Em Margô Está em Apuros, estamos diante de um tema relativamente recorrente na ficção hoje: a maternidade. Logo no primeiro episódio, somos apresentados a Margo (a cativante Elle Fanning, de Valor Sentimental), uma jovem promissora que cursa, a duras penas, uma gradução na qual se especializa em literatura. Seu potencial e sua beleza logo encantam um professor (Michael Angarano, de This Is Us). Conforme previsto, eles começam a ter um caso – embora, claro, este professor seja casado e tenha filhos.
A empolgação foge do controle e Margo (chamada poeticamente por seu amante de “hungry ghost”) engravida. Ela opta por não abortar a criança, a despeito (óbvio!) do que sugere o professor esquerdomacho. Filha de pais separados – um atleta aposentado de luta livre (Nick Offerman, de Parks and Recreation, sempre ótimo) e uma garçonete vaidosa (Michelle Pfeiffer, que segue deslumbrante) –, Margo vai ter que decidir como agir para assumir todos os perrengues que envolvem a responsabilidade de criar um filho sozinha.
Não há muito tempo para pensar, já que o primeiro episódio se encerra no parto do bebê, Bodhi. Fica claro então que esta trama deve se concentrar nos dramas em torno desta decisão, mas sim nos impactos práticos que acompanham para sempre quem vive uma maternidade solo. Conforme descobriremos, Margo vai se confrontar com dilemas amargos e alguns engraçados, e com muito, muito julgamento alheio. O que vai sobrar para ela (e isso não é exatamente um spoiler) é adentrar no trabalho sexual como forma de sustentar a família.
Produzida por David E. Kelley (o showrunner à frente de sucessos como Ally McBeal e Big Little Lies, e marido de Michelle Pfeiffer na vida real) e baseada em um romance best-seller de Rufi Thorpe, Margô Está Em Apuros é uma comédia leve, por outro lado, mas que não se esquiva de tocar na dureza de um tema muito delicado. Em boa parte do tempo, Margo é lida apenas como uma irresponsável ou oportunista.
A exceção está na sua família: a mãe é uma mulher fútil e um pouco over que, depois de ela mesma engravidar muito jovem e penar com homens pouco confiáveis, sonha agora em se casar com um sujeito carola (Greg Kinnear), que promete uma esperada estabilidade em seu futuro. Já o pai de Margo, Jinx, é uma lenda da luta livre que enfrenta um sério problema de vício em remédios. Ainda assim, ele é excepcionalmente jeitoso nos cuidados com o neto.
A temática do trabalho sexual parece ser o eixo da trama. Mas isto fica apenas na superfície. No fundo, Margô Está Em Apuros fala melhor das frustrações presentes em todos os sujeitos dessa família.
Embora sejam ambos adoráveis, os pais também vão apontar o dedo quando Margo descobre um trabalho que pode realizar de casa e ainda lucrar um bom dinheiro: abrir uma conta no OnlyFans e começar a produzir fotos e vídeos eróticos. Para suceder em um mar de gente na plataforma tentando ganhar um dindim, ela faz uso de seu talento como escritora e, com a ajuda da amiga cosplayer (Thaddea Graham), elabora uma personagem alienígena para focar em públicos, digamos, mais específicos.
A temática do trabalho sexual, portanto, parece ser o eixo da trama (um breve comentário: a plataforma OnlyFans tem aparecido obscuramente como assunto na ficção – também está na terceira temporada de Euphoria – o que sugere, talvez, que haja algum lobby ou patrocínio para que seu nome seja normalizado dentro da cultura da mídia).
Mas isto fica apenas na superfície. No fundo, Margô Está Em Apuros fala melhor das frustrações presentes em todos os sujeitos dessa família estendida e nada convencional, mas sobretudo nas mulheres que abrem mão de muitas coisas (incluindo seus sonhos profissionais) para prover cuidados, amor e dinheiro a filhos que não foram feitos sozinhos.
Nesse sentido, o elenco feminino (com destaque à personagem de Michelle Pfeiffer, mas também às pontas feitas por Nicole Kidman e Marcia Gay Harden) dá um show à parte. Embora certamente não traga a discussão mais profunda sobre maternidade solo, a série da Apple TV+ se apresenta como um ótimo tópico para um debate em família e, claro, como bom entretenimento.
ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA
Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.






