Dia desses, pedimos em casa uma pizza por um daqueles populares aplicativos de entrega de comida. Tudo rolando normal, até que um problema se apresentou: o pedido veio errado. Comuniquei isso ao entregador, que me disse que não conseguia falar diretamente com a empresa nem com o aplicativo.
Eu, na outra ponta, entrei em contato com a pizzaria por meio do WhatsApp que encontrei depois de muita busca. Mas o retorno veio de um chatbot: a empresa não poderia me auxiliar diretamente, e eu deveria tentar falar com o próprio aplicativo da entrega. E lá, claro, não havia possibilidade de conversar com um humano, apenas com máquinas. Até que o problema fosse finalmente resolvido foram muitos cliques e muito mais incomodação do que se o pedido tivesse sido feito por telefone, tal como faziam os sumérios.
Essa experiência me veio à mente ao refletir sobre outra: a forma pela qual acessamos a última Copa do Mundo, promovida pelos Estados Unidos, México e Canadá. Para nós, brasileiras e brasileiros, o torneio trouxe uma ruptura importante sobre a maneira pela qual consumimos eventos midiáticos tão simbólicos e agregadores do país como uma Copa. Esta foi a primeira vez em que boa parte dos jogos foi transmitida não por uma grande emissora de TV (sobretudo a Globo), mas por um canal de YouTube.
O que vimos com a CazéTV foi o exato oposto desse ideal: ali, as fontes de poder também conseguiram ocupar uma mídia supostamente independente, e que não resistiu ao encanto da serpente.
A CazéTV, como sabemos, adquiriu os direitos para exibir 100% das partidas gratuitamente no YouTube. Deste modo, houve uma quebra histórica de um quase monópolio antes reservado às emissoras, que aqui representam as mídias tradicionais, e que costumeiramente veiculavam os jogos da Copa para a população. Em 2026, todos os 104 jogos do torneio foram transmitidos pela CazéTV (a título de comparação, a Globo transmitiu apenas 55 deles, e o SBT, 32).
Muito tem sido discutido sobre o impacto dessa mudança, que vai bem além de uma transposição entre telas – e que, como tudo que tange à história da comunicação, é um fenômeno que pode ser transitório, fluido, e não algo definitivo. Não há garantia alguma de que houve, de fato, uma quebra de paradigma, e que isso se seguirá nas Copas seguintes; e muito menos de que as chamadas “novas mídias digitais” (com muitas aspas) teriam apontado a um novo mundo com possibilidades promissoras para a comunicação de massa.
Ainda assim, é importante lembrar que canais independentes (como era a CazéTV até pouco tempo) costumam surgir com a promessa de garantir que a comunicação não esteja mais nas mãos dos Golias, mas sim dos Davis: veículos pequenos, astutos, com poucas chances de acertar o alvo. Mas que, quando conseguem, teriam muito mais a contribuir para o seu público, pois ofereceriam uma informação de melhor qualidade.
Novos canais, velhos vícios
O que a transmissão da Copa do Mundo nos evidenciou é que a CazéTV não tem nada de Davi. Muito pelo contrário: há uma empresa gigante por trás deste canal, outrora pequeno, mas que foi vendido para uma grande empresa de mídia, a LiveMode. Ocorre que, espertamente, a operação manteve viva na marca aquela persona carioca, carismática e algo teen construída pelo jornalista Casimiro Miguel, bem como por sua trupe.
O “amigão da galera”, como bem vimos durante a Copa, atravessou o torneio abraçado à publicidade de bets que custeou toda aquela mega operação midiática. Depois de ser interrogado sobre o assunto, Casimiro deu sua resposta em uma live de forma fatalista, quando não cínica. Ele defendeu seu modelo de negócios dizendo: “tem bet para tudo o que é lado. É fato, mas não tem o que fazer. É o que mais paga”.
Não gastarei linhas aqui lembrando os prejuízos causados pelas bets, pois seria chover no molhado. O que chamo a atenção aqui é a sensação de que a comercialização da CazéTV trouxe, mais uma vez, a sensação do fim de um sonho. Por mais de uma década, tem-se discutido a derrocada da hegemonia dos grandes veículos, centralizadores da audiência e das verbas portentosas, abrindo caminho para o que se convencionou chamar de jornalismo pós-industrial.
