David Bowie é provavelmente a melhor definição de um artista completo. Ele legou ao mundo uma obra sólida, visionária, e conseguiu um feito para poucos: escreveu o réquiem da sua despedida, pelo qual ele seria lembrado. No dia 8 de janeiro de 2016, seu aniversário de 69 anos, Bowie lançou o disco Blackstar; dois dias depois, ele faleceu. Dirigido por Jonathan Stiasny, o documentário Bowie: O Ato Final, filme de abertura da 31ª edição do festival É Tudo Verdade, recupera, ao longo de uma hora e meia, uma versão resumida de como Bowie passou de um jovem músico hippie com algo a mais a uma lenda mundial sem equivalentes entre os seus pares. Isso envolveu uma série de decisões sobre a sua carreira – a qual, como talvez seja de desconhecimento de boa parte das pessoas, teve altos e baixos.
Depois de enfrentar momentos de muita crítica nos anos 1980 e início dos anos 1990, Bowie estava praticamente apagado na virada para os anos 2000. Justamente ele, que se posicionou em sua carreira como um homem vindo do futuro, sempre apontando para novas tendências, como um radar.
Os medos sobre o novo milênio se prenunciavam e Bowie já enxergava mais à frente. Em uma entrevista concedida em dezembro de 1999, resgatada por Stiasny, ele fala a um jornalista que a internet iria modificar a sociedade para o bem e para o mal. “Estamos diante de algo emocionante e aterrorizante”, afirmava. Ao ser questionado se a internet não era apenas uma ferramenta tecnológica, Bowie rebate: “não, ela é uma forma de vida alienígena”.
Mesmo assim, este artista estava em baixa. Após ser trucidado pela crítica ao buscar novos caminhos musicais com a banda Tin Machine, em 1989, Bowie passou a ser considerado “pouco cool”. A retomada do seu “reinado” ocorreria apenas depois que seu agente descolou, a muito custo, que ele fizesse o show principal do tradicional Festival de Glastonbury, em 2000. Foi um momento único, no qual emocionou o público e provou a todos por que é, até hoje, o maior artista musical de nosso tempo.
Os anos finais de David Bowie
É claro que seria impossível resumir a obra de um artista multifacetado e profícuo como Bowie em um longa-metragem. Por isso mesmo, Stiasny, de maneira não-linear, começa a narrar esta história em 1983, quando o cantor havia se tornado um popstar com o sucesso estrondoso de Let’s Dance. Depois de gravar um comercial com Tina Turner para a Pepsi, ele estava em crise, como contam seus colaboradores.
Esta trajetória é desenhada sobretudo pelos depoimentos dos membros de sua banda, que pintam um homem com suas fragilidades, poucas delas vistas pelos seus fãs. Um dos momentos mais surpreendentes ocorre quando descobrimos que Bowie chorou lendo uma crítica da Melody Maker em que o disco do Tin Machine era detonado (a cena chega a ser engraçada: o jornalista Jon Wilde, autor do texto, o lê perante a câmera, e fica constrangido dizendo que nunca imaginaria que um artigo mal-humorado seu provocaria aquele efeito no maior artista do mundo).
Dez anos depois, revisitar a trajetória do gênio serve para reiterar a nossa certeza de que nunca houve outro artista como ele.
Os colegas esclarecerem que Bowie não se interessava pela manutenção daquilo que construía. Ele buscava sempre o experimentalismo, mesmo sabendo que isso poderia significar a rejeição ao que estava fazendo. Foi assim que, no decorrer dos anos 1990, ele sentiu a onda das raves se aproximando e viu que a música eletrônica era a que melhor respondia ao seu tempo. Surgia então o disco Earthling e as colaborações com produtores como Moby e Goldie – ambos entrevistados em Bowie: O Ato Final.
Há outros relatos deliciosos que vão adicionando mais peças ao grande camaleão, capaz de sugar tudo que eclodia na cultura para fagocitar algo próprio (vale lembrar que uma das frases famosas de Bowie era essa: “a única arte que estudarei é aquela da qual posso roubar”). O escritor Hanif Kureishi, que foi próximo do artista por anos depois de ele se apaixonar por seu livro O Buda do Subúrbio e topar compor a trilha sonora para a adaptação televisiva, conta, sem tristeza, que Bowie ficava muito próximo de pessoas de quem gostava e depois as deixava para trás, procurando novas fontes de criatividade.
Por fim, o documentário chega ao fechar das cortinas: quando Tony Visconti, seu produtor de décadas, monta secretamente uma equipe para gravar um disco com um artista misterioso, Sr. X. Com um gorro tapando a cabeça careca pela quimioterapia, lá estava Bowie, proporcionando a todos os profissionais convidados a honra de participar de Blackstar, álbum genial e sombrio que se revelaria como um réquiem.
Na música “Lazarus”, que foi escolhida para ser transformada em clipe, um Bowie cego, ressuscitado sobre uma cama, aparece cantando “Look at me, I’m in heaven”. De modo extraordinário, criava corporeidade para si e sua obra mesmo após a sua morte. Dez anos depois, revisitar a trajetória do gênio serve para reiterar a nossa certeza de que nunca houve outro artista como ele.
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