O enredo de Eles Vão Te Matar pode ser resumido em poucas linhas: uma moça falha ao tentar salvar sua irmã criança do pai abusivo. Ela atira no pai, foge covardemente, mas acaba presa. Dez anos depois, ao ser solta, a agora mulher adulta sai em busca da irmã, que está trabalhando em um hotel sinistro. Mal imagina que esse local, localizado em Nova York, é habitado por demônios que fazem sacrifícios humanos.
A simplicidade da história do longa do diretor russo Kirill Sokolov já explicita: esta é uma obra sem grandes pretensões. Muito pelo contrário: a chave do longa protagonizado por Zazie Beetz (de Atlanta) é justamente agradar as mentes e os corações dos experts do gênero que vão querer fruir deste filme pastiche, que entrega pouca novidade, mas se fundamenta em um entretenimento leve.
Eles Vão Te Matar pisa logo no início no terror que se funde com o humor. Zazie vive Asia Reaves, a mulher que foi forjada para a luta em seus dez anos de cadeia. Ao ser libertada, ela pretende resgatar Maria Reaves (Myha’la), a irmã que deixou para trás. Asia descobre que a moça, agora adulta, trabalha como empregada no misterioso hotel Virgil, que é administrado pela governanta Lilith (papel da veterana Patricia Arquette).
Asia se candidata para uma nova vaga de empregada e, aparentemente, é aceita. Mas já na primeira noite dentro do hotel se vê atacada por inimigos com máscaras de porcos, que parecem saídos de uma HQ trash. Aí, desde cedo, descobrimos que, aos moldes de clássicos como A Morte do Demônio, de Sam Raimi, este não é um filme para ser levado muito a sério.
Um filme pastiche
No resto dos 95 minutos de filme, acompanhamos basicamente Asia Reaves sobreviver a todos os tipos de ataques possíveis, dos quais ela sempre escapa em pé – mesmo que um dedo seu seja quase decepado. O que interessa aqui é a exibição de cenas esteticamente elaboradas, com uma fotografia em tons quentes, fundamentada em muito, muito sangue e, óbvio, sem qualquer compromisso com o realismo.
De modo geral, Eles Vão te Matar funciona bem: pode-se dizer que o longa é uma boa diversão para quem está em busca de um filme trash que não requer muita reflexão.
De modo geral, o longa-metragem funciona bem, e pode-se dizer que a obra de Kirill Sokolov é uma boa diversão para quem está em busca de um filme trash que não requer muita reflexão. É apenas prazer puro, embalado com uma boa trilha sonora e algumas cenas hilárias. As principais estão reservadas ao papel de Heather Graham, uma demônia que vive perdendo a cabeça (preste atenção, sobretudo, naquela que é protagonizada pelo seu… olho).
O trunfo do filme, de certa forma, é também o seu problema: o fato de que se trata de um filme pastiche, que assumidamente se refere (ou, com boa vontade, faz homenagens) a outras obras cult. Os filmes de Sam Raimi são uma identificação clara, mas talvez a principal alusão se dê a Quentin Tarantino, e especialmente a Kill Bill.
Para certos espectadores, pode ser que isso se torne irritante, e o pastiche seja decifrado como uma espécie de plágio. Asia Reaves guarda muitas proximidades com Beatrix Kiddo: enquanto a primeira enfrenta inimigos mortais para salvar a irmã, a estrela do filme de Tarantino encara batalhas impossíveis para resgatar a filha.
Mas as semelhanças se repetem também nas lutas, com referências estéticas muito claras: a batalha em meio a flocos de neves de Asia Reaves, menciona o enfrentamento final com O-Ren Ishii (Lucy Liu) no primeiro filme. Noutro trecho, Asia é atacada por demônios por todos os lados, lembrando a cena em que Uma Thurman se defende dos Crazy 88 em Kill Bill 1. O mesmo ocorre com o uso de espadas, com o amor incondicional a Maria, e por aí vai.
Se Eles Vão Te Matar não prima pela originalidade, não dá para dizer que ele não empolga para quem se entregar ao um terrir dos tempos contemporâneos.
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