Esse termo se refere a um novo cenário em que as empresas de mídia não funcionariam mais por meio de modelos parecidos com indústrias tradicionais (com setores bem definidos, segmentação do trabalho, poucos chefes coordenando um grupo extenso de funcionários alienados do todo). Nesse ambiente, um jornal não operaria de maneira muito diferente a uma fábrica de sapatos, por exemplo.
Já no modelo pós-industrial, as empresas emergentes (que agora teriam se tornado independentes das amarras do passado, o que inclui aqui as fontes financeiras), por dependerem de muito menos para existir, podem propor novas leituras de mundo, mais plurais e menos controladas pelos donos do poder.
O que vimos com a CazéTV foi o exato oposto desse ideal: ali, as fontes de poder também conseguiram ocupar uma mídia supostamente independente, e que não resistiu ao encanto da serpente. Os números grandiosos de audiência e de inscritos no canal durante a Copa refletiram, por óbvio, o poderio de quem teve grana suficiente de comprar os direitos de transmissão dos jogos, mas nada mais do que isso.
Para piorar tudo, os jogos assistidos por milhões de brasileiros estiveram o tempo todo contaminados pela publicidade daquele que talvez seja o mais perigoso produto comercializado hoje no país: os jogos online. Seria, hoje, o equivalente a veicular publicidade de cigarro na televisão, o que sabemos, foi proibido em 2000, com consequências positivas que já foram verificadas.
Estamos diante não de Robin Hood, como acreditávamos, mas sim de alguém que se rendeu à sedução do dinheiro, mesmo que isso signifique prejudicar o seu público. Isso, claro, vem embalado pelo carisma do carioquês de um jovem (Casimiro tem apenas 32 anos) que argumenta que não havia como ser de outro jeito. Spoiler: tinha sim. Só que provavelmente ele embolsaria menos dinheiro, e teria crescido de forma mais conservadora.
Saudades da televisão

Um questionamento possível aqui poderia ser: há alguma diferença entre assistir a uma Copa por meio de canais como a CazéTV, ou pela mediação de emissoras tradicionais, como Globo ou SBT? Se formos olhar apenas no aspecto técnica, não muita, uma vez que há uma retransmissão aqui. Afora o delay entre TV e internet, vale lembrar, boa parte das vezes, o canal de YouTube foi projetado em SmartTVs espalhadas pelo Brasil.
Mas tem alguns aspectos menos visíveis, e que dizem respeito ao modus operandi da coisa e ao próprio sistema historicamente estabelecido por esses dois tipos de mídia. Canais com a CazéTV são empresas de mídia e marketing esportivo, mas não têm exatamente tradição no jornalismo.
Emissoras tradicionais de TV, como Globo, SBT, Record e tantas outras, têm tradição e reputação neste mercado e, por isso, sofrem cobranças por erros e abusos. Ou seja: qualquer informação errada que fosse proferida por Galvão Bueno no SBT ou por Everaldo Marques na Globo faria com que houvesse cobranças públicas e internas sobre elas, que teriam, de alguma maneira, de prestar contas à audiência.
Já a CazéTV não tinha exatamente essa obrigação. Os seus compromissos, digamos, eram mais flexíveis – vide a quantidade de vezes que os enunciadores do canal sugestionaram as pessoas a apostar em odds que não se cumpriram. E uma vez que não há ainda efetivamente uma regulação das mídias digitais no Brasil, nem há muito o que ser feito em termos legais.
Tal como no episódio que abre esse texto, esses novos espaços digitais tendem a se apresentar ao público como aquilo que há de mais moderno e disruptivo na comunicação. Mas, em muitos casos, o que queríamos (e precisávamos) era apenas um telefone para pedir uma pizza e poder reclamar quando houvesse algum problema. E que, claro, a pizzaria não nos tentasse empurrar veneno goela abaixo.
Em certa medida, o que essa Copa do Mundo representou foi uma saudade do velho jeito de ver futebol – que, como bem descobrimos, nem era tão ultrapassado assim.
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