A imprensa brasileira guarda um vasto catálogo de coberturas equivocadas cometidas por jornalistas e suas empresas. Lá estão, por exemplo, as barbaridades ocorridas na cobertura do caso da Escola Base, em São Paulo, o racismo ao vivo que escapou na fala de William Waack no Jornal da Globo, e certamente não dá para esquecer do famigerado sequestro da menina Eloá, que se deu em Santo André, região metropolitana em São Paulo, no ano de 2008.
Foi mais um caso do chamado jornalismo “mundo cão”, em que emissoras de TV voam para um acontecimento ao vivo tal como abutres sobre uma carniça fresca recém descoberta. Então, vale dizer que Caso Eloá: Refém ao Vivo, documentário da Netflix, é menos sobre a tragédia que acometeu uma menor de idade e sua família e mais sobre as decisões equivocadas tomadas pela imprensa, provocando o espectador a refletir se, dezoito anos depois, um caso parecido teria hoje uma cobertura diferente. A tendência é que a resposta a essa indagação seja bem pessimista.
Caso Eloá e a morte transmitida ao vivo
Quase vinte anos depois, há quem não saiba ou não se lembre da comoção provocada por este sequestro. Eloá Pimentel, que tinha 15 anos, foi namorada de Lindemberg Alves durante três anos, mas a relação havia se encerrado. Ele então passou a persegui-la e ameaçá-la. O documentário, que é dirigido por Cris Ghattas, se inicia com uma reconstituição dramática em que uma Eloá fictícia lê páginas de seu diário, revelando o quanto ela havia nutrido sentimentos por ele um dia.
Lindemberg era amigo de um dos irmãos de Eloá e colega de sua melhor amiga Nayara. Aproveitando destes fatores, ele consegue invadir no apartamento em que Eloá estava com três amigos e os mantêm em cárcere privado em um suplício que duraria um total de 100 horas – ou seja, quase cinco dias.
A tragédia – que se encerra de maneira trágica, com Lindemberg atirando em Eloá e ela morrendo no hospital – é reconstruída no filme por meio de depoimentos de familiares, amigos, jornalistas e autoridades policiais diversas que se envolveram no caso, além de muito material de arquivo, o que revela um apurado de trabalho de pesquisa. O que Caso Eloá parece querer elucidar são duas perguntas: a imprensa teve responsabilidade no desfecho do sequestro? E a polícia agiu errado nos protocolos que seguiu?
Por óbvio, não caberia a um filme dar essas respostas definitivas, e Cris Ghattas não cai nessa arapuca. O que a narrativa acaba por fazer é sugerir que houve uma série de erros cometidos pela interferência bagunçada no trabalho um do outro: a imprensa se metendo onde não podia acessar, e as autoridades tomando decisões baseando-se também no que estava sendo televisionado. Em uma crise que pedia frieza e organização, o que apareceu foi o caos.
Caso Eloá: Refém ao Vivo acerta ao focar sobretudo naquilo que é mais importante: no quanto este sequestro serviu para escancarar o desserviço prestado pelos jornais de cunho sensacionalista.
Ainda que possa dizer que Caso Eloá: Refém ao Vivo não traga novas nuances sobre a história (nós não descobrimos coisas novas, mas sim reorganizamos a trama em nossa mente), o seu acerto é focar sobretudo naquilo que é mais importante: no quanto este sequestro serviu para escancarar o desserviço prestado pelos jornais de cunho sensacionalista. Como o caso demorava para se encerrar, as emissoras (com destaque à Rede TV!) começaram a enviar equipes de plantão para transmitir cada passo e ficar ao ar 24 horas se fosse preciso.
Os registros recuperados de arquivo ainda testemunham um país cego para muitas questões. Um comentarista de uma emissora, em certo momento, fala que o sequestro deveria encerrar e que os dois deveriam se casar. Havia ainda o argumento do “crime passional”, e o então governador José Serra declarou à polícia e aos jornalistas que o crime era o ato de um “menino” que estava agindo por “amor”.
Tudo é escandaloso, assim com a frieza com que os jornalistas encaram os procedimentos do seu fazer cotidiano. Uma das ações que mais chocou o Brasil foi quando o repórter Luiz Guerra, que atuava no A Tarde É Sua, programa da Sonia Abrão, conseguiu o número e ligou diretamente para Lindemberg Alves, ao vivo – ato que, segundo a polícia, atrapalhou toda a estratégia de negociação.
Dezoito anos depois, ao ser entrevistado, ele declara que não se arrepende do que fez. Ao menos tem a dignidade de encarar as câmeras e demonstra franqueza. Já Sonia Abrão, que comandava a chacrinha e teve seu nome associado à tragédia de forma permanente, não deu depoimento supostamente por recomendação de seus advogados.
O que pode se esperar de filmes como esse, assim como de Escola Base – Um Repórter Enfrenta o Passado, é que eles cumpram uma função social: que sejam assistidos em redações e faculdades de Jornalismo e que tenham alguma reverberação entre os profissionais. Que se prestem não apenas para causar indignação, mas para suscitar alguma mudança no modus operandi desta profissão.
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