O Festival de Curitiba chegou à 34ª edição. Agora, o evento torna a se apresentar como algo que vai além da ideia de limitação aos palcos. Em entrevista à Escotilha, a diretora Fabíula Passina sustenta a ideia de que o festival passou a um estágio em que opera como plataforma mais ampla de cidade, circulação cultural e experiência urbana. “Ao longo de sua trajetória, o Festival foi se expandindo de maneira muito orgânica, acompanhando não apenas as transformações da própria cena teatral, mas também as mudanças na forma como o público se relaciona com a cultura e com a cidade”, diz Fabíula. Segunda ela, houve um momento em que o Festival de Curitiba “deixou de ser apenas um evento com programação concentrada em salas de espetáculo para se tornar um acontecimento que ocupa Curitiba de forma mais ampla, atravessando espaços, linguagens e públicos diversos”.
A diretora aponta como marco deste processo a primeira edição do Gastronomix, em 2009. Passini também cita a incorporação, ao longo do tempo, de iniciativas como MishMash, Risorama, Guritiba e, mais recentemente, a Mostra Surda. “Hoje, acreditamos fortemente no Festival de Curitiba como uma plataforma de encontro entre artistas, públicos, territórios e ideias, capaz de ativar a cidade não só culturalmente, mas também economicamente e simbolicamente”, afirma.
O posicionamento da direção ajuda a entender o modo como o próprio festival deseja ser lido em 2026. A ideia de ocupação urbana aparece para além da circulação de pessoas, se estendendo à movimentação do comércio e à criação de “fluxos” pela cidade. Em sua 34ª edição, portanto, o FTC se define menos como uma sequência de espetáculos e ingressos vendidos e mais como uma estrutura capaz de articular arte e experiência urbana, ao mesmo tempo que causa impacto econômico através de estímulo ao turismo e movimentação do comércio local.
Diversidade, descentralização e acesso

Quando o assunto é a democratização do festival, Fabíula faz questão de deixar claro que temas como diversidade e acessibilidade, por exemplo, não ficam apenas no plano do declaratório. De acordo com a diretora, são princípios que atravessam as decisões centrais do FTC. “Na curadoria, buscamos garantir diversidade de linguagens, estéticas, origens e trajetórias, abrindo espaço tanto para artistas consagrados quanto para novos criadores, companhias independentes e produções de diferentes regiões do país”, pontua.
Ainda de acordo com Passini, há um “esforço contínuo de descentralização”, um empenho para que a programação vá além dos palcos tradicionais do teatro curitibano, ativando, deste modo, diferentes territórios da cidade. Na prática, essa medida se traduziria em sessões gratuitas ou a preços populares (ainda que os valores da Mostra Lúcia Camargo possam ser considerados elevados para a realidade brasileira – R$ 85 na modalidade inteira -, os valores são os mesmos desde a edição de 2024 e, na última década, subiram muito abaixo da inflação acumulada no período), políticas de ingressos acessíveis, parcerias com instituições públicas, ações formativas e mediação cultural. “A diversidade, acessibilidade e democratização não são apenas valores declarados, mas critérios práticos que atravessam toda a construção do Festival”, resume.
Ainda que as falas possam soar excessivamente institucionais, elas deixam claro o lugar que o festival deseja ocupar no debate cultural contemporâneo. Para isso, o Festival de Curitiba procura se apresentar como um espaço de escala e de capilaridade. O objetivo da direção parece ser com que o FTC não seja definido apenas por sua programação central, e sim pela maneira como se espalha por Curitiba e negocia sua relação com diferentes públicos.
Recusa à ideia de “retrato” da cena

Um dos elos da curadoria da Mostra Lúcia Camargo, Giovana Soar faz questão de afastar a noção de que o trabalho do trio responsável tenha almejado oferecer um diagnóstico da cena contemporânea teatral. A curadora define a seleção deste ano como um conjunto de obras atravessado por relações temáticas, desejos da curadoria e, também, pelo momento histórico do país. A premissa parece partir da lógica de que “se a direção amplia, a curadoria freia”.
“Não pretendemos trazer nenhum ‘retrato’ das artes cênicas, esta curadoria não faz exatamente um ‘diagnóstico’ da cena nacional e/ou internacional.
Giovana Soar, curadora da Mostra Lúcia Camargo
Segundo Soar, a curadoria não teve como propósito oferecer diagnóstico algum da cena nacional ou internacional, até porque, em suas palavras, “jamais teríamos essa pretensão”. Questionada, sua resposta é interessante justamente por escapar do automatismo promocional. No lugar de vender a mostra como síntese autorizada do presente, Giovana a descreve como resultado de muitas camadas de decisão: “após muitas considerações, demandas específicas, espaços adequados, datas, relações temáticas, diversidade estéticas e de gênero, entre outros critérios”. O objetivo, segundo ela, foi reunir “um conjunto de obras que se relacionam entre si” e que funcione “como reflexo de um momento histórico, social e artístico do país”.
As resposta de Giovana dão espessura à mostra, em especial porque não atribuem a ela um papel totalizante, tampouco vende a programação como um panorama definitivo da produção contemporânea. No lugar disso, Soar a define como resultada de circunstâncias, afinidades, limitações e intenções, o que não reduz a importância das peças selecionadas, apenas as coloca em termos mais honestos.
Uma edição atravessada por memória e legado

