Há filmes que chegam ao público já um pouco combalidos, como se tivessem travado uma batalha silenciosa muito antes de acender a primeira lâmpada do set. Wicked: Parte 2 pertence a essa categoria: uma continuação que tenta, com disciplina e boa vontade, seguir o passo gigantesco dado pelo primeiro filme — sem perceber que aquele passo já era longo demais para ser repetido.
Voltamos exatamente ao ponto onde havíamos parado. Elphaba em plena ascensão, Cynthia Erivo transformando “Defying Gravity” em algo entre ritual e choque elétrico, e o público disposto a acreditar que, por alguns segundos, voar era possível. É claro que exigir que a segunda parte alcance o mesmo impacto beira a injustiça. Mas o cinema, como sabemos, não costuma ser compassivo: quem promete o céu precisa ao menos mirar alto. Wicked: Parte 2 mira — mas não chega lá.
O filme tenta reconstruir a entrada triunfal de sua bruxa renegada: céu recortado, vento dramático, vassoura apontando para o futuro. O problema é que tudo parece déjà-vu, uma reapresentação correta, mas automática, como aquele professor que repete a mesma explicação para preencher o final da aula. A imagem é bonita, porém carece de impulso, de convicção. De sentido.
O filme tenta reconstruir a entrada triunfal de sua bruxa renegada: céu recortado, vento dramático, vassoura apontando para o futuro. O problema é que tudo parece déjà-vu, uma reapresentação correta, mas automática…
Glinda, por outro lado, vive sua fase mais gloriosamente absurda. Ariana Grande surge radiante, decorada como uma estrela oficial de Oz, sem perceber que faz parte da engrenagem que sustenta o regime. Menos frenética do que antes, mas ainda operando naquele território entre o adorável e o exagerado, ela se justifica sobretudo quando canta. A última nota de “I Couldn’t Be Happier” é mais Glinda do que muitas páginas de roteiro.
A dramaturgia, contudo, emperra. Os novos números musicais passam como quem cumpre expediente: corretos, afinados, mas sem ambição. Nenhuma canção parece ter sido escrita para marcar época — estão mais para faixas bônus de uma edição deluxe. Falta aquele momento arrebatador que justificaria o “Parte 2”. Tudo soa como verdadeiro “ato dois”: não no sentido nobre do teatro, mas naquele intervalo em que o espetáculo respira… e não avança.
O comentário político, felizmente, permanece de pé. Michelle Yeoh se diverte no tom camp de Madame Morrible, manipulando as massas com o talento de quem domina o jogo desde o início. Jeff Goldblum cria um Mágico perfeito para tempos de pós-verdade: um líder carismático que prospera na mentira — e continua acreditando nela mesmo depois de exposto. “Minto só verbalmente”, ele diz. Há países por perto que entenderiam a frase sem legenda.
Quando o filme finalmente costura sua ligação com o mito de Dorothy — o Espantalho, o Homem de Lata, o Leão (coitado do Colman Domingo, quase ornamental), as sapatilhas vermelhas — a narrativa se encaixa, mas sem brilho. Tudo funciona, nada encanta. É como entrar em um baile onde todos estão impecáveis, mas falta vontade de dançar.
O desfecho segue a peça: sacrifício, afeto, reencontro. Está tudo ali. O que não reaparece é a magia que fez o público, anos atrás, acreditar que Elphaba realmente poderia desafiar a gravidade. Aqui, a fantasia pousa — e pousa devagar.
Wicked: Parte 2 está longe de ser um desastre. É apenas um filme cansado do próprio peso, um Oz que sabe ter brilhado mais, mas tenta manter a dignidade. Para muitos fãs, isso pode bastar. Talvez baste mesmo.
Para quem viu o primeiro voar, porém, esta continuação toca o chão rápido demais.
ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA
Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.






