O espírito de Steven Spielberg paira sobre O Fim da Rua desde suas primeiras imagens. Está nas casas alinhadas de um subúrbio estadunidense, nos gramados bem cuidados, nas bicicletas, nas crianças que circulam pelas ruas como se aquele pequeno território fosse um universo inteiro. Está na família aparentemente feliz que esconde suas rachaduras. E, principalmente, na certeza de que basta atravessar uma esquina para que alguma coisa extraordinária aconteça.
Estamos em 1982. Não por acaso, o ano de E.T. – O Extraterrestre e Poltergeist: O Fenômeno, dois filmes que, de maneiras muito diferentes, ajudaram a transformar o subúrbio americano em território mítico do cinema. O diretor David Robert Mitchell sabe exatamente onde está pisando.
Diretor de Corrente do Mal (2014) e O Mistério de Silver Lake (2018), ele entra nesse universo como quem visita uma casa que conhece desde a infância. Reconhece os móveis, os corredores, a luz que atravessa as janelas. Mas percebe também coisas que talvez não enxergasse antes. É justamente nessa distância entre lembrança e presente que O Fim da Rua encontra sua melhor razão de existir.
Greg (Ewan McGregor) e Denise (Anne Hathaway) vivem com os filhos Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery) numa dessas casas confortáveis que o cinema americano dos anos 1980 transformou em representação quase automática de estabilidade. Um vizinho chega a dizer a Greg que ele tem uma família maravilhosa. Mas tem mesmo?
Greg perdeu o emprego e bebe escondido. Denise escreveu um romance no qual fantasia abandonar os filhos e o marido para começar outra vida em Nova York. Os adolescentes também carregam suas próprias inquietações.
Antes que qualquer dinossauro apareça, alguma coisa já ameaça aquela família. Então, o impossível acontece. Um misterioso fenômeno cósmico arranca a Rua Oak de seu tempo e a lança num ambiente pré-histórico. De uma hora para outra, piscinas infantis, jardins e cercas de madeira passam a dividir espaço com serpentes gigantes, estegossauros e predadores que descobrem rapidamente que os novos moradores podem servir de alimento. O subúrbio deixa de ser refúgio. e transforma-se em território de sobrevivência.
A premissa poderia resultar facilmente numa espécie de Jurassic Park retrô, carregado de referências destinadas a produzir o reconhecimento confortável de quem cresceu com o cinema dos anos 1980. Mitchell, felizmente, procura algo mais interessante. Spielberg continua por toda parte.
A premissa poderia resultar facilmente numa espécie de Jurassic Park retrô, carregado de referências destinadas a produzir o reconhecimento confortável de quem cresceu com o cinema dos anos 1980. Mitchell, felizmente, procura algo mais interessante.
Não apenas em Jurassic Park (1993), referência inevitável para qualquer blockbuster contemporâneo que coloque seres humanos diante de dinossauros. O parentesco mais profundo de O Fim da Rua talvez esteja mesmo com Poltergeist, dirigido por Tobe Hooper e produzido e corroteirizado por Spielberg. Nos dois filmes, a ameaça invade o lugar que deveria representar segurança: a casa.
Spielberg compreendeu muito cedo que havia algo de profundamente cinematográfico no subúrbio. Por trás da repetição de casas, jardins e garagens, escondiam-se famílias desfeitas, crianças solitárias, medos e desejos.
O extraordinário surgia justamente dentro desse cotidiano. Um extraterrestre podia aparecer no quintal. Uma menina podia desaparecer dentro de um armário. Um tubarão podia transformar as férias de verão em pesadelo. O maravilhoso e o ameaçador nunca estiveram muito distantes em seu cinema. Mitchell recupera esse princípio.
Também existe aqui aquilo que os americanos chamam de wonder: o assombro diante de alguma coisa que ultrapassa nossa compreensão. Spielberg fez desse sentimento uma espécie de assinatura. Muitas vezes, antes de mostrar aquilo que seus personagens observavam, mostrava os rostos de quem olhava. O espetáculo começava no espanto. O Fim da Rua conhece essa gramática.
Gosto de Spielberg

Michael Giacchino assume na trilha sonora o lugar que inevitavelmente associamos a John Williams. As crianças demonstram uma capacidade de compreender o extraordinário que escapa aos adultos. A família precisa se reorganizar diante de uma ameaça exterior. O fantástico irrompe no cotidiano e modifica tudo.
Há ainda J.J. Abrams entre os produtores, cineasta cuja devoção ao universo spielberguiano ficou evidente em Super 8 (2011). Mas Mitchell não é Abrams. E talvez esteja aí a diferença fundamental.
Se Abrams frequentemente procura recuperar a sensação produzida pelo cinema que amava na infância, Mitchell parece mais interessado em examinar o que acontece quando voltamos a essas imagens décadas depois. Seu Spielberg é menos uma referência do que um fantasma. Está em toda parte, mas pertence a outro tempo.
Por isso, apesar da nostalgia evidente, há alguma coisa desconfortável em O Fim da Rua. O diretor não parece disposto a acreditar inteiramente na ideia de que bastaria reunir aquela família para que a ordem pudesse ser restabelecida. Porque a ordem já estava rompida antes. Os dinossauros apenas tornam as rachaduras impossíveis de esconder.
