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‘Uma Infância Alemã’ investiga como o fascismo se instala no cotidiano

Em 'Uma Infância Alemã', Fatih Akin transforma as lembranças de infância do cineasta Hark Bohm em um drama delicado sobre memória, culpa e a lenta descoberta de que a História também é feita de silêncios.

porPaulo Camargo
24 de julho de 2026
em Cinema
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'Uma Infância Alemã', filme de Fatih Akin. Imagem: Rialto Film / Divulgação.

'Uma Infância Alemã', filme de Fatih Akin. Imagem: Rialto Film / Divulgação.

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Costumamos imaginar que os regimes autoritários terminam quando seus líderes caem. É uma ilusão reconfortante. Ditaduras acabam, guerras terminam, bandeiras são substituídas. O que permanece é muito mais difícil de erradicar: a maneira como as pessoas aprenderam a olhar o mundo. Ideologias não desaparecem de um dia para o outro. Elas sobrevivem nas palavras, nos gestos, nos afetos e, sobretudo, naquilo que uma geração transmite à seguinte sem sequer perceber.

É dessa permanência que trata Uma Infância Alemã (Amrum), novo filme de Fatih Akin (de O Bar Luva Dourada). Ambientado nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, quando o Terceiro Reich já dava seus últimos suspiros, o longa acompanha Nanning (Jasper Billerbeck), um garoto de doze anos enviado para viver com a mãe na ilha de Amrum enquanto o pai continua servindo à SS. À sua volta, a guerra parece distante. O cotidiano segue marcado pelo trabalho, pela escassez e pela paisagem de uma ilha cuja beleza contrasta com o mundo que desmorona.

A escolha desse ponto de vista muda completamente a natureza da narrativa. Akin não filma a guerra. Filma aquilo que ela deixa para trás. Seu interesse não está nas batalhas, mas na forma como uma criança aprende a repetir discursos que ainda não compreende. Nanning não é apresentado como vítima nem como culpado. É apenas um menino tentando organizar o mundo a partir das referências que recebeu dos adultos. E talvez resida aí o aspecto mais perturbador do filme: perceber que o autoritarismo também se aprende em casa.

Baseado nas memórias do diretor e roteirista Hark Bohm, Uma Infância Alemã evita qualquer tentação de transformar esse despertar em uma narrativa edificante. Não há um momento de iluminação nem uma ruptura definitiva. A consciência se forma lentamente, quase por acidente, quando a realidade começa a contrariar aquilo que parecia incontestável. O filme compreende que crescer talvez seja justamente isso: descobrir que herdamos certezas que nunca escolhemos.

Quem conhece a filmografia de Fatih Akin talvez estranhe a delicadeza da encenação. Diretor frequentemente associado a personagens explosivos e conflitos intensos, ele opta aqui por um cinema da observação. Há poucos excessos. A fotografia explora a luminosidade da ilha sem idealizá-la, enquanto o ritmo desacelerado permite que pequenos gestos adquiram enorme peso dramático. A natureza permanece indiferente à História, como se lembrasse que o horror humano nunca altera o movimento das marés.

Quem conhece a filmografia de Fatih Akin talvez estranhe a delicadeza da encenação. Diretor frequentemente associado a personagens explosivos e conflitos intensos, ele opta aqui por um cinema da observação.

Jasper Billerbeck sustenta essa proposta com uma interpretação admirável justamente pela contenção. Seu rosto permanece quase sempre em silêncio, registrando um mundo que ele ainda tenta compreender. Laura Tonke também impressiona ao construir uma mãe incapaz de imaginar a própria identidade dissociada do regime que está desaparecendo. Não se trata de uma caricatura do fanatismo, mas de alguém que perdeu o chão porque toda a sua visão de mundo entrou em colapso.

Nos últimos anos, o cinema voltou inúmeras vezes ao nazismo, muitas delas procurando explicar como o horror foi possível. Uma Infância Alemã segue por outra direção. Parece menos interessado em responder essa pergunta do que em formular outra, talvez mais inquietante: como uma criança distingue aquilo que é moralmente aceitável quando todos os adultos à sua volta dizem exatamente o contrário?

Ao deslocar o olhar da guerra para a educação sentimental de um menino, Fatih Akin realiza um filme de rara sensibilidade. Não porque ofereça respostas, mas porque compreende que a memória só faz sentido quando deixa de funcionar como monumento e passa a ser um exercício permanente de vigilância. O passado nunca desaparece completamente. Em alguma medida, ele continua habitando a forma como aprendemos a enxergar o presente.

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Tags: CinemaCrítica de CinemaFatih AkinHark BohmSegunda Guerra MundialUma Infância Alemã

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