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C6 Fest – Desvendando o lineup: Lykke Li

Lykke Li transformou fragilidade, desejo e ruína afetiva em uma linguagem pop própria. Escotilha te apresenta a artista sueca que se apresenta no C6 Fest.

porAlejandro Mercado
18 de março de 2026
em Música
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Cantora sinalizou que seu próximo disco fecha um ciclo. Imagem: Divulgação.

Cantora sinalizou que seu próximo disco fecha um ciclo. Imagem: Divulgação.

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Ao longo de cerca de duas décadas de trajetória, a sueca Lykke Li, nome confirmado para a próxima edição do C6 Fest, não parecia alguém muito interessada em ocupar um assento no panteão das popstars. Quem observa sua trajetória nota que a artista montou sua carreira criando canções em que desejo, carência e ressaca emocional emergiam sem muito disfarce.

Entre o indie pop, o dream pop e a música eletrônica, a cantora olhou para além do circuito indie do fim da primeira década do século XXI para se tornar nome central no que se convencionou chamar de “pop melancólico”. Grosso modo, trata-se de uma maneira de se referir a um grupo de artistas que olham para o sofrimento não como um ornamento e mais como matéria bruta para elaborar suas canções.

Lykke Li cresceu em um lar no qual havia duas tônicas: arte e errância. Filha de mãe fotógrafa e pai músico (integrante da banda sueca Dag Vag), absorveu de sua itinerância uma espécie de desenraizamento que atravessa parte considerável de sua obra. Morar em Portugal, Marrocos, Nepal e Índia foi crucial para estabelecer sua sensibilidade estética.

Do indie ao drama às pistas de dança

Quando em 2007 a Stereogum indicou Lykke Li como uma artista que o público deveria ficar de olho, o que se vislumbrava para a cantora era um outro terreno. Seu primeiro EP, Little Bit (2007), era a cara do indie pop da virada da década. Seu disco de estreia, Youth Novels, chegou já no ano seguinte, com produção de Björn Yttling, da banda sueca Peter Bjorn and Jhon. Melodias oblíquas e uma certa ingenuidade formal formavam a linha de frente de um registro carregado de canções que demonstravam vulnerabilidade, fugindo do “pop açucarado”.

Algo que Lykke Li não pode ser acusada é de ter se acomodado com o sucesso que atingiu ao extrapolar o círculo do pop alternativo.

Mas a virada de chave veio em 2011, quando lançou Wounded Rhymes. Onde antes havia delicadeza agora era tomado por uma escrita mais cortante, feroz, que veio acompanhada de uma sonoridade mais robusta, com tambores, ecos e muita dramatização. O sucesso alçou a artista para além do nicho indie. No The Guardian, Michael Cragg e Hermione Hoby sinalizaram o LP como uma coleção de canções “torch songs”, estilo característico do blues e do jaz em que se narram histórias de amores não correspondidos ou cuja relação chegou ao fim. Faixas como “Get Some”, “Sadness Is a Blessing” e “Jerome” corroboram a afirmação, soando ainda hoje como uma espécie de manifesto estético.

É também desse álbum seu maior sucesso, “I Follow Rivers”. Mas se engana quem crê que não houve ao menos uma ajudinha – e, neste caso, é preciso agradecer ao DJ e produtor belga The Magician, que remixou a canção e a tornou um hit improvável por toda a Europa. A música que narra a jornada de alguém arrastado por um sentimento tão forte e incontrolável ganhou roupagem na vibe “house do anos 1990”.

O fim do coração partido

Algo que Lykke Li não pode ser acusada é de ter se acomodado com o sucesso que atingiu ao extrapolar o círculo do pop alternativo. Sem repetir fórmulas, lançou, em 2014, I Never Learn, uma coleção de baladas tristes, lentas, nas quais seu eu-lírico parece consumido pela ideia de que algo chegou ao fim. É um trabalho mais austero quando comparado com o que já havia feito até então, o que fez parte da crítica torcer o nariz. Se as músicas pareciam demasiadamente tristes, havia uma razão. À Billboard, a sueca deixou claro que um episódio triste a tinha inspirado a compor aquele LP. “Eu achava que sabia o que era um coração partido até lançar esse disco”, contou.

Na mesma entrevista, a artista sinalizou que aquelas músicas eram o fim de uma era, de uma provável transição em sua carreira. Isso se comprovou quando lançou So Sad So Sexy (2018). De repente, Lykke precisou lidar com uma crise criativa entre a maternidade de seu primeiro filho, Dion, e o falecimento da mãe, três meses depois. No fim, ela se abriu mais ao pop contemporâneo e ao R&B. Dividindo as composições com a britânica Ilsey Juber (que já trabalhou com Beyoncé e Miley Cyrus) e sendo produzida por T-Minus, Skrillex, entre outros, So Sad So Sexy é bem influenciado pelo trap – uma guinada bastante curiosa.

Mas beber da contemporaneidade da música foi um gesto momentâneo. Em EYEYE (2022), ela já voltou a olhar para dentro. Gravado em grande parte no quarto de Li em Los Angeles, marca o retorno da colaboração com Björn Yttling na produção. À Vogue, a sueca sinalizou que era hora de encerrar os álbuns sobre amor e desilusão que vinha compondo desde o início de sua discografia. Talvez isso explique, em partes, porque foi um disco mais íntimo e cru, que se permitiu até mesmo ruídos do ambiente do quarto vazassem para dentro das músicas.

Para o C6 Fest, Lykke Li trará The Afterparty, registro anunciado em fevereiro passado com lançamento previsto para 8 de maio. Segundo informações de seus representantes, o novo trabalho marca uma despedida – a qual não se sabe bem se de uma fase na carreira ou da carreira em si. Se queriam mais razões para conferir sua primeira passagem no Brasil, talvez pensar que possa ser a única reforce as motivações.

—

O C6 Fest de 2026 acontece entre os dias 21 e 24 de março, no Parque Ibirapuera. Edição deste ano conta com Robert Plant, The xx, Matt Berninger e nova geração indie e jazz nos palcos. Escotilha estará na cobertura e, nos próximos dias, apresentará os artistas, dando um panorama do que o público brasileiro deve esperar dos shows.

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Tags: C6 FestLykke LiMúsica

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