Sharon Van Etten nunca foi uma artista de conforto. Mas em Sharon Van Etten & The Attachment Theory, seu álbum mais recente, a norte-americana parece finalmente aceitar que não há mais terreno estável sobre o qual se apoiar — e justamente por isso decide caminhar. O movimento é acompanhado por sua banda, agora creditada diretamente no título, gesto que distancia este trabalho de seus discos mais introspectivos e solo. Há aqui algo mais público, mais áspero, mais coletivo, ainda que a dor seja profundamente íntima. É uma guinada clara: um disco tenso, enevoado, que se alimenta de dúvidas sem a pretensão de resolvê-las. O álbum confirma isso.
Desde “Live Forever”, que abre a obra com a pergunta repetida como mantra — “Who wants to live forever?” —, Sharon parece encarar não apenas a mortalidade, mas o cansaço moral de um tempo saturado. A faixa funciona quase como um prelúdio ansioso; é menos sobre querer viver para sempre e mais sobre não saber o que significa sobreviver ao agora. Quando ela pergunta “What keeps you up nights?”, a resposta ecoa em todas as músicas seguintes.
Se a primeira faixa olha para o vazio, “Afterlife” tenta preenchê-lo com um desejo ainda mais frágil: acreditar que existe continuidade após a perda. “Will you see me in the afterlife?”, ela insiste, como quem tenta convencer a si mesma. Há um fio de autossalvamento — “Someone inside me saved me” —, mas a música expõe a ambivalência entre fé e desespero, luz e apagamento. É um dos momentos mais vulneráveis do disco.
A partir daí, o álbum migra para a esfera pública e tecnológica. “Idiot Box” e “I Can’t Imagine (Why You Feel This Way)” funcionam como retratos da saturação mediática, da violência cotidiana convertida em feed e ruído. Em “Idiot Box”, Sharon lamenta “all this time we can’t get back”, e o verso é quase uma acusação desesperada contra a alienação que todos carregamos na palma da mão. Já “I Can’t Imagine…” mira na frieza da informação: “We heard about it on the news today / It’s hard to listen what they have to say”. É como se o álbum inteiro tentasse romper, a golpes melódicos, o verniz anestesiante da vida digital.
Entre o caos social e a intimidade, surge “Trouble”, talvez a canção mais química do disco. Aqui, Sharon se culpa — “All the trouble I got you in” — e expõe a autossabotagem com dureza. A honestidade desconfortável da faixa se torna ainda mais intensa por causa dos arranjos, que parecem expandir seu espaço emocional. E é justamente nesse ponto que a presença da banda se torna fundamental: este é um álbum que soa menos como confissão e mais como ritual, um trabalho construído pela circulação da energia entre músicos.
Há no disco um mergulho nebuloso e inconsistente em alguns pontos, mas também há força justamente nesse descontrole.
O álbum também abre espaço para deslocamentos simbólicos, como em “Indio”, que trabalha com a ideia de espelhamento (“We’re mirrors in this room / We see you”), e para a maternidade ansiosa e politizada de “Southern Life (What It Must Be Like)”, uma das letras mais contundentes do conjunto. “My hands are shaking as a mother / Trying to raise her son right” é verso de quem sabe que amor, sozinho, não basta para proteger uma criança num mundo hostil — especialmente quando “the southern life” é “such a fucking lie”.
À medida que avançamos, o disco afunda-se numa contemplação crepuscular. “Fading Beauty” é pura efemeridade: luz que some, céu que escurece, vida que desliza. É uma pausa breve antes do clímax emocional. E ele chega, finalmente, em “I Want You Here”, que funciona como súplica, canto de devoção e pedido de socorro. “I want you here / Even when it hurts”, ela repete, num dos refrões mais belos e exaustivos de sua carreira. A música resume a lógica da obra: admitir o medo, mas permanecê-lo acompanhado.
Há no disco um mergulho nebuloso e inconsistente em alguns pontos, mas também há força justamente nesse descontrole. Sharon Van Etten & The Attachment Theory não quer ser polido. Não busca ser redondo. É um registro da tensão entre se agarrar a algo e ver esse algo escorrer pelos dedos. E, no entanto, o álbum nunca se rende ao niilismo: há sempre alguém, algum outro corpo, algum amor, que ainda pode nos ancorar — mesmo “at the edge of the earth”.
O resultado é uma obra de urgência emocional e política, que não oferece respostas fáceis. Em vez disso, Sharon Van Etten nos entrega um território onde a intimidade é frágil, mas possível; onde a ansiedade é reconhecida, não negada; onde o fim do mundo é imaginado, mas não aceito. Um disco que olha de frente para o abismo — e pede companhia para enfrentá-lo.
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