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Paulo Camargo: “Na ficção, pude avançar por territórios aos quais talvez não chegasse de outra forma”

Em entrevista à Escotilha, Paulo Camargo fala sobre o processo de escrita de 'Alguém que Vi de Passagem', seu primeiro romance, que está sendo lançado pela editora Minimalismos.

porMaura Martins
18 de agosto de 2026
em Entrevistas, Literatura
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O jornalista e escritor Paulo Camargo. Imagem: Willian Zuclinski.

O jornalista e escritor Paulo Camargo. Imagem: Willian Zuclinski.

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Paulo Camargo é um jornalista inquieto. Após quase quarenta anos de carreira, segue disposto a explorar novos territórios das palavras. É com esse espírito que agora se aventura na literatura – uma presença constante em sua vida, dedicada às artes e ao jornalismo cultural – com o lançamento do seu primeiro romance.

Em Alguém que Vi de Passagem, ele resgata o Paulo jovem adulto que crescia em Curitiba nos anos 1980, em um contexto político simultaneamente tenso e libertador. O Brasil entrevia as possibilidades que a redemocratização trazia, enquanto dois rapazes se reconheciam e conheciam novas formas de afeto, antes escondidas pelo medo.

O livro, que está sendo lançado pela Editora Minimalismos, se insere no terreno da autoficção, na tradição de autores como Annie Ernaux e Édouard Louis. Ao escolher o gênero, Paulo Camargo parte de momentos de sua própria vivência, mas mantém a liberdade para ficcionalizar detalhes, cenas ou mesmo personagens.

Conversamos com Paulo (que é um dos fundadores da Escotilha, além de coordenador e professor universitário na PUC-PR) sobre o seu primeiro romance e sobre como a obra foi desenvolvida. O livro, que está já na fase de pré-venda, terá seu lançamento em Curitiba em novembro.

Escotilha » Paulo, seu livro é apresentado como ficção, mas também pisa no terreno pantanoso da autoficção. Como isso se concretiza na obra? E como você lidou com o fato de parte da história narrada ter relação com a sua própria vida?

Paulo Camargo » A matriz da minha narrativa é a memória, e a memória é imperfeita: ela não é capaz de reconstituir com fidelidade os acontecimentos. De alguma maneira, selecionamos o que esquecemos, e aquilo de que nos lembramos já é sempre uma versão dos fatos. Nesse sentido, a própria memória nos aproxima da ficção.

Quando olhei para trás para reconstituir um momento tão fundamental da minha vida, fiz isso como um homem de 60 anos, que nunca conseguirá tocar inteiramente o jovem de 19 que fui a não ser por meio da invenção literária. Há uma distância entre nós que só a literatura pode atravessar.

Daí também a escolha da terceira pessoa. O Paulo do livro deixa de ser eu para se tornar um personagem. E, quando isso acontece, posso observá-lo de fora, interrogá-lo e, sobretudo, reinventá-lo. A experiência vivida está na origem do romance, mas o que chega ao leitor já pertence à ficção.

Capa de ‘Alguem que vi de passagem’. Imagem: Divulgação.

Como muitas cenas coincidem com acontecimentos da sua vida, isso envolve também os personagens. Como você imagina que as pessoas que os inspiraram irão reagir? Você acha que elas vão se reconhecer na história?

Eu as recriei, e não apenas alterando seus nomes. Embora sejam inspiradas em pessoas reais, que fizeram parte da minha vida, elas existem hoje para mim sobretudo através da memória — como me lembro delas naquele tempo e naquele espaço. Isso, por si só, já as desloca da vida real e as aproxima da ficção.

Para trazê-las à narrativa, precisei reinventá-las, ainda que tenham preservado muitos dos traços que permaneceram nas minhas lembranças. Creio que algumas dessas pessoas vão se reconhecer, sim. Mas duvido que a percepção que guardam de si mesmas naquele tempo coincida inteiramente com a minha. Talvez esse seja um dos aspectos mais fascinantes da memória: podemos ter vivido juntos a mesma história e, tantos anos depois, carregar histórias diferentes dentro de nós.

Você é um jornalista com muita experiência. De que forma essa trajetória se relacionou com a sua escrita de ficção? Acredita que ela o ajudou, por exemplo, na reconstituição do cenário histórico?

Minha experiência de quase 40 anos como jornalista ajudou e atrapalhou. Sempre fui muito atento aos detalhes. A escuta e a observação são ferramentas essenciais ao jornalismo e também fundamentais, penso, na literatura. Nesse sentido, essa experiência foi muito importante para reconstituir não apenas a Curitiba de 1985, mas a atmosfera daquele momento — a redemocratização, os comportamentos, os lugares, a maneira como as pessoas falavam, o que podia ser dito e, principalmente, aquilo que ainda precisava permanecer em silêncio.

