Em 25 de agosto de 1994, a emissora estadunidense ABC estreou uma série adolescente que, até hoje, parece nunca ter existido. Estrelada pela então jovem Claire Danes (de Homeland), My So-Called Life durou apenas 19 episódios até ser cancelada ainda na primeira temporada, sem ser concluída. O que talvez ninguém imaginava naquele momento é que, ao longo de 32 anos, ela se tornaria um pequeno tesouro na história da TV destinada aos jovens.
De autoria de Winnie Holzman (que mais tarde seria a roteirista do musical e dos filmes Wicked), não é exagero dizer que My So-Called Lifefoi, nas décadas seguintes, elevada ao status de cult com justa causa. Trata-se de um marco televisivo da TV aberta estadunidense de um programa destinado à geração teen dos anos 1990 em que se abordava, com uma franqueza algo inédita, temas como vida escolar, convivência conjugal, amizades, homofobia, virgindade, drogas, alcoolismo, abandono e, claro, o eterno drama do amor adolescente.
Não é pouca coisa. Tudo isso foi possível pelo texto acurado de Holzman, pelos personagens que ela criou e pelos atores e atrizes escalados para os papéis. Entre os destaques, estão dois ícones: a adolescente Angela Chase vivida por Claire Danes, e a sua paixonite, o deslumbrante e desajustado Jordan Catalano, interpretado por Jared Leto. Posteriormente, ambos se tornariam estrelas de primeiro escalão.
Por que ‘My So-Called Life’ é um marco na TV para (e sobre) adolescentes?
Em 2015, um artigo da revista Wired definiu como grande trunfo da série da ABC o fato de que ela “tratava os adolescentes como pessoas, não apenas como estereótipos de pessoas”. De fato, há muitas camadas presentes em todos os personagens de My So-Called Life (no Brasil, a série foi exibida pelo Multishow com o nome “Minha Vida de Cão”). Incluindo os adultos – o que quebrava o clichê de tratar a adolescência como um período resumido à guerra contra os pais.
Quase todos os episódios eram narrados em primeira pessoa por Angela Chase, uma menina de 15 anos que estuda em um colégio público em um subúrbio fictício perto de Pittsburgh, na Pensilvânia. Ela é filha de Patty (Bess Armstrong) e Graham (Tom Irving), e tem uma irmãzinha mais nova (Lisa Wilhoit). O casal, inclusive, enfrenta algumas dificuldades, que envolvem a falta de rumo profissional de Graham e a sensação de que a família depende centralmente de Patty.
Os dramas de Angela são profundamente reais para todo e qualquer ser humano que já atravessou a adolescência. Ela está se afastando de sua amiga de infância, Sharon (Devon Odessa), enquanto se aproxima de uma colega mais “louquinha”, Rayanne (a sensacional A.J. Langer), e de seu amigo, o doce Ricky (Wilson Cruz). Tudo é intenso demais, mas seu principal sofrimento é a paixão onipresente por Jordan Catalano, um adolescente belíssimo e perdido, e que personifica perfeitamente a vibe no future da era grunge (vale lembrar que, quando a série estreia, Kurt Cobain tinha acabado de morrer).
Ao longo da temporada, vamos conhecendo a fundo os demais personagens que circundam Angela, todos cercados por alguma sombra. Rayanne, que tem grande destaque da trama, tem problemas com drogas e álcool, o que preocupa a todos – incluindo seu melhor amigo Ricky, que muitas vezes coloca em stand-by suas próprias dificuldades para “salvar” a amiga. Ricky, aliás, tornou-se notável por ser o primeiro personagem assumidamente gay em uma série adolescente.

Há também o vizinho de Angela, Brian Krakow (Devon Gummersall), um nerd desencaixado que claramente está apaixonado por ela. Mas um dos mais belos motes da série é observar o quanto todos os personagens são bons e falhos, e estão sempre prestes a magoar uns aos outros. Patty sofre com o tratamento distante de sua mãe, e passa ela mesma dificuldades de comunicação com sua filha. Angela abusa de Brian, ao mesmo tempo que mantém uma relação intermitente, vaga e abusiva com Jordan.
O galã, inclusive, está entre as figuras mais bem construídas por Winnie Holzman. Lindo como um deus grunge, Jordan é de poucas palavras (ao longo da série, descobrimos que ele é disléxico e mal sabe ler). Sua aura desconectada de tudo (e inclusive de Angela, por quem parece nutrir algum sentimento, quando muito) é (infelizmente) muito sedutora. O moço comove pelo seu desamparo, mas, ao mesmo tempo, é um adolescente macho que, no fim das contas, parece só querer transar com a protagonista.
Os dramas de Angela são profundamente reais para todo e qualquer ser humano que já atravessou a adolescência.
E, no saldo, por que My So-Called Life é tão especial? Há vários ângulos para essa resposta, mas vale destacar o quanto o texto proferido por Angela (obra, portanto, de Winnie Holzman) é único. Acompanhamos o tempo todo os seus monólogos internos, tão simples quanto profundos, que nos fazem lembrar o quanto a adolescência é um período que nos marca pelo sofrimento causado por tantos sentimentos conflitantes. É realmente um inferno – ao mesmo tempo em que nos proporciona uma experiência de intensidade que nunca mais vai se repetir.
Depois de 19 capítulos (o último, com referências a Cyrano de Bergerac, é um primor), My So-Called Life chegou ao fim, sem ser concluída. Na época, a ABC manifestou corte de custos e baixa audiência (no mesmo horário, ela concorria com as sitcoms Friends e Mad About You). Nunca soubemos então o que ocorreria com Angela, Rayanne, Jordan, Ricky e todos os outros. Mas, 32 anos depois, a boa notícia é que eles seguem tão cativantes como sempre foram.
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