Nascida em Nova York e criada entre os Estados Unidos e Gana, Amaarae construiu uma das discografias mais singulares do pop contemporâneo. Ama Serwah Genfi, seu nome de batismo, sintetiza em sua biografia toda a experiência diaspórica que atravessa seu som. Ela é, simultaneamente, global e local, experimental e profundamente enraizada na tradição da África Ocidental. Ela vai do alté (movimento cultural surgido na Nigéria, marcado pela fusão de gêneros musicais como afrobeats, dancehall e R&B) ao pop experimental, enquanto flerta com a música eletrônica.
Sua estreia se deu com The Angel You Don’t Know, lançado em 2020, responsável por consolidar seu nome para além do circuito alternativo ganês. No registro, afrobeats, R&B e synth-pop minimalista e sensual dividem espaço. Seu nome foi alavancado quando Kali Uchis remixou a faixa “Sad Girlz Luv Money”, fazendo de Amaarae sucesso internacional. A canção chegou ao Billboard Hot 100 na posição 80. E não foi só: ela emplacou o primeiro lugar no Spotify Viral Global e nas músicas do TikTok nos Estados Unidos. Mas reduzir Amaarae a um êxito de streaming seria ignorar o que há de mais provocador em sua trajetória.
Desde seus primeiros EPs, como Passionfruit Summers (2017), ela se associou ao movimento alté, seguindo como ele uma proposta de ruptura com padrões tradicionais da indústria musical africana, incorporando referências alternativas e um tipo de comportamento considerado dissidente. A cantora se apropria, no melhor sentido da palavra, de um dos vetores mais importantes da reinvenção do pop africano na última década para dar peso à sua voz.
Mas é importante pontuar que Amaarae é uma artista completa. Sua ruptura extrapola a música, perpassando também a persona que criou para desafiar normas conservadores relativas a gênero e sexualidade. Em entrevista à Pitchfork, a cantora afirmou que sua música busca ampliar as possibilidades de representação feminina africana, recusando a ideia de submissão e celebrando o desejo feminino de maneira explícita. “Quero ser a princesa africana do pop por excelência, mas não quero ter que sacrificar a integridade da minha própria música para isso”, explicou à jornalista Mankaprr Conteh em 2020. Hoje, aos 31 anos, a artista tem bem definida sua imagem pública: figurinos andróginos e performances sensuais, partes indissociáveis de sua estratégia estética.
O pulo do gato de Amaarae veio com Fountain Baby (2023). Ousado e pouco convencional, a obra dava ao ouvinte uma sonoridade rica e cheia de contrastes, misturando pop, R&B e afropop usando, para tal, uma instrumentação bastante variada, que ia de harpas e koto japonês, a naipe de metais e tambores africanos. Desejo, riqueza, poder e vulnerabilidade foram explorados nas canções, que fugiam de clichês pop contemporâneos.
Na bagagem, o público pode esperar, também, faixas de Black Star, seu mais recente trabalho, lançado em agosto do ano passado. É pura celebração da música dançante da diáspora negra, numa clara e ousada evolução sonora da Amaarae, que mescla sua essência africana às melhores influências de dancefloor global. Na prática, ela mostra uma evidente diversidade cultural enquanto mantém sua identidade absolutamente distinta e única.
Mas é importante pontuar que Amaarae é uma artista completa. Sua ruptura extrapola a música, perpassando também a persona que criou para desafiar normas conservadores relativas a gênero e sexualidade.
Se os afrobeats se consolidaram como fenômeno internacional na última década, Amaarae escapa fácil ao rótulo de “nova estrela” do gênero. Primeiro, porque seu timbre agudo e quase etéreo foge das expectativas vocais para o ritmo. Segundo, porque a produção de seus álbuns costuma privilegiar texturas e atmosferas no lugar de explosões melódicas previsíveis. Por fim, a narrativa da cantora insiste na liberdade como gesto político: estamos diante menos de alguém interessada em representar um país e mais de uma artista que deseja se conectar a uma geração que transita por continentes, gêneros e linguagens.
Por essa razão, o leitor que quer entender quem é a personagem que irá se apresentar no próximo C6 Fest, em maio, precisa compreender que sua relevância está, justamente, na fricção entre tradição e contemporaneidade, entre intimidade e espetáculo, mas, principalmente, entre pertencimento e deslocamento. Amaarae sabe bem que sua potência é sua diferença para o pop global. Ou, como se costuma dizer, é o local que te faz universal.
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O C6 Fest de 2026 acontece entre os dias 21 e 24 de março, no Parque Ibirapuera. Edição deste ano conta com Robert Plant, The xx, Matt Berninger e nova geração indie e jazz nos palcos. Escotilha estará na cobertura e, nos próximos dias, apresentará os artistas, dando um panorama do que o público brasileiro deve esperar dos shows.
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