, em março de 1945, Zinn sugere que a bomba atômica foi a intensificação da prática de ataque deliberado a civis, atitude já legitimada pelas ações anteriores, e não uma ruptura civilizacional.

Zinn sugere que a bomba atômica foi a intensificação da prática de ataque deliberado a civis, atitude já legitimada pelas ações anteriores, e não uma ruptura civilizacional.

É bastante plausível estabelecer paralelos com as ofensivas militares de Israel na Faixa de Gaza, por exemplo. Ali, o Estado israelense justificou suas ações como necessárias para eliminar o Hamas e garantir sua segurança nacional. A discussão sobre proporcionalidade, distinção entre alvos militares e civis e uso de forças em áreas densamente povoadas ecoa o debate que Zinn travou sobre Hiroshima. E isso ocorre porque a lógica é bastante semelhante: a brutalidade do ataque inicial do Hamas criou um clima moral de legitimidade quase inconstestável. Nesse cenário, operações militares de larga escala ganham força e são defendidas como inevitáveis.

Zinn coloca uma questão que ecoa insistentemente na história da humanidade, de maneira especial na trajetória bélica de intervenções estadunidenses (Guerra da Coreia, Vietnã e Iraque, por exemplo). “Precisamos confrontar diretamente a questão moral: tendo em vista o horror imposto a centenas de milhares de seres humanos pelos bombardeios massivos nas guerras modernas, existe alguma ‘necessidade’ estratégico-político-militar capaz de justificá-lo?”.

Para Howard Zinn, “se a resposta for não”, como ele próprio acreditava ser, era necessário entender, ao menos, o que poderíamos aprender com esses acontecimentos “para nos libertar do pensamento que nos paralisa […] enquanto atrocidades são cometidas em nosso nome”. Os questionamentos dele seguem abertos, porque o maior perigo não é o líder que ordena, mas na sociedade que aceita.

A BOMBA | Howard Zinn

Editora: Mundaréu;
Tamanho: 96 págs.;
Lançamento: Abril, 2025.

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Tags: A bombaEditora MundaréuHoward ZinnLiteratura

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