Há no título do novo romance de Alexandre Vidal Porto uma ideia que, aos poucos, se revela central para sua construção: algumas experiências apenas se tornam verdadeiramente legíveis quando já pertencem ao passado. Enquanto vivemos, raramente dispomos da distância necessária para compreender o significado de um encontro, de uma paixão ou mesmo de uma despedida. É somente depois, quando o tempo já modificou as circunstâncias e também aquele que se lembra, que começamos a reorganizar o vivido e a lhe atribuir sentidos que talvez não existissem no momento original. Só Depois Entenderei (Companhia das Letras, 2026) nasce justamente desse intervalo entre a experiência e sua compreensão.
O protagonista é um diplomata brasileiro vivendo em Nova York nos anos 1990, quando a internet ainda dava seus primeiros passos e as salas de bate-papo começavam a criar novas possibilidades de encontro entre homens gays. É nesse ambiente que ele conhece um homem casado, pai de família, e inicia uma relação destinada a atravessar, de diferentes maneiras, as décadas seguintes. Há nessa premissa todos os elementos para um romance sobre paixão clandestina e amor impossível, mas Vidal Porto deliberadamente evita esse caminho mais previsível. Interessa-lhe menos acompanhar a intensidade imediata da paixão do que investigar aquilo que uma relação se torna quando deixa de pertencer ao presente e passa a existir, sobretudo, como memória.
Essa escolha determina também a forma do romance. Vidal Porto escreve com uma economia que já se tornou característica de sua literatura, evitando ornamentar sentimentos ou atribuir às cenas uma carga dramática maior do que elas parecem suportar. A prosa é direta, precisa, muitas vezes deliberadamente sóbria, como se o autor soubesse que a intensidade do material dispensasse a necessidade de sublinhá-la.
Há algo de muito eficaz nessa contenção, sobretudo porque a narrativa é conduzida por uma consciência que já conhece o destino de boa parte daquilo que conta. Não estamos inteiramente dentro da paixão, mas diante de alguém que a observa depois que o tempo realizou sobre ela seu inevitável trabalho de erosão e transformação.
É justamente aí que Só Depois Entenderei encontra sua dimensão mais interessante. O passado não aparece como território estável ao qual o narrador pudesse simplesmente retornar, mas como uma construção permanentemente contaminada pelo presente. Toda lembrança carrega alguma coisa daquele que lembra. Ao recuperar determinado encontro décadas mais tarde, o personagem já sabe aquilo que ignorava quando o viveu; conhece as consequências, as ausências, as permanências e, principalmente, o homem no qual ele próprio se transformou. A memória, portanto, não funciona como arquivo, mas como forma narrativa, selecionando episódios, aproximando momentos distantes e deixando extensas zonas da vida fora do enquadramento.
As elipses são importantes nesse processo. Vidal Porto não pretende oferecer a cronologia minuciosa de uma relação, preferindo trabalhar com fragmentos significativos de uma existência. O tempo avança e, com ele, determinadas coisas simplesmente deixam de ser narradas. Há encontros que ganham peso porque sabemos que outros tantos ficaram pelo caminho. Essa construção produz uma espécie de melancolia discreta, que não nasce da declaração sentimental, mas da percepção de que a vida transcorreu também nos espaços em branco do romance. Quando reencontramos os personagens, alguma coisa já mudou, e nem sempre sabemos exatamente quando a mudança ocorreu.
A ambientação nos anos 1990 adquire, por isso, importância que ultrapassa a simples reconstituição de época. Vidal Porto recupera uma experiência muito particular da homossexualidade masculina naquele momento, quando uma liberdade crescente ainda convivia com mecanismos bastante arraigados de ocultamento. Para homens gays, as primeiras salas de bate-papo representaram mais do que uma inovação tecnológica: criaram territórios nos quais o desejo podia circular com uma liberdade que nem sempre encontrava correspondência na vida pública.
Vidal Porto escreve com uma economia que já se tornou característica de sua literatura, evitando ornamentar sentimentos ou atribuir às cenas uma carga dramática maior do que elas parecem suportar.
A possibilidade de conversar anonimamente com outro homem, antes mesmo de conhecer seu rosto, pertence a um mundo que desapareceu com uma velocidade impressionante e que o romance recupera sem transformá-lo em objeto de nostalgia.
