A noite de domingo começa antes de começar. Do lado de fora do Teatro Guaíra, há um certo tipo de expectativa que não é exatamente ansiedade, mas, sim, reconhecimento. O público que entra para ver o Grupo Corpo já sabe, em alguma medida, o que o espera. Ou acha que sabe. É esse pequeno descompasso entre memória e experiência que a apresentação, no último fim de semana do Festival de Curitiba, se encarrega de tensionar.
Parabelo vem primeiro. E vem como aquilo que resiste ao tempo não por permanecer igual, mas por continuar pulsando. A coreografia de Rodrigo Pederneiras, de 1997, ao som de Tom Zé e José Miguel Wisnik, ainda carrega uma força difícil de domesticar. Há nela um Brasil que não se oferece como paisagem, mas como tensão: o corpo que avança e recua, que se organiza em conjunto e, ao mesmo tempo, ameaça escapar dele.
Não é uma peça de repertório no sentido acomodado do termo. É uma espécie de matriz. Um modo de organizar o movimento que segue reverberando, mesmo quando o grupo já não precisa afirmá-lo.
Quando Piracema começa, algo muda e não muda de forma evidente. Não há ruptura, não há gesto inaugural. O que se percebe é outra qualidade de tempo. A coreografia assinada por Rodrigo Pederneiras e Cassi Abranches já não carrega o peso da novidade. E talvez por isso funcione melhor.
Os corpos entram mais contidos. Não há pressa. Há um certo tatear, como se o movimento precisasse se reconhecer antes de se afirmar. Aos poucos, ele se abre, ganha amplitude, cria fluxos internos que lembram correntes não lineares, mas instáveis. A ideia de piracema, esse nadar contra o curso, não aparece como ilustração, mas como insistência. Como esforço contínuo.
Se Parabelo ainda opera na chave de uma identidade – um corpo coletivo reconhecível –, Piracema desloca essa segurança. O que se vê é um grupo em estado de processo.
A trilha de Clarice Assad acompanha esse percurso sem se impor. Parte de um terreno mais orgânico, quase percussivo, e avança para camadas que incorporam o eletrônico, o artificial, o que ainda não está totalmente assimilado. Não há hierarquia clara entre esses registros — e é justamente nesse atrito que o espetáculo encontra sua forma.
Em cena, os encontros são provisórios. Duos que se formam e se desfazem, agrupamentos que se reorganizam, linhas que nunca se fixam por completo. Há momentos de aproximação, quase de intimidade, que logo cedem lugar a uma espécie de dispersão. Não é desordem. É movimento.
Se Parabelo ainda opera na chave de uma identidade – um corpo coletivo reconhecível –, Piracema desloca essa segurança. O que se vê é um grupo em estado de processo. Um corpo que já não precisa provar sua coesão, mas que insiste em colocá-la em risco.
No Guairão, o efeito dessa justaposição é silencioso, mas preciso. Não se trata de comparar duas obras, mas de perceber o intervalo entre elas. O que permanece, o que se transforma, o que insiste.
Ao final, não há conclusão evidente. O movimento se desacelera, mas não se resolve. Fica a sensação de que algo continua – fora de cena, talvez, ou no corpo de quem assistiu.
E é nesse ponto que o Grupo Corpo acerta com mais força: não em afirmar o novo, mas em sustentar o movimento. Como quem entende que, na arte, permanecer é sempre uma forma de nadar contra a corrente.
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