Os mais jovens talvez pensem em Jane Fonda como a senhora vaidosa e impecável de Grace and Frankie. Na deliciosa série da Netflix, Jane é Gracie, uma perua que precisa se reinventar quando seu marido se separa para casar com o marido da riponga e idealista Frankie (papel de Lili Tomlin). Mas a dinâmica das duas esconde que, na sua vida real, Jane Fonda foi muito mais Frankie que Gracie. E é essa história poderosa, e repleta de contradições, que é contada no documentário Jane Fonda em Cinco Atos, da HBO Max.
Filha de um herói do cinema americano (o ator Henry Fonda, de clássicos como Era uma Vez no Oeste e 12 Homens e uma Sentença), o filme mostra que Jane experimentou uma infância rica, mas traumática: sua mãe se matou e ela foi enviada com o irmão (o também ator Peter Fonda) para um internato, para que o pai não interrompesse sua carreira.
Lançado em 2015, quando Jane contava 77 anos, o documentário de Susan Lacy é perpassado ao longo de mais de duas horas por uma entrevista bastante franca com a atriz que, em narrativa linear, reconta a sua trajetória errática e corajosa – mas não exatamente triunfante. E talvez isso seja o elemento mais rico do filme: Jane Fonda se orgulha da própria história à mesma medida em que guarda arrependimentos que, segundo ela, levará para o túmulo. Entre eles, está a negligência com a filha Vanessa Vadim (do casamento com o diretor francês Roger Vadim) e o episódio em que foi fotografada no Vietnã, sorrindo, junto ao material bélico usado pelos inimigos dos Estados Unidos.
São muitas vidas em uma. Por isso, Susan Lacy organiza o filme em cinco atos, como se estruturasse o roteiro de uma peça. Os quatro primeiros levam nomes de homens (o pai Henry, e os três maridos Roger Vadim, Tom Hayden e Ted Turner). Apenas a última parte, finalmente, leva o nome de Jane, o que sugere que, apenas na velhice, ela deixou definitivamente de ser guiada por homens.
Os dramas e o ativismo de Jane Fonda
Vista pelos olhares contemporâneos, Jane Fonda poderia ser entendida como uma “nepobaby”, que já nasceu em berço esplêndido e vocacionada a herdar a carreira gloriosa do pai no cinema. Belíssima, ela muito cedo teve seu talento reconhecido por diretores e preparadores de atores. Mas seus caminhos em Hollywood logo mudariam quando, em uma festa em Paris, aos 26 anos, conhece o sedutor diretor Roger Vadim, que havia antes sido casado com Brigitte Bardot e Catherine Deneuve (com a última, ele teve um filho chamado Christian Vadim).
Eles se casam dois anos depois, e Vadim a convence a estrelar um filme icônico: a ficção científica Barbarella, que se inicia com um striptease espacial de Jane (ela conta no filme que bebeu muita vodca para dar conta da cena). Juntos, concebem a filha Vanessa (em homenagem a Vanessa Redgrave) e desfrutam de uma vida hedonista na Europa. Mas algo começa a tomar conta da alma de Jane Fonda: sua atração pelas causas sociais e a sua convicção que só uma existência com propósito vale a pena. O marido, que é apolítico, ironiza a sua pretensão e eles acabam se separando.

Jane então se torna uma grande ativista contra a Guerra do Vietnã e em nome das minorias, o que incomoda, inclusive, o presidente Richard Nixon. Seu rosto famoso e belo faz com que sua voz protestando contra a guerra seja ouvida por milhares de pessoas – o que, por outro lado, a torna alvo de escárnio e sátira pelos que a julgam como uma oportunista, uma celebridade deslumbrada.
Mas é na militância que ela conhece Tom Hayden, um notório ativista que fez parte dos 7 de Chicago, que envolve o grupo de ativistas e manifestantes acusado pelo governo dos Estados Unidos de conspiração e incitação à revolta contra a Guerra do Vietnã. Ao casar-se com Hayden, mais uma nova vida de Jane Fonda se inicia: depois de crescer como filha de estrela de Hollywood e se envolver com o cinema francês, ela larga tudo para habitar em um casa simples e lutar pelos seus ideais ao lado do marido. O casal tem mais um filho, o ator Troy Garrity, que narra que a sua infância passada em locais de resistência e ativismo, com seus aniversários organizados para arrecadar fundos para causas.
Esse talvez seja o elemento mais rico do filme: Jane Fonda se orgulha da própria história à mesma medida em que guarda arrependimentos que, segundo ela, levará para o túmulo.
Mas o amor ao cinema fala mais alto, e Jane passa a produzir filmes que vocalizassem os problemas que via no mundo. Dentre essas obras, estão longas elogiados como Klute – O Passado Condena, de Alan J. Pakula, em que vive uma prostituta; Amargo Regresso, de Hal Ashby, que mostra o romance entre uma enfermeira e um veterano da Guerra do Vietnã (os dois filmes lhe renderam o Oscar de Melhor Atriz); e a comédia Como Eliminar Seu Chefe, que conta a história de três secretárias que planejam uma vingança contra o chefe machista.
Essa reaproximação com Hollywood (além da inserção bem-sucedida de Jane Fonda no ramo de videos de ginástica) acaba por levar ao fim do casamento com Hayden. Pouco tempo depois, ela conhece o empresário milionário Ted Turner, fundador da CNN, que culmina em seu terceiro casamento. Como sempre, Jane contraria as expectativas em torno dela: ele, um republicano conservador, se apaixona pela alma livre de uma atriz rebelde. Curiosamente, mesmo que tenha encerrado, o casamento é bem-sucedido. No documentário, Jane vai visitá-lo e o chama de “meu ex-marido favorito”, enquanto ele confessa à câmera que era mais feliz quando estava com ela.
Embora haja claramente uma encenação nas falas da atriz (ela, afinal, está no controle durante todo o documentário), Jane Fonda em Cinco Atos parece nos convencer quanto à sinceridade e à entrega de Jane ao mostrar-se vulnerável. Alguns dos momentos mais comoventes ocorrem quando ela conta sobre a história difícil com o pai, que sempre foi emocionalmente indisponível aos filhos. Jane busca alguma redenção para esse relacionamento quando compra os direitos da peça que dá origem ao filme Num Lago Dourado.
O filme de 1981 conta a história da reaproximação entre um pai e uma filha. No momento mais bonito do documentário, Jane lembra que incluiu um “caco” em uma cena emotiva com seu pai. De forma inesperada, ela toca em seu braço durante a cena e diz ver lágrimas em seus olhos. “Aquilo foi muito importante para mim”, conta à câmera, ela mesma com os olhos marejados, compartilhando um momento claramente íntimo com o espectador.
São esses lapsos de intimidade que tornam Jane Fonda em Cinco Atos não apenas o retrato de uma grande estrela, mas sim um filme que busca humanizar uma celebridade complexa, que foi (e vai) muito além do que era esperado a ela. Certamente, faz jus ao brilhantismo de uma das personalidades mais interessantes do cinema.
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