Isso é particularmente significativo porque o protagonista pertence ao Itamaraty, instituição marcada historicamente por códigos rígidos de comportamento e representação. Um diplomata vive profissionalmente da capacidade de circular entre diferentes ambientes, compreender regras e construir uma persona pública adequada a cada circunstância. A existência homossexual acrescenta outra camada a esse permanente exercício de representação. Vidal Porto não precisa transformar essa tensão em discurso; ela aparece nas maneiras pelas quais o personagem administra o desejo, a exposição e a intimidade, e sobretudo na distância existente entre aquilo que pode ser vivido e aquilo que pode ser mostrado.
A proximidade entre o universo do protagonista e a biografia do próprio escritor inevitavelmente suscita a discussão sobre autoficção. Diplomata de carreira, gay e pertencente à mesma geração de seu personagem, Vidal Porto prefere, entretanto, rejeitar esse enquadramento.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o escritor oferece uma formulação mais sugestiva ao dizer que emprestou o próprio corpo ao personagem para permitir que ele vivesse experiências diferentes das suas. A imagem ajuda a compreender melhor o procedimento do romance do que a tentativa de estabelecer correspondências entre realidade e invenção. O conhecimento biográfico fornece ao escritor uma intimidade com aquele universo, mas é a transformação dessa experiência em forma literária que interessa.
A compreensão tardia, aliás, não é uma novidade na literatura de Alexandre Vidal Porto. Ela já estava no centro de Sergio Y. Vai à América, romance em que um psiquiatra de 70 anos tenta reconstruir a trajetória de um antigo paciente depois de descobrir que, apesar das muitas sessões e de sua confiança profissional na capacidade de decifrar o outro, deixara escapar algo essencial sobre ele. Se naquele livro o movimento retrospectivo nasce da perplexidade diante de uma vida que Armando acreditava conhecer, em Só Depois Entenderei ele se volta para a própria experiência afetiva.
Nos dois casos, Vidal Porto parece interessado menos na revelação de uma verdade definitiva do que na distância que separa o acontecimento daquilo que conseguimos compreender sobre ele. Seus personagens precisam do tempo para reler as vidas — as dos outros ou as suas — e descobrir que toda memória é também uma interpretação, inevitavelmente incompleta, daquilo que um dia pareceu apenas presente.
Há uma questão geracional importante nesse movimento. Durante décadas, parte considerável da literatura de temática gay esteve necessariamente ocupada com a descoberta do desejo, a saída do armário, a violência, a família, a AIDS e a conquista de alguma possibilidade de existência pública. Vidal Porto pertence a uma geração que atravessou transformações profundas nesse campo e que agora começa a produzir também narrativas sobre outra experiência menos frequentemente representada: a de envelhecer como homem gay. Isso significa não apenas acompanhar as transformações do corpo, mas confrontar-se com um mundo no qual as condições que moldaram a própria juventude se tornaram rapidamente história.
É nesse ponto que o romance ultrapassa a particularidade de sua trama amorosa. O personagem não tenta apenas compreender quem foi o homem que amou, mas reconhecer quem ele próprio era quando o amava. Há uma diferença fundamental entre essas duas perguntas. Podemos reencontrar alguém décadas depois, descobrir onde vive ou observar num rosto envelhecido traços daquele que conhecemos. Muito mais difícil é reencontrar a pessoa que éramos diante dela, porque essa versão de nós mesmos só permanece acessível por meio de uma memória necessariamente imperfeita.
A contenção da escrita de Vidal Porto, que em boa parte do romance funciona como virtude, também estabelece seus limites. Em determinados momentos, a economia narrativa parece excessivamente zelosa e impede que algumas cenas adquiram a espessura dramática sugerida pelas situações. Há passagens nas quais seria possível desejar que o autor permanecesse mais tempo junto aos personagens, permitindo que contradições e desconfortos se desenvolvessem antes que a narrativa avançasse. Ainda assim, essa rarefação não parece acidental. Ela pertence a um projeto literário que prefere trabalhar com vestígios, como se a experiência só pudesse ser recuperada na forma incompleta em que sobrevive na lembrança.
Só Depois Entenderei é um romance menos interessado em recuperar um amor do que em compreender o que permaneceu dele. Alexandre Vidal Porto escreve sobre o desejo, mas sobretudo sobre seus vestígios; sobre aquilo que o tempo modifica sem conseguir apagar inteiramente. E encontra na memória não uma forma de retornar ao passado, mas talvez a única maneira possível de reconhecer, ainda que por instantes, as pessoas que fomos deixando pelo caminho.
SÓ DEPOIS ENTENDEREI | Alexandre Vidal Porto
Editora: Companhia das Letras;
Tamanho: 168 págs.;
Lançamento: Julho, 2026.
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