Há uma contradição interessante atravessando os quatro episódios de Meu Nome É Preta, série documental dirigida por Mini Kerti disponível no Globoplay. Embora tenha sido concebida para celebrar a trajetória de uma cantora, talvez seja justamente quando deixa a música em segundo plano que a produção encontra sua personagem mais interessante.
Preta Gil, morta em julho de 2025, aos 50 anos, não construiu uma obra musical comparável à do pai, Gilberto Gil, nem parece ter perseguido esse lugar. Seu legado está em outra parte. Está na maneira como transformou o corpo, os afetos, a sexualidade, a amizade, o Carnaval e até a experiência da doença em territórios públicos. Antes que palavras como representatividade, diversidade e positividade corporal se tornassem moeda corrente nas redes sociais, Preta já colocava essas questões em circulação — muitas vezes simplesmente por existir diante das câmeras sem pedir licença. É essa mulher que Meu Nome É Preta procura reconstruir.
A série parte da infância, entre Bahia e Rio de Janeiro, para situar Preta dentro de uma família que, por si só, poderia render inúmeras narrativas. Ser filha de Gilberto Gil significava nascer cercada pela música e por alguns dos personagens fundamentais da cultura brasileira das últimas décadas. Mas significava também carregar um sobrenome capaz de abrir portas e, ao mesmo tempo, projetar uma sombra difícil de atravessar.
Mini Kerti não ignora essa condição. Ao contrário, faz dela um dos fios da narrativa. Filmes familiares, fotografias, entrevistas antigas e imagens de arquivo são costurados aos depoimentos de parentes e amigos. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Sandra Gadelha, Bela Gil, Francisco Gil, Ivete Sangalo, Carolina Dieckmann, Regina Casé, Gominho e tantos outros ajudam a montar uma personagem que parece existir sempre em relação aos outros. Não é um detalhe. Talvez a palavra mais importante de Meu Nome é Preta seja justamente afeto.
Preta construiu ao redor de si uma espécie de família ampliada. Amigos entram e saem das imagens como parentes; parentes falam como amigos. Seu filho, Francisco, ocupa naturalmente um espaço central nesse desenho. E aos poucos entendemos que aquela mulher expansiva, frequentemente fotografada abraçando alguém, cercada de gente, fazendo festa, não estava apenas cultivando uma imagem pública. Era uma maneira de estar no mundo.
Há momentos particularmente fortes no primeiro episódio, “Filha da Tropicália”, quando a narrativa retorna à morte de Pedro Gil, irmão de Preta, em um acidente automobilístico em 1990. A perda atravessa a família e ajuda a compreender uma dimensão menos evidente daquela personalidade associada quase sempre à alegria. A exuberância também pode ser uma resposta à consciência de que tudo termina.
A série, no entanto, tem também as limitações características de documentários realizados a partir de tamanha proximidade afetiva. ‘Meu Nome É Preta’ foi feito por pessoas que conheceram, conviveram e amaram sua personagem.
Nos episódios seguintes — “Vá Procurar Sua Turma”, “Sou como Sou” e “Minha Carne É de Carnaval” — a série acompanha a maternidade precoce, os trabalhos nos bastidores do audiovisual, a decisão relativamente tardia de assumir-se cantora, a exposição do próprio corpo, os ataques que sofreu, os amores, o Bloco da Preta e, finalmente, a doença.
É um percurso conhecido, sobretudo para quem acompanhou Preta Gil pela imprensa e pelas redes sociais. A qualidade da série está menos na revelação de fatos desconhecidos do que na reorganização dessas imagens depois de sua morte. O tempo altera aquilo que vemos.
A famosa capa de Prêt-à Porter, seu primeiro álbum, lançado em 2003, por exemplo, ganha outra dimensão duas décadas depois. Preta aparece nua. Para os padrões atuais talvez seja difícil dimensionar a violência das reações provocadas pela fotografia de uma mulher gorda recusando-se a esconder o próprio corpo. A imagem era simples. O gesto, não.
Preta compreendeu muito cedo algo que depois se tornaria central na cultura das redes: um corpo também pode ser discurso. E pagou um preço alto por isso.
