A nova versão de Dona Beja, lançada pela HBO Max, parte de um gesto que vai além da simples atualização de uma obra conhecida da televisão brasileira. O que está em jogo não é apenas revisitar uma história consagrada, mas reposicioná-la à luz das tensões contemporâneas. Trata-se menos de refazer uma narrativa e mais de perguntar o que ela pode significar hoje.
A minissérie original, exibida em 1986 pela Rede Manchete, escrita por Wilson Aguiar Filho com colaboração de Carlos Heitor Cony e inspirada na trajetória real de Ana Jacinta de São José, tornou-se um marco. Protagonizada por Maitê Proença, a produção entrou para a memória da TV brasileira tanto pela repercussão quanto pela forma como tratou a sexualidade feminina em um contexto ainda bastante conservador. Havia ali uma personagem que desafiava as convenções morais de seu tempo — e isso bastou para torná-la um símbolo.
Mas se aquela versão foi ousada ao tratar do desejo e da ascensão social de uma mulher em uma sociedade patriarcal, ela pouco tensionava outras dimensões estruturais da história brasileira. A narrativa permanecia confortável dentro dos códigos tradicionais do melodrama de época, preocupada sobretudo com a reconstituição histórica e menos com as ausências que essa mesma história carregava. É justamente nesse ponto que o remake encontra sua razão de existir.
A nova Dona Beja desloca o eixo da narrativa ao trazer personagens negros para o centro dramático, não mais como figuras secundárias, mas como agentes da própria história. Não se trata apenas de diversidade como ornamento, mas de uma tentativa — ainda que nem sempre plenamente resolvida — de reorganizar o olhar sobre aquele universo.
A nova Dona Beja desloca o eixo da narrativa ao trazer personagens negros para o centro dramático, não mais como figuras secundárias, mas como agentes da própria história.
Essa escolha aproxima a produção de um tipo de dramaturgia contemporânea que prefere o diálogo com o presente à reverência ao passado. Como em Bridgerton, fenômeno recente do streaming, a liberdade histórica não busca a precisão documental, mas a potência simbólica. O anacronismo, nesse contexto, deixa de ser erro e passa a ser método.
A trilha sonora reforça esse princípio. Em vez de apostar em uma ambientação musical estritamente histórica, a série incorpora canções como “Blues da Piedade”, “Pérola Negra” e “Dona de Mim”, criando uma ponte emocional com o espectador contemporâneo. São escolhas que podem causar estranhamento em um primeiro momento, mas que ajudam a definir o projeto: esta não é uma obra sobre o século XIX, mas sobre como o século XXI olha para ele.
No papel principal, Grazi Massafera assume o risco inevitável de reinterpretar uma personagem fortemente associada à imagem de Maitê Proença. Sua Beja mantém a dimensão sensual que consagrou a personagem, mas tenta acrescentar a ela uma consciência mais explícita de sua posição dentro das estruturas de poder. É uma leitura menos baseada apenas no magnetismo pessoal e mais na ideia de autonomia.
Massafera sustenta muito bem esse registro, especialmente quando comparado a outros trabalhos recentes em que investiu em tons mais caricaturais. Aqui, sua atuação busca contenção e densidade, apostando mais na presença do que no excesso característica essencial da megera Arminda, que beira o cômico caricatural na novela Três Graças, de Aguinaldo Silva, em cartaz na TV Globo.
O elenco de apoio também contribui para dar consistência ao projeto. Indira Nascimento constrói uma antagonista complexa, Maria, que evita a vilania unidimensional, enquanto atores como Tuca Andrada, Bianca Bin e Débora Evelyn ajudam a dar espessura dramática a uma narrativa que, em alguns momentos, corre o risco do didatismo.
Mais do que nomes isolados, porém, o que chama atenção é a tentativa de reorganizar a própria hierarquia dos personagens. A presença de atores negros, como a própria Maria ou o protagonista abolicionista Antonio (Davi Jr.), emocionalmente instável, deixa de ser decorativa para se tornar parte da engrenagem narrativa. Ainda que o texto nem sempre explore todas as possibilidades abertas por essa escolha, o gesto é significativo.
As fragilidades da produção aparecem justamente quando a intenção parece querer se impor mais do que a própria dramaturgia. Em alguns momentos, os temas (racismo, homossexualidade, opressão da mulher) surgem excessivamente sublinhados, como se houvesse receio de que a proposta não fosse percebida. É quando a narrativa se aproxima de um certo didatismo que reduz parte de sua força.
Ainda assim, Dona Beja se impõe como um objeto relevante dentro do audiovisual brasileiro recente. Não apenas pelo que acerta, mas também pelos riscos que assume. No fim, o que esta nova versão propõe não é substituir a obra de 1986, mas dialogar com ela. Se antes a personagem ajudou a discutir os limites impostos às mulheres, agora ela serve também para pensar quem teve o direito de existir nas narrativas históricas — e quem ficou à margem delas.
Mais do que um remake, esta Dona Beja é uma tentativa de reescrever o imaginário em torno de uma personagem que, ao que tudo indica, continua capaz de provocar seu tempo.
ESCOTILHA PRECISA DE AJUDA
Que tal apoiar a Escotilha? Assine nosso financiamento coletivo. Você pode contribuir a partir de R$ 15,00 mensais. Se preferir, pode enviar uma contribuição avulsa por PIX. A chave é pix@escotilha.com.br. Toda contribuição, grande ou pequena, potencializa e ajuda a manter nosso jornalismo.






