O ano é 1985. Um novo tempo atravessa o Brasil: a esperança trazida pela reabertura política e pela chegada de novos ares de liberdade, depois de vinte anos de regime ditatorial. Em Curitiba, longe dos grandes centros de poder, dois jovens sentem esse clima se aproximar enquanto tateiam as descobertas de um mundo particular. Em Alguém Que Vi de Passagem (editora M.inimalismos, 2026), primeiro romance do jornalista Paulo Camargo (leia aqui entrevista com o autor), há um resgate dos rastros da memória para criar uma autoficção.
Na obra, acompanhamos a vida de Paulo, então com dezenove anos. Entrando na vida universitária, ele se despede da adolescência e sente a chegada do primeiro encantamento amoroso quando se aproxima de João, um amigo que aos poucos o desperta para outros sentimentos.
Mas o contexto aqui não é simplesmente o do desejo sexual. O que vemos nesse delicado romance é a colisão entre um país que se redescobre e a afetividade entre jovens que ainda não sabem como expressá-la. Eles ainda vivem, afinal, em um entorno no qual a discrição e o ensimesmamento, sobretudo entre homossexuais, constituem uma regra não dita.
O que entendemos aos poucos é que o objeto da paixão aqui opera como um rito, alguém que está ali para revelar-lhe coisas sobre si mesmo, marcando-o para sempre.
Paulo, ao desvendar aos poucos a natureza do seu afeto por João, vai sendo embalado pelas belezas e pelos sofrimentos de quem se entrega ao primeiro amor. Sempre de maneira cuidadosa, como quem pisa aos poucos na água fria do mar, antes de mergulhar de vez. Afinal, João também está explorando um novo território e guarda seus segredos.
O que Alguém Que Vi de Passagem vai nos mostrando são as camadas a mais que atravessam as relações homossexuais – potencializadas pelo momento histórico como o que ocorria àquela época. Ainda que bons ventos se prenunciassem no ar, a tensão ainda perdurava e a repressão autoritária já estava introjetada entre os civis. Para completar, a morte inesperada e misteriosa de Tancredo Neves, primeiro presidente após a abertura democrática, incitava o temor de que tudo poderia retroceder a qualquer momento.
Um romance de formação cheio de som

Com escrita leve e poética – refletindo sua longa experiência no gênero da crônica –, Paulo Camargo adentra nesta nova experiência literária trazendo suas características de estilo reconhecíveis aos seus leitores. É um escritor atento aos detalhes e às sutilezas das emoções, preservando, de forma cativante, o olhar de menino quando recorda a própria história.
Alguém Que Vi de Passagem se organiza de maneira não cronológica, em capítulos que transitam entre o presente e o passado do personagem Paulo. O fio condutor, claro, é a descoberta da paixão, que se desdobra pelas vias do amor sutil, e não pelo arroubo descontrolado.
O que entendemos aos poucos (e essa é uma das grandes belezas do livro) é que o objeto da paixão opera como um rito, alguém que está ali para revelar-lhe coisas sobre si mesmo, marcando-o para sempre. É, como o título sugere, alguém de passagem, mas não por isso pouco importante.
Paulo e João se tornam testemunhas do crescimento um do outro, e juntos enfrentam batalhas. Mas o aprendizado do primeiro amor é também o aprendizado do fim. “O amor, ali, deixava de ser apenas sentimento. Tornava-se exercício de paciência, espera, tentativa de permanecer inteiro diante da perda anunciada”, escreve Camargo.
Uma primeira história de amor como todas as outras – e, por isso mesmo, a mais especial que existe. Situado nos bares de Curitiba, ao som da trilha sonora que embalava a época (o título empresta versos de “Um Gosto de Sol”, do Clube da Esquina), Alguém Que Vi de Passagem é um romance de formação que merece ser lido.
ALGUÉM QUE VI DE PASSAGEM | Paulo Camargo
Editora: Minimalismos;
Tamanho: 104 págs.;
Lançamento: Novembro, 2026.
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