É nesse ponto que Meu Nome é Preta ultrapassa os limites convencionais da biografia de celebridade. Racismo, gordofobia, homofobia, misoginia e padrões de beleza aparecem não como capítulos didáticos enxertados na narrativa, mas porque atravessaram concretamente a vida de sua protagonista.
Preta não precisou transformar a própria existência em manifesto. Em grande medida, os outros fizeram isso por ela.
Uma mulher negra, gorda, sexualmente livre, filha de um dos maiores artistas brasileiros, disposta a falar sobre seus desejos e suas fragilidades ocupava um espaço para o qual parte do Brasil ainda não estava preparada. Talvez continue não estando.
A série, no entanto, tem também as limitações características de documentários realizados a partir de tamanha proximidade afetiva. Meu Nome É Preta foi feito por pessoas que conheceram, conviveram e amaram sua personagem. A produção associada é de Flora Gil. Mini Kerti conhecia Preta havia décadas. Muitos dos entrevistados pertencem ao círculo íntimo da cantora. Isso produz intimidade, mas também proteção.

Quase não existe contraponto. As contradições aparecem suavizadas, os conflitos raramente permanece tempo suficiente para provocar desconforto e a admiração dos depoentes estabelece desde cedo os limites dentro dos quais a personagem será observada. Estamos diante de um retrato, não de uma investigação. Isso não invalida a série. Apenas define sua natureza.
Meu Nome É Preta pertence a uma tradição cada vez mais comum no documentário biográfico contemporâneo: obras construídas com participação ou autorização de familiares, herdeiros e pessoas próximas, nas quais memória e homenagem frequentemente se confundem. O risco é transformar personagens complexos em santos laicos, eliminando justamente as zonas de sombra que poderiam torná-los ainda mais humanos.
Preta resiste parcialmente a esse processo porque sua personalidade parece grande demais para caber na moldura. E porque existem as imagens.
É nelas que a série encontra seus melhores momentos. Preta jovem, Preta mãe, Preta rindo, cantando, discutindo, beijando, desfilando. A montagem permite que a própria artista reapareça continuamente, por meio de entrevistas concedidas ao longo de décadas. A morta conversa com os vivos.
Há algo profundamente cinematográfico nessa operação: o documentário transforma arquivo em presença. O último episódio, Minha carne é de carnaval, aproxima definitivamente festa e finitude. O Carnaval, território por excelência da transformação dos corpos e da suspensão das normas, parece o espaço inevitável para uma personagem como Preta. O Bloco da Preta talvez tenha sido sua obra mais completa porque reunia música, corpo, rua, sexualidade, diversidade e comunidade. Até que chega o câncer.
Seria fácil transformar esse trecho numa longa preparação para a morte. A série evita, em boa parte, essa armadilha. A doença importa porque Preta decidiu torná-la pública da mesma maneira como havia tornado públicas tantas outras experiências de sua vida. Falou de tratamentos, cirurgias, fragilidade e medo. Mais uma vez, recusou o silêncio.
Nesse sentido, Meu Nome é Preta funciona de maneira particularmente interessante quando assistido ao lado de Preta – Eu Não Ando Só, documentário de Sandra Kogut concentrado no período da doença. Se aquele filme observa a proximidade da morte, a série de Mini Kerti procura responder a outra pergunta: o que havia naquela vida que tornou sua ausência tão sentida? A resposta está menos nos discos do que nas pessoas.
Preta Gil talvez não tenha deixado um cancioneiro capaz de explicar sua importância na cultura brasileira. É possível que sua maior obra tenha sido outra: a construção pública de uma identidade que se recusava a caber nas expectativas depositadas sobre seu corpo, sua família, sua sexualidade ou seu sobrenome. Por isso, há algo de profundamente coerente no título escolhido para a série.
Meu Nome É Preta. Não filha de Gilberto Gil. Não cantora. Não empresária. Não símbolo de uma causa. Preta. Depois de quatro episódios tentando defini-la por meio das lembranças dos outros, talvez seja justamente a afirmação mais simples aquela que permanece. Ela decidiu ser quem era e fez disso uma forma de liberdade.
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