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‘Peça sobre Peças’ propõe teatro como memória em estado de dúvida

Dirigida por Fernando de Proença, 'Peça sobre Peças' investiga o que permanece da cena quando tudo já terminou — e faz da pergunta sua matéria principal.

porPaulo Camargo
28 de abril de 2026
em Teatro
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'Peça sobre Peças' tem dramaturgia de Francisco Mallmann e direção de Fernando de Proença. Imagem: Vitor Dias / Divulgação.

'Peça sobre Peças' tem dramaturgia de Francisco Mallmann e direção de Fernando de Proença. Imagem: Vitor Dias / Divulgação.

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O teatro é uma arte que desaparece. Essa constatação, que poderia soar como perda, costuma ser também o seu motor. O que fica de uma peça depois que ela acaba? O que resiste à dissolução do gesto, da fala, da presença? Peça sobre Peças, criação da Rumo de Cultura, nasce desse impasse — e prefere habitá-lo a resolvê-lo.

Ao reunir fragmentos de trabalhos anteriores, a montagem dirigida por Fernando de Proença, com dramaturgia de Francisco Mallmann, constrói menos um espetáculo do que um campo de reverberações. Não há aqui uma progressão dramática evidente, mas um acúmulo de vestígios. A cena se organiza como memória em movimento: aquilo que já foi retorna, deslocado, reencenado, atravessado pelo tempo.

Esse retorno, no entanto, não busca a nostalgia. O que se vê é um teatro que se observa enquanto acontece, consciente de seus próprios mecanismos, mas sem a pretensão de dominá-los. As perguntas que atravessam a peça — o que é criar, o que é estar em cena, o que se compartilha com o outro — não funcionam como eixo conceitual rígido, mas como dispositivos de abertura. São perguntas que não pedem resposta, apenas permanência.

O que se vê é um teatro que se observa enquanto acontece, consciente de seus próprios mecanismos, mas sem a pretensão de dominá-los.

O elenco — Christiane de Macedo, Diego Marchioro, Geyisa Costa, Patricia Cipriano e Ranieri Gonzalez — sustenta esse estado com uma atuação que privilegia a escuta. Há uma qualidade de atenção em cena que desloca o foco do virtuosismo para a presença. A disposição circular reforça essa percepção: não há frontalidade, não há centro evidente. O que existe é um espaço comum, precário e, por isso mesmo, vivo.

A cada sessão, a presença de um artista convidado, que rememora uma obra de sua trajetória, amplia essa dimensão, inscrevendo o espetáculo numa memória que não é apenas individual, mas coletiva. Na sessão à qual assisti, a convidada foi a dramaturga e diretora Suely Araújo, da Cia. Senhas.

Há momentos em que esse gesto de reflexão se aproxima de uma certa rarefação. Quando o pensamento se sobrepõe ao acontecimento, a cena parece hesitar. Como se o teatro, ao se mirar demais, corresse o risco de se desfazer antes de se afirmar. Ainda assim, essa hesitação não é exatamente um problema — ela é parte do que o trabalho propõe.

Porque, no limite, Peça sobre Peças não busca oferecer uma forma acabada, mas sustentar um estado. Um estado de dúvida, de atenção, de presença partilhada. Ao final, o que resta não é uma ideia clara sobre o teatro, mas a experiência — breve e frágil — de ter estado ali, com outros, diante de algo que acontecia e, ao mesmo tempo, já começava a desaparecer.

SERVIÇO | Peça sobre Peças

Onde: Teatro Cleon Jacques (R. Prof. Nilo Brandão, 710 – São Lourenço | Curitiba/PR);
Quando: até 03 de maio; quarta a sábado, às 20h; domingo, às 17h;
Quanto: Entrada gratuita (retirada de ingressos na bilheteria 1h antes; 50 lugares por sessão).

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Tags: Crítica TeatralFernando de ProençaFrancisco MallmannPeça sobre PeçasTeatro

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