Greg e Denise não começam a se afastar quando seu bairro desaparece de 1982. Audrey e Brian tampouco deixam para trás uma infância necessariamente perfeita. A catástrofe exterior apenas dá forma concreta a algo que existia silenciosamente dentro daquela casa. É nesse ponto que Mitchell começa a afastar seu filme da homenagem.
Em Corrente do Mal, uma ameaça inexplicável perseguia os personagens sem descanso. Em O Mistério de Silver Lake, Los Angeles se transformava num labirinto paranoico de códigos e significados. Mitchell está particularmente interessado em mundos nos quais alguma coisa saiu do eixo e ninguém dispõe de todas as informações necessárias para recolocá-la no lugar.
Em O Fim da Rua, nem o tempo permanece confiável. Curiosamente, os personagens evitam pensar demais sobre isso. Há perguntas óbvias. Onde estão? Como chegaram ali? Por que justamente eles? Deus, destino, universos paralelos? Não há tempo. É preciso fechar portas, encontrar comida, improvisar armas e tentar não ser devorado.
Mitchell entende que explicar demais destruiria parte do fascínio. Interessa menos compreender o mecanismo que levou aquela rua à pré-história do que observar o que acontece quando seus moradores perdem todas as referências que organizavam suas vidas.

É também quando O Fim da Rua começa a brincar com as convenções do cinema que evoca. Audrey ocupa um lugar importante nessa operação. Fascinada por ciência e por Carl Sagan, ela poderia facilmente ser a garota secundária de uma aventura adolescente dos anos 1980, enquanto ao irmão caberia salvar o dia.
Não é o que acontece. Brian insiste em seu arco e flecha, quase sempre sem grande sucesso. Audrey observa, compreende e age. Quando necessário, de maneira bastante direta.
O filme desloca também discretamente as expectativas em torno de Jeannette (Jordan Alexa Davis), a garota recém-chegada pela qual Brian se interessa. A atração, porém, não segue exatamente a direção que ele imagina. Jeannette parece muito mais interessada em Audrey. Mitchell não transforma isso em discurso.
Simplesmente permite que os personagens de 1982 tenham possibilidades que o cinema daquele período quase nunca lhes concedia. É um pequeno deslocamento, mas revelador da maneira como O Fim da Rua se relaciona com o passado. O filme não deseja corrigi-lo. Deseja revê-lo.
O mesmo acontece com a ideia de família. Denise revela inesperada habilidade com armas e protagoniza algumas das sequências de ação. Mas seu gesto mais significativo não está em matar uma criatura para proteger os filhos. Está em compreender que Jeannette, depois de ficar sozinha, também precisa ser acolhida.
A família que o filme parece inicialmente disposto a preservar deixa de coincidir apenas com aquela apresentada nas primeiras cenas. Ela pode ser reconstruída. Talvez até reinventada.
É nesse momento que o espírito de Spielberg reaparece de maneira mais interessante. Porque, por baixo dos extraterrestres, tubarões, fantasmas e dinossauros, boa parte do cinema de Spielberg sempre tratou de famílias imperfeitas tentando encontrar alguma forma de permanecer juntas. Pais ausentes, casamentos desfeitos, crianças solitárias e adultos incapazes de compreender seus filhos atravessam sua filmografia.
Mitchell herda essa preocupação, mas chega a ela quatro décadas depois. E quatro décadas fazem diferença. As crianças que viram E.T. nos cinemas em 1982 são hoje adultas. Algumas talvez tenham filhos da idade de Elliott. Outras descobriram que as famílias perfeitas que imaginavam enxergar nas casas vizinhas também escondiam seus silêncios.
A nostalgia, então, torna-se mais complicada. É possível sentir saudade de um mundo que talvez nunca tenha existido? O Fim da Rua funciona melhor quando parece formular essa pergunta.
Há dinossauros, naturalmente. E Mitchell sabe filmá-los como ameaça. As sequências de sobrevivência têm tensão e uma disposição pouco sentimental para eliminar personagens que outro blockbuster provavelmente preservaria. Crianças, adultos, personagens cômicos: ninguém parece completamente protegido. Com uma exceção.
Starbuck, o cachorro da família, permanece amparado por uma das mais resistentes leis não escritas do cinema: pode-se devorar gente, mas é melhor deixar o cachorro em paz. Ele ainda ganha seu momento de heroísmo. Esse humor impede que O Fim da Rua se leve excessivamente a sério. Mas não elimina a melancolia que existe sob sua aventura.
Mitchell reconstrói um universo que reconhecemos para mostrar que já não podemos habitá-lo da mesma maneira. As bicicletas continuam lá. As casas também. A música ainda anuncia que algo extraordinário está prestes a acontecer. Mas alguma coisa mudou. Talvez sejamos nós.
Spielberg ensinou uma geração a olhar para o fim da rua e imaginar que o impossível poderia estar esperando logo adiante. Quarenta anos depois, David Robert Mitchell olha para a mesma rua com uma mistura de afeto e desconfiança. O espírito de Spielberg continua ali. Só que agora ele assombra uma casa que já não é exatamente a mesma. E, desta vez, há dinossauros no quintal.
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