Um outro detalhe emerge do trabalho da curadoria da Mostra Lúcia Camargo e aparece com força nas repostas de Giovana à reportagem: a ideia de memória. Perguntada sobre a presença de grupos, companhias e artistas que marcaram a história do teatro, ela responde sem titubear: “Sim, legado é uma palavra importante”.
Ela associa essa ênfase ao impacto provocado pela morte recente de artistas ligados à cena e à própria história do festival, casos de Teuda Bara, Titina Medeiros, Guilherme Reis e Maurício Vogue. “Iniciamos o ano atravessados pelo sentimento de perda que as passagens de alguns artista da cena deixaram em nós e no país. Artistas que ajudaram na construção deste festival”, conta. Em virtude disso, ela explica, a curadoria decidiu “exaltar suas passagens e suas trajetórias” também por meio da presença de companhias que seguem se sustentando e se reinventando no Brasil.
Giovana também indicou alguns dos temas que atravessam a Mostra Lúcia Camargo deste ano. “Os temas são plurais, passando por liberdade, democracia, comemoração, rememoração, violência de gênero, violências sociais, histórias verídicas, releitura de clássicos e muita celebração”, comenta. A memória que ronda as peças, logo, não surge como simples ornamento. Na realidade, está no centro da leitura que a curadoria faz desta edição.
Os motores do festival

A convivência entre modelos bastante diferentes dentro do mesmo evento foi defendida por Fabíula. Para ela, a combinação entre uma mostra central curada e o Fringe sem curadoria funciona como motor criativo. “Sem dúvida, essa convivência continua sendo uma das maiores forças do Festival”, afirma.
Na leitura da diretora do Festival de Curitiba, cada modelo cumpre uma função distinta. “Enquanto a curadoria propõe um olhar e organiza um recorte da cena contemporânea, o Fringe garante abertura, diversidade e experimentação. Um modelo complementa o outro”, diz. “É dessa combinação que vem a vitalidade e a constante renovação do Festival”, sintetiza.
“A sustentabilidade do Festival é o que viabiliza sua continuidade e escala.”
Fabíula Passini, diretora do Festival de Curitiba
A defesa de tal mecanismo faz sentido na história do evento. Enquanto, de um lado, a mostra curada organiza um discurso, estabelece relações e propõe um campo de leitura, do outro, o Fringe mantém uma zona mais instável, aberta e heterogênea. “O Fringe segue sendo um território de descoberta justamente por não partir de filtros, o que permite que a cena apareça em estado pulsante e diversa”, afirma. Segundo Fabíula, é ali que “emergem novas vozes, pesquisas ainda em construção e formas de criação que muitas vezes escapam dos formatos tradicionais”. Para a diretora, o Fringe não apenas revela artistas, mas “evidencia movimentos, aponta tendências e expõe inquietações”.
Acessibilidade, economia criativa e Brasil

Cada vez mais, o Festival de Curitiba tem procurado ser mais acessível. Para 2026, além da terceira edição da Mostra Surda de Teatro, houve a ampliação de recursos como Libras e audiodescrição. “A acessibilidade deixou de ser um complemento e passou a orientar o Festival desde a concepção da programação, influenciando curadoria, formatos, espaços e a relação com o público”, comenta Fabíula Passini.
Quando o tema é economia criativa, a diretora do FTC procura equilibrar a defesa da sustentabilidade financeira do festival e a necessidade de preservar espaço para risco e experimentação. “A sustentabilidade do Festival é o que viabiliza sua continuidade e escala”, explica. Isso é pensado, porém, sem que haja interferência no processo curatorial. “Mantemos a curadoria como um espaço de autonomia, comprometido com a diversidade, o risco e a experimentação”.
Em mais uma edição ocorrendo em ano eleitoral num país tão politicamente rachado, a diretora sugere uma leitura ampla do país que o Festival de Curitiba tentaria fazer circular. “Um país múltiplo, atravessado por contrastes, onde convivem diferentes realidades, estéticas e urgências. Um Brasil criativo, inquieto, diverso e em constante transformação”, explica. Apesar de uma formulação aberta e, inevitavelmente, genérica, deixa transparecer que os palcos mostram um país que quer ser plural, mas se vê obrigado a encarar um reflexo, por vezes, não muito agradável.
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