“A experiência vivida está na origem do romance, mas o que chega ao leitor já pertence à ficção”.

Paulo Camargo

Mas há o outro lado. O jornalismo pede contextualização, pede que as coisas sejam explicadas. E a literatura não necessariamente. Às vezes, ela ganha justamente com aquilo que não explica. Precisei me policiar muito para não transformar o contexto histórico em informação para o leitor, porque isso poderia tornar a narrativa previsível, didática e lhe roubar o brilho.

Talvez o desafio tenha sido esse: usar o jornalista para observar e pesquisar, mas saber a hora de pedir que ele saísse de cena para que o ficcionista pudesse escrever.

A escritora Nara Vidal participou do seu processo como revisora crítica. Como foi essa experiência? E como foi ter alguém, de alguma forma, fazendo uma leitura crítica do seu texto, uma vez que você atua há muitos anos como editor?

Foi, ao mesmo tempo, essencial e muito difícil. Passei boa parte da minha vida profissional lendo, editando e fazendo observações sobre o texto dos outros. De repente, era o meu texto que estava sendo submetido a esse olhar externo, especializado e propositalmente crítico. Isso nos desnuda como autores: expõe as imperfeições, as fragilidades e também aquilo a que estamos apegados demais para perceber que talvez não funcione.

É uma experiência que pode ser dolorosa, porque, durante a criação, estamos imersos no texto e nem sempre conseguimos enxergá-lo com distanciamento e autocrítica. Mas é justamente por isso que esse olhar é tão vital. O livro mudou muito a partir da leitura da Nara. Ficou mais fluido, mais essencial, menos preso a excessos e a certa autocomplacência que havia na primeira versão.

A mudança mais importante talvez tenha sido a passagem da primeira para a terceira pessoa. Foi a partir das observações da Nara que percebi que não conseguiria voltar a ser aquele jovem de 19 anos. Eu precisava olhar para ele de fora. Essa distância acabou me dando muito mais liberdade para transformá-lo em personagem e para ficcionalizar a própria experiência.

Paulo Camargo em 1985, com 20 anos. Imagem: Acervo pessoal.

Houve ainda uma segunda leitura crítica, da jornalista e escritora paranaense Lorena Klenk, que pertence à minha geração e viveu a mesma Curitiba que eu. Foi um olhar diferente e complementar. Sua leitura muito cuidadosa foi importante sobretudo na busca por uma escrita que soasse autêntica e fosse capaz de recuperar aquele tempo sem transformá-lo em uma reconstituição artificial.

No fim, talvez tenha aprendido, depois de tantos anos como editor, uma lição bastante simples: quando o texto é nosso, somos justamente a pessoa menos indicada para enxergar tudo o que há nele.

Para as pessoas que leem você há décadas e o conhecem principalmente por conta das críticas de cinema, qual Paulo elas vão conhecer agora em Alguém que vi de passagem?

Acho que o romance bebe muito da minha experiência como cinéfilo e crítico de cinema. Percebo isso na construção da narrativa, não linear e fragmentada, como a própria memória, e também na importância que dou às imagens, aos espaços, aos gestos, àquilo que uma cena pode revelar sem necessariamente precisar explicar.

Mas o Paulo ficcionista talvez converse ainda mais intensamente com o cronista. Nas crônicas, assim como neste livro, os fatos vividos, a memória e as minhas experiências sensíveis estão muito presentes. A diferença é que, na ficção, pude avançar por territórios aos quais talvez não chegasse escrevendo uma crônica ou uma crítica de cinema.

Então, talvez o leitor encontre um Paulo mais exposto, mais íntimo, embora protegido pela própria ficção. Alguém que continua muito interessado em observar os outros, mas que, desta vez, resolveu dirigir esse olhar também para si mesmo.

O autor de literatura, contudo, está nascendo. Está dando seus primeiros passos e, como todo iniciante, talvez tenha a seu favor o frescor e uma certa liberdade para compensar a inexperiência. Estou descobrindo que escritor de ficção sou enquanto escrevo.

ALGUÉM QUE VI DE PASSAGEM | Paulo Camargo

Editora: Minimalismos;
Tamanho: 104 págs.;
Lançamento: Novembro, 2026.

O livro Alguém que Vi de Passagem está em pré-venda e pode já ser adquirido aqui. Caso a campanha atinja 100 exemplares vendidos, cada comprador receberá um livro extra.

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Tags: Alguém que vi de passagemLiteraturaLiteratura BrasileiraMinimalismosPaulo Camargo

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