Há companhias que se definem por uma estética ou por um repertório de temas. A Companhia Brasileira de Teatro, ao longo de 25 anos, parece ter escolhido outro caminho: o da persistência das perguntas. Sob a direção de Marcio Abreu, seu trabalho retorna continuamente ao ponto em que a experiência íntima encontra as forças históricas, políticas e sociais que moldam nossa percepção do mundo. Em História, em cartaz no Guairinha até domingo, essa investigação alcança uma de suas formulações mais contundentes.
O título sugere abrangência, mas o espetáculo segue na direção oposta. Em vez da História monumental e de suas versões consolidadas, interessa-se pelo que escapa às narrativas oficiais: silêncios, lacunas e lembranças que sobrevivem à margem dos registros. O que permanece quando os fatos se transformam em discurso? Quem decide o que merece ser lembrado?
Em cena, Carolina Virgüez, Rafael Bacelar e Felipe Storino sustentam uma encenação que rejeita a ideia convencional de personagem. Os três atuam num território híbrido, em que depoimentos, documentos, reflexões e fragmentos de memória se cruzam continuamente. Virgüez imprime ao espetáculo uma presença ao mesmo tempo delicada e incisiva, capaz de transformar relatos pessoais em matéria de reflexão coletiva. Bacelar opera com precisão semelhante, transitando entre a exposição íntima e o comentário crítico sem perder a naturalidade. Já Storino, além da presença cênica, contribui decisivamente para a construção sonora da montagem, criando atmosferas que ampliam a dimensão sensorial do trabalho.
A dramaturgia nasce justamente desse encontro entre vozes, corpos e vestígios. Não há progressão dramática tradicional nem uma narrativa organizada por causalidades. O espetáculo avança por aproximações, ecos e associações. Cada lembrança convoca outra. Cada tentativa de reconstrução revela uma ausência.
A dramaturgia nasce justamente desse encontro entre vozes, corpos e vestígios. Não há progressão dramática tradicional nem uma narrativa organizada por causalidades.
Embora esse procedimento dialogue com pesquisas anteriores de Marcio Abreu, aqui ele surge com especial clareza. A cena deixa de ser espaço de representação para tornar-se espaço de elaboração. História não toma a memória como tema: incorpora sua lógica, feita de associações, interrupções e retornos. Os acontecimentos persistem não pela ordem em que ocorreram, mas pela forma como permanecem inscritos nos corpos, nos afetos e na linguagem.
Essa perspectiva aproxima a obra de debates centrais do presente. Em um tempo marcado por disputas em torno da memória, arquivos são revistos, versões perdem estabilidade e vozes antes apagadas reivindicam lugar. Sem recorrer ao comentário imediato, História investiga os mecanismos pelos quais as narrativas são construídas e legitimadas.
Há nisso uma dimensão ética fundamental. O espetáculo reconhece que toda narrativa implica escolhas, esquecimentos e exclusões. Ao evidenciar esse processo, convida o espectador a refletir não apenas sobre o passado, mas sobre as formas pelas quais o produzimos continuamente.
Por isso, História mobiliza pensamento e sensibilidade sem recorrer às convenções narrativas mais previsíveis. Sua força está na criação de um estado de escuta atento, em que o público é chamado a preencher vazios, estabelecer relações e conviver com a instabilidade dos sentidos.
Ao final, permanece a percepção de que o espetáculo não busca afirmar uma verdade sobre o passado, mas expor a fragilidade das verdades que construímos sobre ele. Em tempos de simplificação dos discursos, História reafirma a memória como campo de disputa e revela a força do trabalho da Companhia Brasileira de Teatro: transformar o palco em um espaço crítico de investigação sobre como lembramos, esquecemos e produzimos História.
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