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‘Euphoria’ perde força e encerra sua história de forma decepcionante

Última temporada de 'Euphoria' traz fechamento frustrante ao drama adolescente criado por Sam Levinson.

porMaura Martins
21 de julho de 2026
em Televisão
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Não há redenção possível para Rue em 'Euphoria'. Imagem: A24 / Divulgação.

Não há redenção possível para Rue em 'Euphoria'. Imagem: A24 / Divulgação.

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Ao estrear sua primeira temporada, em 2019, Euphoria provocou furor. Com sua estética rebuscada e reluzente, em que (quase) cada cena lembrava uma pintura, a série de Sam Levinson parecia fazer um retrato feroz e duro sobre a chamada geração Z. O elenco jovem – composto por gente como Zendaya e Jacob Elordi, que se tornariam super celebridades – dava corpo e voz a uma trama que sinalizava um diagnóstico sobre o que estaria ocorrendo com as novas gerações, ao menos nos Estados Unidos: um panorama de pouca perspectiva de futuro, muita confusão identitária e uma tendência a procurar um escape disso nas drogas pesadas.

A história, em si, poderia guardar ares de série juvenil, mas Euphoria ia muito além disso. A trama girava em torno de Rue (Zendaya), uma adolescente que guarda um trauma pela morte precoce do pai e se torna dependente de drogas. Ela convive em seu colégio com uma turma em que cada um carrega os seus dramas – que vão desde o problema de ter seu namorado roubado pela melhor amiga, de tentar ser respeitada como uma adolescente trans até o de descobrir que seu pai é um bissexual viciado em sexo.

O que Euphoria estava expondo aos seus espectadores era uma radiografia arrasada da adolescência, afastada de qualquer idealização; mas, mais que isso, a série tecia um comentário sobre o tempo histórico em que esses jovens existem. A América ali retratada é a terra da consumo, da superficialidade e dos prazeres mundano, uma vez que nada mais para em pé além do gozo fácil.

A primeira temporada foi sucesso absoluto, sendo seguida, em 2022, pela próxima, em que se dava continuidade às existências de Rue, do atleta valentão Nate (Jacob Elordi) e de suas namoradas Maddie (Alexa Demie) e Cassie (Sydney Sweeney). Somavam-se a eles ainda Jules (Hunter Schafer), a jovem transexual que transita entre melhor amiga e amante de Rue, Kat (Barbie Ferreira) e o traficante Fezco (Angus Cloud, que faleceria de overdose em 2023, aos 25 anos).

Depois de formados no ensino médio, eles seguiam sem saber o que fazer, e seus dramas emocionais tomavam conta. Em uma das primeiras cenas da segunda temporada, Rue tece um de seus solilóquios e diz: “Muita gente me pergunta o que eu tenho feito desde o ensino médio. Sinceramente? Nada de bom”.

Não havia grandes esperanças para ninguém ali, mas, ainda assim, restava alguma luz no fim do túnel. Então, quatro anos se passaram até que o elenco de Euphoria (agora formado por estrelas de Hollywood) pudesse finalmente se reunir para uma temporada derradeira, o que ocorreu em 2026.

‘Euphoria’, temporada 3: uma descida ao inferno

Muito esperada pelos fãs, a etapa final do drama de Sam Levinson apresenta uma conclusão frustrante, por um lado, mas com alguns raros lapsos de brilhantismo. Fica claro, contudo, que ninguém se salvou, e todos os personagens enveredaram por caminhos tão tóxicos quanto eles próprios.

A maior parte da energia desta terceira temporada se concentra em torno de Rue – que, para poder se livrar de sua dívida com a traficante Laurie (Martha Kelly) e não ser morta, tornou-se uma mula. Ela engole saquinhos de fentanil que transporta do México até o Texas, onde os libera ao defecar em cima de uma peneira. Um adendo: merece destaque aqui a entrega de Zendaya à personagem no retrato de sua decadência física e mental.

Muito esperada pelos fãs, a etapa final do drama de Sam Levinson apresenta uma conclusão frustrante, por um lado, mas com alguns raros lapsos de brilhantismo.

Ocorre que, no meio do caminho, ela se envolve na treta do grupo de Laurie com o de outro traficante, chamado Alamo (vivido pelo ator Adewale Akinnuoye-Agbaje, reconhecido por seus papéis icônicos como Adebisi em OZ e Mister Eko em Lost). Além de seu negócio com drogas, ele também comanda um rico puteiro e porta-se como um verdadeiro cowboy do Velho-Oeste, pouco importa que é negro (algumas das melhores cenas da temporada, inclusive, diz respeito às disputas entre as duas gangues: uma formada por negros e outra por americanos redneck).

Rue está em apuros, mas suas amigas não estão em situação melhor. Cassie planeja um casamento com Nate, e ambos vivem afundados em dívidas para manter o estilo de vida ostentação que desejam – principalmente ela, que segue retratada pelo estereótipo de loira fútil. Para poder bancar esses luxos, Cassie encontra uma solução que parece fácil: abrir um OnlyFans e compartilhar fotos nuas. Nate, incapaz de dizer não, se mete em uma grande enrascada ao criar uma dívida com agiotas armênios.

Maddie, enquanto isso, faz jus ao seu espírito empreendedor e se torna uma agenciadora de mulheres que, assim como Cassie, querem ganhar dinheiro rápido expondo seus corpos na internet. Hunter, um pouco alheia às amigas, faz faculdade de artes visuais enquanto é sustentada por um sugar daddy (Sam Trammell, de True Blood) que a mantém sob rédeas curtas.

Alexa Demie, Hunter Schafer e Zendaya em ‘Euphoria’. Imagem: Divulgação.

Ou seja, ninguém está impune ao sofrimento atraído pelas próprias escolhas, e o futuro é incerto para todos. Rue, no entanto, segue sonhando com uma redenção espiritual que parece vir até ela pelas palavras de Ali Muhammad (Colman Domingo, como sempre sublime). Essa outra existência possível também aparece por meio de uma espécie de miragem que chega a Rue quando ela, ao tentar fugir da polícia, acaba sendo acolhida por uma família religiosa em uma zona rural do Texas.

A saga de Rue ao longo das três temporadas de Euphoria é a de uma menina profundamente quebrada, cujo único abraço que consegue receber é o das drogas, mas que luta, com todas as forças, para se libertar do vício. O melhor aspecto da série foi conseguir pintar um retrato tridimensional dessa personagem absolutamente complexa, que se mostra tão terna quanto pronta para passar a perna em quem quer que fosse.

A melhor parte nesta conclusão se concentra nas cenas que envolvem Rue, que deságuam no ápice da temporada, com um duelo entre o bem e o mal (dizer mais seria trazer um spoiler indesejado). A pior está em todo o resto: as tramas das personagens paralelas ou são rasas (é o caso de Maddie) ou ficam pelo caminho (caso de Jules).

Com apenas oito episódios, a temporada final de Euphoria se encerra aquém daquilo que entregou. Um dos principais problemas é que o apuro estético (que foi bastante importante para tornar essa série um ícone cultural) acabou assumindo mais peso e espaço do que a história em si. O encerramento, por fim, é melancólico, e talvez ainda mais pessimista do que poderia ter sido imaginado por qualquer um de seus fãs.

Talvez aí esteja a parte mais surpreendente do roteiro: notar que Sam Levinson não caiu na tentação de trazer alguma redenção a uma história que rumou, o tempo todo, para o trágico. Mesmo assim, merecíamos muito mais.

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Tags: Colman DomingoEuphoriaHBO MaxHunter SchaferJacob ElordiSam LevinsonSydney SweeneyZendaya

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