A música brasileira reserva um lugar especial para Baby do Brasil, a icônica cantora que estourou com os Novos Baianos e que outrora se autonomeou Baby Consuelo. O imaginário nacional a sedimentou como uma figura contestadora e iconoclasta, provocando o país com seu cabelo colorido, suas roupas espalhafatosas e seus seis filhos de nomes estranhos. Mas, nas últimas décadas, Baby se tornou controversa por conta da sua conversão ao cristianismo evangélico, direcionando sua carreira para entoar músicas de tom mais religioso e se categorizando como “popstora”.
O documentário Apopcalipse Segundo Baby, de Rafael Saar, deixa claro: a busca espiritual esteve presente em toda a vida desta artista, e não apenas após a conversão. Com narrativa em primeira pessoa, pela voz da própria Baby, e costurado com vídeos de arquivo dela e dos Novos Baianos, o documentário – que faz parte da mostra competitiva de longas da 31ª edição do É Tudo Verdade – revela que há uma lógica que permeia toda a vida da menina de Niterói que, por acaso, um dia ganhou uma passagem de ônibus para Salvador e logo na viagem já cruzou com o poeta Waly Salomão.
A partir daí, todos os caminhos pareciam conspirar para que Bernadete Dinorah de Carvalho Cidade, que achava o próprio nome sem graça, se tornasse uma cantora peculiar, cujos talentos iam bem além da performance vocal. Depois de escolher um novo nome (Baby, ela explica, remetia ao BB de Brigitte Bardot), ela vai rapidamente se aproximando de estrelas da contracultura no Brasil – como Caetano, Gil, Gal – enquanto se posiciona para uma vida mais condizente com seus valores, o que incluía ir morar embaixo da Ponte de Piatã, em Salvador, pois foi para onde Deus apontou.
A essa altura, ela já escandalizava os pais de Pepeu Gomes, o músico com que se envolveu, ambos com 17 anos. Mesmo com os protestos, ambos formariam uma das famílias mais icônicas da música brasileira, ao lado de seis filhos que tiveram e que receberam nomes inóspitos e ligados às crenças ou às percepções artísticas da dupla (Riroca, que depois mudaria seu nome para Sarah-Sheeva, ganhou esse nome porque ela tinha “cara de Riroca”).
Quem é Baby do Brasil?
Rafael Saar declarou em entrevistas que o documentário começou a ser produzido em 2008, totalizando dezoito anos de um trabalho inundado de um material que parecia não ter fim. De fato, o que Apopcalipse Segundo Baby nos apresenta são muitas cenas raras que registram não apenas a especificidade da carreira de Baby, mas momentos íntimos dos Novos Baianos, que viveram comunitariamente por muitos anos. Em um deles, os músicos tocam no pátio de casa, com roupas do grupo penduradas no varal e animais que atravessam a apresentação.
O que se entende, ao fim do longa, é que, diferente do que pode sugerir o senso comum, a conversão de Baby do Brasil em “crente” não é uma contradição na sua rota, mas justamente a continuidade esperada a ela.
Mas o foco do filme, claro, está em Baby e na exposição da narrativa que ela faz de si mesma. O que se entende, ao fim do longa, é que, diferente do que pode sugerir o senso comum, a conversão de Baby do Brasil em “crente” não é uma contradição na sua rota, mas justamente a continuidade esperada a ela.
Isso é reiterado pelas falas da cantora, mas também pela exibição de vários momentos transcorridos em sua vida. Um deles é o encantamento e o desencantamento da artista pelo brasileiro Thomaz Green Morton de Souza Coutinho, um suposto sobrenatural que ficou conhecido como o “Homem do Rá”, a quem ajudou a promover nacionalmente. Outro momento é quando ela organizou uma vigília para enviar energias a Clara Nunes, que convalescia no hospital por conta de uma cirurgia de varizes mal sucedida.
Com sua presença sempre colorida e alegre, Baby é retratada durante todo o documentário não apenas como uma das cantoras mais importantes do país, mas como a catalisadora de uma energia potente e encantadora, que transmutava a caretice de um Brasil afundado pela ditadura.
Apopcalipse Segundo Baby nos convence que nunca houve outra artista como ela. Enquanto (auto) biografia, o filme cumpre os requisitos esperados ao gênero; enquanto ferramenta capaz de provocar uma reflexão sobre esta personagem cultural, acaba parecendo demasiadamente parcial.
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