A associação de Matt Berninger com o The National é lógica, afinal é o rosto mais visível do grupo. No entanto, é pouco para tentar explicar quem é o músico que vem à próxima edição do C6 Fest. Dono de uma voz totalmente reconhecível, um barítono arrastado e com dicção meio cansada, Berninger é um dos letristas decisivos do rock neste século justamente por ter ajudado a banda da qual faz parte a ser um eixo central para se pensar o desgaste emocional do homem adulto, a erosão dos afetos e a política íntima do fracasso.
Oriundo de Cincinnati, o cantor chegou à música de modo até certo ponto pouco romântico. Estudante de design, ele enfrentou o universo da publicidade antes de (para o bem do público) largar essa vida estável para apostar no grupo que formaria ao lado de Scott, Bryan, Aaron e Bryce. Mas o olhar calculista e formas do designer parece ter permeado sua obra, em especial pelo senso de enquadramento e pela atenção quase obsessiva aos detalhes.
Quando o The National ia criando corpo, entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, foi logo colocado no mesmo balaio das bandas que orbitavam Nova York. Berninger chegou a reconhecer, anos depois, que a banda “pegou carona” no embalo daquela cena por algum tempo, até entender que a resposta do público já não dependia dessa proximidade. Aí, a combinação entre os arranjos elegantes, uma certa tensão difusa e a escrita que trocava o grito juvenil por uma vertigem mais próxima de quando se dá conta que a vida adulta não é lá grande coisa, fez com que o grupo tomasse o próprio rumo.
Quem acompanha o artista e vê suas entrevistas nota que se trata de um sujeito mais espirituoso do que a caricatura de ‘sad dad rock’ possa sugerir.
A cada novo disco do The National, Berninger mostrava que escrever raramente depende de confissão direta. É o tipo de compositor que prefere construir imagens que carregam humor e ruína concomitantemente. Certa vez, em entrevista ao The Guardian, resumiu de modo programático a função desse tipo de canção ao dizer que escreve olhando para o abismo, e que isso tem relação até com a saúde do próprio casamento. “Estou sempre tentando pintar as sombras para descobrir o que faz os relacionamentos desmoronarem e como evitar isso”, contou.
Agora, embora publicamente Berninger seja muito ligado à melancolia, quem acompanha o artista e vê suas entrevistas nota que se trata de um sujeito mais espirituoso do que a caricatura de “sad dad rock” possa sugerir. Ele mesmo já aceitou o rótulo com certo humor, o que não significa ignorar o risco que é passar anos mergulhando em zonas emocionais tão pesadas. O fundamental é o leitor entender que a tristeza em Matt Berninger não é adorno estético, mas método e matéria-prima.
Muito além do The National
Falar sobre o The National é importante pela impossibilidade de dissociar Berninger de sua origem. Contudo, se a banda foi onde sua assinatura artística se tornou incontornável, seus projetos paralelos o ajudaram a perceber o que muda quando “confere a grama do vizinho”. Em 2015, junto a Brent Knopf, montou o duo EL VY, com quem lançou Return to the Moon. A escrita ficou um pouco mais torta e satírica. Já em sua estreia solo, Serpentine Prison (2020), ele procurou fazer algo mais caloroso, acolhedor, menos centrado na arquitetura dramática que o alçou ao estrelato.
A busca por diferentes maneiras de compor continuo com o trabalho solo mais recente, Get Sunk, lançado em maio do ano passado. Atravessado pela tentativa de entender como uma pessoa se torna quem é, o disco ficou mais próximo do que faz com seu conjunto, como se houvesse um cordão umbilical imaginário ligando o LP solo ao The National.
Ou seja, Get Sunk, que deve rechear boa parte do setlist do músico estadunidense no C6 Fest, se assemelha a uma extensão do repertório da banda, e não como ruptura. A observação não é uma crítica, inclusive porque nunca pareceu que Berninger quisesse, grosso modo, desviar-se completamente de sua trajetória.
A essência de Matt é seu magnetismo. A pessoa que escreve como se estivesse dialogando consigo é o mesmo que no palco precisa se jogar no meio dos outros para sentir a temperatura do mundo. Quando o músico canta, parece que está sempre tentando encontrar uma frase que organize o que está destroçado. Às vezes dá certo, às vezes não. Mas não podem acusá-lo de ser inconsistente. Show para não se perder.
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O C6 Fest de 2026 acontece entre os dias 21 e 24 de março, no Parque Ibirapuera. Edição deste ano conta com Robert Plant, The xx, Matt Berninger e nova geração indie e jazz nos palcos. Escotilha estará na cobertura e, nos próximos dias, apresentará os artistas, dando um panorama do que o público brasileiro deve esperar dos shows.
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